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É Desporto

Vince Papale. O adepto que saltou do lugar de época dos Eagles para o relvado

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A equipa era má, muito má. Tão má que, num misto de manobra de marketing e tentativa desesperada, organizou treinos de captação para ver se encontrava alguém com valor. Vince Papale apareceu e conseguiu trocar o lugar de época na bancada por uma vaga no plantel. 

 

Quando tudo está mal, tudo vale a pena

 

Dick Vermeil sabia que a sua estreia como treinador na NFL ia ser muito complicada. Os Philadelphia Eagles tinham vencido apenas 16 de 42 jogos durante o reinado de Mike McCormack e, pelo caminho, tinham hipotecado o futuro da equipa ao trocar grande parte das escolhas futuras no draft.

 

Em 1976, quando assumiu o comando, os Eagles não tinham nenhuma escolha das três primeiras rondas. Com uma equipa a perder muito mais jogos do que devia, sem hipótese de captar um talento revolucionador no draft e com a exigência de uma massa adepta difícil cada vez maior, Vermeil decidiu organizar treinos de captação para todos os interessados.

 

Todos os interessados significa mesmo todos os interessados. Num misto de manobra de marketing e tentativa desesperada, os Eagles atraíram 800 pessoas. Foi um autêntico espetáculo de variedades, com médicos, adeptos praticamente obesos e jovens acabados de sair do secundário a tentarem a sua sorte.

 

«A ideia surpreendeu algumas pessoas mas acho que, no geral, a nossa iniciativa foi apreciada, sobretudo porque demonstrava que estávamos a tomar medidas para tentar melhorar o plantel», explicou o treinador, recordando que na altura os treinos de captação nem eram assim tão invulgares. «Havia equipas que costumavam organizar estágios para jogadores livres. Naquela altura nem era muito caro, só ocupava muito tempo. Às vezes era muito divertido e, de vez em quando, aparecia um jogador que valia a pena.»

 

Os Eagles não se limitaram a esperar por quem aparecesse e enviaram alguns convites, sobretudo a ex-jogadores dos Philadelphia Bell, uma equipa da então já extinta World Football League. Um deles era Vince Papale, um fervoroso adepto dos Eagles, com bilhete de época, e já com trinta anos.

 

Da bancada para o relvado

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Vince Papale era um professor com a genética do desporto na família. Quando era novo, tinha-se destacado no atletismo, o que lhe valeu uma bolsa universitária. Vince era rápido, muito rápido. Tão rápido que começou a dar nas vistas logo no primeiro dia dos treinos de captação ao correr as 40 jardas em 4,5 segundos.

 

Mas Vince era mais do que isso. Apesar de não ter uma grande experiência no futebol americano, tinha disputado duas temporadas com os Philadelphia Bell entre 1974 e 1975. Não era o melhor, mas jogava o suficiente para fazer mais dinheiro do que alguma vez tinha feito. E gastá-lo.

 

«Fazes algumas coisas estúpidas na vida quando tens dinheiro pela primeira vez», contou, recordando o período em que a vida lhe correu melhor. Mas ali, em 1976, nos treinos de captação, Vince estava prestes a fazer história.

 

«Dediquei-me ao máximo em todos os exercícios e sprintei, sprintei sempre o máximo que conseguia em tudo o que fazia. Sempre que tive uma oportunidade, aproveitei-a. E foi por isso que consegui algo», disse.

 

À medida que os interessados iam abandonando a equipa de treinos, Vince Papale resistia. Foi ficando e começou a alimentar uma pequena esperança de que podia mesmo saltar da bancada para o relvado: «Eu tinha bilhete de época e costuma estava nos degraus a pensar que se tivesse uma oportunidade talvez conseguisse fazer a diferença. Ainda bem que o Dick Vermeil me deu essa oportunidade e a escola onde dava aulas me deu autorização para uma licença sem vencimento durante os treinos».

 

O dia das decisões

 

Vince Papale ainda não tinha qualquer confirmação oficial mas houve um dia em que chegou ao balneário e viu o seu nome escrito num cacifo. Estranhou mas não quis deixar a mente vaguear pela incerteza e festejar um sonho que ainda podia terminar em pesadelo.

 

Quando um dos assistentes, o que costumava informar os jogadores dispensados, se começou a aproximar do seu cacifo, Vince pensou que seria o fim da linha. Mas afinal não era ele, era o jogador que estava sentado ao seu lado.

 

«Não quis começar a festejar com champanhe porque ainda não tinha nenhuma confirmação oficial. Entretanto, entrei no campo e a minha mente não parava: “Ó meu Deus, acho que sou um Eagle mas não tenho a certeza!”. Foi nessa altura que o treinador veio direito a mim e, com um grande sorriso me deu os parabéns e as boas-vindas à equipa».

 

Dick Vermeil garante que Papale era um bom jogador e que foi escolhido por ter talento. Mas não esconde que houve outros atributos que foram tidos em conta: o carisma e a grande ligação que tinha àquela zona da cidade.

 

«O Vince mostrou grande paixão e desejo de aproveitar esta oportunidade desde o início. Foi-lhe dado uma chance e ele agarrou-a com unhas e dentes. Mostrava boas características como wide receiver mas era nas equipas especiais que era mesmo, mesmo bom», recordou Vermeil anos mais tarde.

 

Um novo Rocky em Filadélfia

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A história era digna de um filme (e deu mesmo, com o título «Invencível», com Mark Wahlberg no papel de Vince Papale em 2006) e acontecia muito pouco tempo depois de Sylvester Stallone ter desempenhado o papel de Rocky.

 

Dick Vermeil reconhece as semelhanças. «As pessoas comparavam muito a sua história à de Rocky. Ele era o nosso Rocky, um rapaz grande de origem italiana que podia apanhar a bola e mudar de direção muito bem. E apesar de já ter trinta anos jogava como um miúdo excitado de 16.»

 

A vida de Vince Papale nunca mais foi a mesma. Recebeu 21 mil dólares na primeira época, acabou com as dívidas, e tornou-se um herói das bancadas, que o viam como um deles. Durante três épocas, esteve em 41 jogos e ajudou a equipa a passar de um registo de 4-10 para 9-7. Pelo meio, o momento que guarda com maior felicidade foi quando forçou um fumble na época de estreia contra os Giants. Os Eagles venceram 20-7 e foi a primeira vitória da época. A primeira de Vermeil e a primeira de Papale.

 

A carreira terminou em 1979 durante a pré-época por culpa de uma lesão no ombro. Hoje, quase 40 anos depois, Vince Papale é um dos milhões de adeptos a festejar a Super Bowl. E fá-lo como adepto e ex-jogador. Algo que muito poucos acreditariam ser possível um dia.

RPS