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É Desporto

Vicente Blasco. Fazer Bilbau-Paris de bicicleta para desistir no primeiro dia do Tour

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Espanhol tinha o sonho de participar no Tour e fez-se à estrada da única maneira que conseguia para estar na linha de partida da edição de 1910. A primeira etapa, numa ligação sempre complicada de Paris a Roubaix, foi demasiado dura para aguentar e foi obrigado a desistir. Ingrato para El Cojo, o homem que tinha perdido os cinco dedos do pé direito num acidente numa fábrica. 

 

Pedalar por um sonho

 

Esta é a história de um homem que descobriu um sonho no meio de muitos pesadelos. Basco, nascido em 1884, Vicente Blasco Etxeberría era filho de um marinheiro e começou a trabalhar num barco, ora como ajudante de cozinha ora na casa das máquinas, aos 13 anos.

 

Mais tarde, cansou-se do mar, e foi trabalhar para uma fábrica de siderurgia. Tinha 20 anos e um talento nato para… sofrer acidentes. Era a sua característica mais distintiva, fosse no barco, na fábrica ou na rua. Num dos incidentes, enquanto trabalhava, perdeu os cinco dedos do pé direito e ganhou a alcunha de El Cojo.

 

Dizia-se que tinha mais feridas no corpo do que todos os toureiros de Espanha juntos mas Vicente encontrou uma forma de ser feliz, sem se incomodar com as quedas ou com as atividades que representavam um risco maior. Por isso, com o dinheiro da indemnização após o acidente, decidiu comprar uma bicicleta em segunda mão.

 

A paixão estava encontrada. Mais do que uma forma de transporte que lhe fazia ganhar muito tempo, sobretudo tendo em conta as suas dificuldades de locomoção, Vicente tinha descoberto uma atividade que lhe dava prazer. Daí a participar nos primeiros campeonatos foi uma pedalada.

 

Do campeonato de Biscaia até Paris

 

Vicente Blasco começou como um «carola». Alguém que gostava de andar de bicicleta mas estava longe de ter as mesmas condições dos ciclistas de maior renome em Espanha. Ainda assim, foi quarto no campeonato de Biscaia e despertou a atenção dos organizadores.

 

O resultado garantiu a aposta da federação viscaína que lhe ofereceu uma bicicleta mais moderna. O impacto foi imediato: Vicente venceu o campeonato de Espanha em duas edições consecutivas e sentiu que estava na altura de fazer história e tornar-se o primeiro espanhol a participar no Tour em 1910.

 

Este é um asterisco na história. Se 1910 é, para muitas fontes, a primeira participação de um espanhol na competição, outra fonte destaca que o francês Joseph Habierre, que se estreou em 1909, é na verdade o espanhol José Maria Javierre. Nascido em Espanha, mudou-se para França com quatro anos e passou a ser conhecido pelo nome gaulês.

 

O sonho de estar no Tour era mais forte do que tudo na sua vida até então. Queria estar entre os melhores e não havia limites para a sua perseverança. Na altura, havia duas formas de participar: fazendo parte de uma equipa ou através de uma inscrição isolada.

 

Blasco contou com o apoio do presidente da Federação Viscaína, que enviou uma carta à organização do Tour para que a inscrição do ciclista fosse aceite. Com a parte burocrática a ser tratada, faltava a logística mais difícil: chegar a Paris.

 

Um Tour antes do Tour

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Por esta altura da história, já se percebeu que o dinheiro não abundava na vida de Vicente. A única solução encontrada para chegar a Paris para competir na prova que começava a 5 de julho foi ir de bicicleta. Durante cinco dias e cerca de mil quilómetros, Vicente Blasco pedalou com uma pequena mala com comida e foi ficando cada vez mais debilitado.

 

A chegada a Paris aconteceu a 4 de julho. Vicente Blasco foi ajudado por um mecânico espanhol de uma equipa francesa, formalizou a inscrição, recebeu uma bicicleta mais adequada para o Tour e foi descansar (o que pôde) antes dos 272 quilómetros de inferno entre Paris e Roubaix.

 

A epopeia que começara em Bilbau tinha deixado marcas demasiado fortes no corpo de Vicente. O esforço épico não serviu de nada e, de acordo com o site do Tour, Vicente Blanco (apelido trocado) não chegou a terminar a primeira etapa.

RPS