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É Desporto

Um sábado em Roland Garros

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Filas para entrar, para sair, para comer e para ir à casa de banho, insetos terríveis que obrigam a uma visita à enfermaria e um sol que não perdoa. A nossa experiência no Grand Slam parisiense teve disto tudo, mas também teve ténis de alto nível.  

 
Uma experiência marcada há anos
 
Alguns sonhos existem para não ser realizados, mas eu não tenho desses. Sou uma rapariga de sonhos simples de realizar, ainda que nem sempre baratos. Assistir a um dia de ténis em Roland Garros é um desses - e existe há anos.
 
A terra batida tem um encanto especial. A característica cor dos courts, as marcas no chão que dispensam o olho de falcão, os pontos mais longos do que em qualquer outra superfície dão ao ténis um encanto que pisos mais rápidos não conseguem. Roland Garros é, para mim, o expoente máximo do ténis. E Paris está ali ao lado - um dia havia de ir.
 
Esse dia chegou no sábado, a última jornada da terceira ronda dos torneios de singulares no Grand Slam francês. A viagem para Paris estava marcada há meses - nem um pequeno percalço que me podia ter deixado impedida de andar de avião abalou a nossa confiança - e quando recebemos informação de bilhetes «de última hora», no início de maio, sabíamos que era a nossa oportunidade. Depois de mais de uma hora de espera no site do torneio, e de anos a sonhar com a possibilidade, tínhamos os bilhetes «na mão»: íamos estar no Suzanne Lenglen no dia 2 de junho.
 
O entusiasmo do calendário
 

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Quando os encontros da terceira jornada ficaram definidos, dois dias antes da nossa ida, o verdadeiro entusiasmo chegou. «Claro que o Nadal vai jogar no court principal, mas será que temos direito a Del Potro...?» No dia anterior soubemos que os nossos bilhetes nos dariam lugar para ver Fognini com Edmund, Herbert com Isner e ainda Begu, Caroline Garcia, Serena Williams e Goerges.

 
Nos courts anexos, onde podíamos também entrar, João Sousa ia jogar um encontro de pares ao lado de Leonardo Mayer.
 
Só no final do dia de sexta-feira soubemos (e agradecemos aos céus) que a chuva tinha interrompido o encontro entre Monfils e Goffin e esse seria terminado no nosso court, no dia seguinte. Ver um dos meus jogadores preferidos, francês, a jogar perante o seu público em Roland Garros estava muito perto de ser um ás.
 
Meio mundo em Roland Garros?
 

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E certo é que, no que toca a ténis, Paris não desiludiu. Depois de várias filas e três controlos de segurança, com dezenas de pessoas a garantir que nada corre mal, chegámos ao recinto em cima do final do encontro de João Sousa, que abandonou o court com cara de poucos amigos depois de perder por 2-0 com os espanhóis Lopez (Feliciano e Marc).

 
Mudámos rapidamente o rumo e seguimos para o Suzanne Leglen, onde Fognini e Edmund já mostravam que podíamos estar perante uma dura maratona. E foi aí, assim que ocupámos os nossos lugares, que começou o martírio. Pelos vistos incomodámos uma das «bêtes de Roland Garros», e eu paguei o preço. A picada do inseto levou-me a conhecer a enfermaria do torneio, cheia de gente simpática e cuidadosa, onde só faltou mesmo conseguir ver a televisão onde mostravam imagens dos courts.
 
Meia hora depois, já de curativo e com o braço com o dobro do tamanho normal, foi tempo de arranjar comida. Mantendo a tradição de todos os grandes eventos desportivos, Roland Garros tem a sua dose de filas de horas para restaurantes. Mas a organização conseguiu premiar as pessoas inteligentes e dar a opção de pré-encomendar alguns menus online - foi só questão de aproveitar o tempo e o fim dos custos do roaming na enfermaria e, cinco minutos depois de sair, tinha o meu saco com duas refeições.
 
Aquilo que a organização não conseguiu resolver foi a fila para a casa de banho - mais meia hora perdida aí e, uma hora depois de ter saído do meu lugar, voltei a tempo de ver Fognini a vencer a negra. «Agora preciso mesmo é de um banho. E de comer»: foi assim que o italiano se despediu do público.
 
O encontro de Monfils vinha a seguir e o court mostrava bem que quem ia jogar era francês. O ambiente tornou-se elétrico e, apesar dos aplausos e manifestações de apoio a Goffin também existirem, não havia dúvida de quem era a estrela ali. Infelizmente, para mim e para o público presente, os vários match points que teve à disposição não foram suficientes para impedir um quinto set e a derrota de Monfils. 
 
Uma pausa bem merecida
 

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Tínhamos um encontro e meio jogados no court e já eram quase cinco da tarde. Nem o facto de Caroline Garcia ir jogar logo a seguir, com Irina Begu, evitou o êxodo do court - nós fizemos parte da multidão que abandonou os seus lugares e procurou um lugar longe do sol para fazer uma pausa e trincar qualquer coisa. Afinal de contas, tínhamos saído de casa pouco antes das quatro da manhã para apanhar o primeiro voo para Paris. A fatura estava a caminho...

 
Mais uma vez, filas. Para sair, para comer, para andar no recinto. A solução que encontrámos foi abrigarmo-nos na sombra de um court anexo, onde duas juniores treinavam (quem sabe não teremos visto a Serena Williams do futuro?). Quando o lanche acabou e a sombra começou a ser invadida por dezenas de pessoas, achámos por bem voltar ao Suzanne Lenglen e prepararmo-nos para Serena Williams.
 
Já não havia grande dúvida que o encontro de Isner e Herbert ia mudar de casa, já que as maratonas iniciais tinham atrasado muito o calendário. Tínhamos portanto um último jogo para ver - e se o ambiente para ver Monfils estava elétrico, para ver a ex-número 1 (ou eterna número 1?) mundial não ficava nada atrás. Serena Williams entrou bem e decisiva no encontro, aproveitou a energia do público e pela primeira vez nesta edição, jogou realmente bem. Mal sabíamos que dois dias depois ia desistir antes de defrontar Maria Sharapova. Tivemos sorte.
 
Mike Tyson e o final de um dia em cheio
 
Quase oito horas e meia depois de entrarmos em Roland Garros era tempo de partir. Alguns encontros ainda decorriam, mas nunca teríamos hipótese de bater as... filas, claro, para entrar nesses courts, por isso achámos por bem despedirmo-nos do recinto. Nova fila (mais pequena, desta vez), para sair do court, e damos por nós a ser empurrados por seguranças que criam um cordão de segurança e nos impedem de passar.
 
A curiosidade é mais forte: quem vai ali? Nenhum tenista que tenha passado por nós vai com uma entourage tão grande. Uma mulher exuberante chama a atenção, e ficamos convencidos que quem vai ali é alguém que não conhecemos. Mas depois, no último momento, uma tatuagem característica e uma cabeça rapada chamam a nossa atenção: é Mike Tyson quem vai rodeado de segurança a sair do estádio. As impressões? Para que é que um boxeur precisa de tanta gente e... bolas, é mais baixo do que se esperava.
 
Por outro lado, analisando bem as coisas agora, a frio, ainda bem que ia rodeado de tanta gente. Não há dúvida de que é preferível ser picada por um inseto no braço do que mordida na orelha por Tyson.
 
Seguimos caminho e, depois de uma longa caminhada, estamos novamente no metro, no meio de rostos e ombros escaldados e caras cansadas. 
 
A nossa experiência em Roland Garros tinha tido de tudo: excelente ténis, multidões, partidas inesperadas e muitas horas bem passadas. Para ser 100% Paris, só nos faltou a chuva e o cancelamento de jogos. Ainda bem que esses não chegaram.