Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É Desporto

Uganda. No quintal obsessivo de Idi Amin

idiamin.jpg

Ditador comandou país africano entre 1971 e 1979 e não olhou a despesas para promover o futebol ugandês. Na memória, além da final da CAN perdida no Gana, fica a visita de Pelé que surpreendeu tudo e todos.

 

 

O coração batia por desporto

 

Quando Idi Amin chegou ao poder em 1971, o desporto já era um denominador comum na sua vida. Campeão nacional de boxe na categoria de pesos pesados e um dos talentos mais temíveis na África Oriental e Central, nunca escondeu a paixão pela natação, râguebi e, sobretudo, futebol.

 

O chamado desporto rei era diferente. Amin sentia a forma como um povo se conseguia unir em torno de uma equipa e percebia que poderia juntar o útil ao agradável se fizesse do futebol a principal bandeira do Uganda.

 

Durante o sua ditadura militar, o Uganda conseguiu a proeza de marcar presença em três edições consecutivas da Taça das Nações Africanas: 1974, 1976 e 1978. Mas falhou o principal objetivo: chegar ao Mundial. E Amin estava disposto a tudo, mesmo tudo para o conseguir.

 

Um homem, duas caras

 

O regime de Idi Amin, transportado para o cinema por Forrest Whitaker em «O Último Rei da Escócia», foi tão brutal que o ditador ganhou a alcunha de Carniceiro do Uganda. Os números variam mas estima-se que cerca de 500 mil pessoas tenham morrido ou desaparecido num espaço de oito anos.

 

A equipa de futebol, no entanto, raramente teve razões de queixa. Amin via na equipa a forma de se afirmar a nível regional e continental. Em 1976, na CECAFA Cup (competição continental para as seleções da África Oriental e Central), os ugandeses foram até Zanzibar derrotar a Zâmbia na final (2-0).

 

Para Amin foi a cereja no topo do bolo, devido às tensões políticas com a Tanzânia e a Zâmbia, provocadas pela política de receção de exilados ligados à oposição no Uganda. Vencer um rival no terreno do outro rival foi tão precioso que os jogadores foram recompensados.

 

O ditador ordenou ao avião que transportava a equipa de regresso a não aterrar sem que pudesse ser organizada uma festa digna para receber os campeões. E, quando o fizeram, todo o plantel foi surpreendido com umas férias pagas na Líbia.

 

Dois anos depois, o cenário foi muito diferente, apesar de o segundo lugar na CAN ser, até hoje, o melhor momento futebolístico do Uganda. «Éramos os underdogs e isso ajudou-nos a batalhar ainda com mais força para provar algo aos outros. Mas quando voltámos não havia nada, só as nossas famílias estavam à espera», queixou-se Tom Lwanga recentemente, em declarações à CNN.

 

O descontentamento foi tão grande que Lwanga conta que um membro da delegação terá mesmo enviado um telegrama para o Uganda a relatar a suspeição que tinha de que os jogadores se tinham deixado corromper antes da final perdida para o Gana. «Antes de embarcarmos para a prova, Amin disse-nos que se ganhássemos teríamos direito a carros e casas. Mas não estava destinado», desabou Lwanga.

 

Proteção ao plantel

uganda.jpg

A receção fria foi uma exceção durante os oito anos de governação. Apesar de tudo, Amin compreendia a importância da seleção e não escondia o sonho de alcançar feitos maiores. Lwanga conta que, antes dos jogos com a Zâmbia e a Tanzânia, Amin oferecia incentivos especiais: «Dava-nos algum dinheiro: 200 ou 300 dólares a cada um, em notas, e dizia-nos para jogarmos bem e regressarmos com uma vitória».

 

«O futebol uniu-nos mais do que alguma vez outra coisa tinha conseguido antes. Nem a religião consegue unir o povo do Uganda desta forma. É o futebol que traz todas as pessoas, religiões e tribos para a mesma mesa», afirmou Lwanga.

 

O plantel era amador e muitos dos jogadores eram membros do exército ugandês. Além das recompensas financeiras, era provável que houvesse promoções destinadas para quem se destacasse em campo. «Mas também sabíamos que não podíamos abusar da sua boa vontade.»

 

Além disso, a proteção era sempre máxima. Certo dia, antes da partida para a CAN-1978, Amin foi falar com os jogadores e perguntou se havia algum problema. Um levantou-se e queixou-se de um editorial que tinha saído no jornal. Ali, naquele momento, Amin considerou o jornalista inimigo do estado, obrigando-a a exilar-se antes de ser detido.

 

Antes, em 1977, o Express FC foi banido do campeonato depois de o governo ter afirmado que tinha ligações com opositores exilados na Tanzânia. Entre as várias detenções, havia dois jogadores: John Ntensibe e Mika Kiganda.

 

Os dois não voltaram a ser chamados à seleção mas foram libertados por ordem presidencial, assim que Amin descobriu que a polícia tinha prendido dois futebolistas.

 

Um convidado chamado Pelé

A visita de Pelé ao Uganda em 1976 começa a escrever-se a 30 de outubro de 1974 quando Kinshasa (Zaire) recebe Muhammad Ali e George Foreman para o Rumble in the Jungle. Amin teve inveja. Um pugilista como ele, antigo campeão e famoso por ganhar um combate por KO já quando era presidente, tinha sido ultrapassado por um país rival.

 

O problema não era apenas esse. O Uganda não era bem visto no contexto internacional e estava longe de ser considerado um país seguro para visitas estrangeiras. Para combater essa noção, a visita de Pelé entrou em ação.

 

Estávamos em 1976. Tinham passado apenas seis anos do Mundial do México e o brasileiro era uma estrela à escala planetária. A viagem ao Uganda seria uma enorme manobra política desenhada e executada de forma perfeita pelo ditador.

 

A Pepsi foi a principal impulsionadora de toda a programação mas a partir do momento em que aterrou tudo ficou a cargo do Uganda. Durante três dias, viajou pelo país de helicóptero, visitou alguns dos locais mais famosos e organizou uma sessão de treino no estádio internacional.

 

«É talvez a visita mais importante que o Uganda recebeu. E lembremo-nos que a Rainha isabel II visitou-nos em 2007, tal como Bill Clinton em 2003. De facto, antes da visita de Pelé, também Stanley Matthews tinha estado no Uganda. Mas a visita de Pelé ofusca todas as outras. Era muito, muito, muito maior que a rainha e que Clinton», recordou Fred Sekitto, jornalista na altura.

 

«A visita de Pelé foi o maior evento daquele ano. Começámos a prepará-la logo em janeiro e só acabou quando aterrou, em fevereiro. Dedicámos honras de primeira página a tudo o que fazia. E depois ficámos até ao final do ano a relembrar o que tinha acontecido. No que diz respeito aos ugandeses, 1976 foi o ano de Pelé», continuou.

 

O dia da chegada de Pelé foi como um feriado nacional. Os comerciantes fecharam as lojas e vieram para a rua esperar que o brasileiro passasse. A expetativa era enorme e a sessão no estádio internacional, reservada a crianças entre os sete e os dez anos, provocou uma enchente tão grande que a polícia foi forçada a fechar as portas.

 

Idi Amin queria algo mais de Pelé. Queria que o Uganda fosse como o Zaire, queria que o seu país também se pudesse qualificar para um Mundial. E perguntou-lhe o segredo, a fórmula do sucesso para levar o país africano até uma fase final. Mas nunca conseguiu.

 

O depois de Amin

 

A ação militar na Tanzânia marcou o início do fim da ditadura militar de Idi Amin no Uganda. A partir de janeiro de 1979, os conflitos regressaram e o líder foi obrigado a fugir pela própria vida. Para trás, ficou a confusão e as marcas de um passado cheio de restrições e ligações duvidosas.

 

Fred Isabirye e Meddie Lubega estiveram entre os jogadores da Taça Africana das Nações em 1978 mas foram executados com tiros na cabeça devido ao passado no exército de Amin.

 

«Quando se descobria que alguém o tinha servido, ou eras apanhado ou andavam disparar sobre ti. Não era seguro, as coisas foram muito más», lamenta Mwanga.

 

Aos poucos, a estabilidade regressou mas o futebol nunca mais foi o mesmo. Tanto que só este ano, 39 anos depois, o Uganda voltou a marcar presença numa Taça das Nações Africanas.

 

«Os tempos eram diferentes na altura», recorda o capitão de 1978, Jimmy Kirunda. «Havia o apoio total do governo para o desporto. Tínhamos tudo o que queríamos.»

 

Amin morreu na Arábia Saudita em 2003. O filho, Taban, garante que nunca perdeu a paixão pelo desporto, nadando quatro horas por dia e explorando todas as oportunidades possíveis para falar sobre o futebol no Uganda com quem encontrasse.