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É Desporto

Toni. «Houve Vitória de Setúbal a mais para Benfica a menos»

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Faz hoje 23 anos que o Benfica sofreu a maior goleada da temporada 1993/94 (5-2 em Setúbal). Há três anos, no i, telefonei a Toni para fazermos uma entrevista sobre este momento. Aceitou, sem problema, e acabámos a falar, com vista para o Tejo, sobre tudo o que aconteceu na temporada. Das saídas de Paulo Sousa e Pacheco ao triste adeus para dar lugar a Artur Jorge.

 

 

Um dia como poucos outros

Domingo, 21 de novembro de 1993. Benfica, Boavista e Sporting partilham a liderança do campeonato com 15 pontos, com o FC Porto a dois de diferença. Na décima jornada do campeonato, as águias têm uma deslocação aparentemente simples ao terreno do último classificado. Em Setúbal, o Vitória tem apenas três pontos e precisa urgentemente de começar a vencer. O Sporting-FC Porto é o jogo da jornada (Domingos marca o único golo aos seis minutos), mas o escândalo do dia é a goleada que o Benfica sofre – 5-2 na primeira derrota da equipa de Toni na temporada (desde então, os encarnados só sofreram cinco golos num jogo do campeonato no 5-0 do Dragão em 2010/2011). O encontro serve de lição e a partir daí os futuros campeões partem para uma época inesquecível que é coroada com o 6-3 ao Sporting em Alvalade no jogo do título. 

 

Como foi saber que Paulo Sousa e Pacheco iam abandonar o Benfica?

É um período difícil na vida do Benfica, económico e financeiro, em que o clube ficou vulnerável a estes ataques. Houve jogadores que saíram porque puderam rescindir por justa causa. Saiu o Paulo Sousa, o Pacheco, e poderia ter saído o João Pinto, que ficou fundamentalmente devido ao senhor Jorge de Brito e a Valentim Loureiro, que também foi uma peça importante na recuperação do jogador. Houve ainda ali uns ameaços do Rui Costa…

 

Para o Sporting também?

Sim. Os estragos ficaram limitados ao Paulo Sousa e ao Pacheco. Depois houve que reformular a equipa, que ainda ficou com uma base muito importante e boa para poder discutir os desafios que tinha pela frente: campeonato, Taça de Portugal e ir o mais longe possível na Taça das Taças. Não se pôs a cabeça na areia, porque o que conta são aqueles que ficam, e houve um compromisso e uma cumplicidade muito grande entre todos. Mesmo nos dias que antecederam a pré-época, a situação do treinador também não estava consolidada, a minha continuidade não estava definida…

 

Do seu lado ou do da direcção?

Do lado da direcção. As coisas ficaram na mesma, a equipa técnica continuou e partimos com ambição e com a vontade de ser campeões.

 

Do ponto de vista anímico e mental, o arranque foi um bocado sofrido…

Sim. Aquilo que queríamos era arrancar com três vitórias em vez dos três empates. Mais do que aquele 3-3 no Porto, houve dois jogos em que empatámos [1-1 na Luz com o Estoril e 1-1 em Aveiro com o Beira-Mar] o que tornou o começo periclitante. Não foi brilhante, não foi um começo em que o Benfica foi mandão como depois acabou por ser.

 

Sentiam que estavam mal?

Sim, mas isto não interessa como começa mas sim como acaba. Há realmente um começo hesitante do Benfica, mas a equipa recupera, as vitórias trazem confiança e, se houver dúvidas, ficam dissipadas com os triunfos.

 

Depois dos três empates há seis vitórias consecutivas e é nesse momento que vão a Setúbal jogar contra uma equipa que estava em último com apenas três pontos. Houve excesso de confiança?

Não. Lembro-me perfeitamente desse jogo e lembro-me até que nessa semana há um jogo da selecção [Itália-Portugal, 1-0, com Veloso, Rui Costa, João Pinto e Vítor Paneira no onze e ainda Neno e Rui Águas no banco] e praticamente só tive os jogadores comigo na sexta-feira. Mas, mais do que escudar-me com isso, lembro-me de o Vitória de Setúbal ter dois jogadores muito importantes. Sobre a direita tinha um brasileiro muito rápido que era o Sérgio Araújo e depois um ponta-de-lança nigeriano, que infelizmente já morreu, que era o Yekini. Não era um jogador muito dotado do ponto de vista técnico, mas fisicamente era impressionante. … O Vitória de Setúbal chega de forma muito fácil ao 3-0 [Yekini 29’, Sérgio Araújo 39’ e Paulo Gomes 52’], depois houve uma reação e chegamos ao 3-2 [Vítor Paneira 55’ e Aílton 66’] e estamos perto do 3- 3, mas aparece o 4-2 [Yekini 73’] que sentencia o jogo [Chiquinho Conde faz o último aos 82’]. Realmente, houve Vitória de Setúbal a mais para Benfica a menos.

 

Foi muito mau?

As derrotas nunca devem ser encaradas como um drama. São sempre pontos perdidos para que possamos corrigir coisas que possam não ter estado tão bem e que nos levem a prosseguir o nosso caminho. Depois dessa derrota só vai aparecer outra uns meses depois [Abril, com o Salgueiros]. Isto reflecte que foi mais um acidente do que outra coisa qualquer. Se a equipa estivesse mal, iria estar mal mais vezes. Não acusa a derrota, só perde com o Salgueiros meses mais tarde e depois na última jornada com o Boavista, quando faço algumas alterações para alguns jogadores serem campeões. Podia lembrar-me também do 7-1, em que é a única derrota do Benfica no campeonato e que é um acidente. Gostaria de perder sempre 7-1 com o Sporting e 5-2 com o FC Porto ou o Vitória de Setúbal e ser campeão. Nunca fiz das derrotas um drama, mas pontos de partida para trilhar outros caminhos sem cometer os erros.

 

No final do jogo disse que «quando a justiça do resultado não deixa dúvidas só se pode dar os parabéns ao adversário e ao futebol». Houve alguma reacção negativa durante a semana dos adeptos?

Quando se perde 5-2 num clube como o Benfica é natural que não se fique insensível. Mas a pressão é inerente à profissão que se escolhe, não existe só no jogador e no treinador. Quando se chega ao final de um jogo que se perde por 5-2, não se pode invocar que só se teve os jogadores à sexta, porque se tivéssemos marcado sete golos tínhamos vencido 7-5. Como não marquei, perdi. Perdi e tenho de reconhecer o mérito ao adversário, não posso arranjar desculpas esfarrapadas. Quando é assim tenho de dar os parabéns à outra equipa e ao mesmo tempo fazer o meu discurso para os jogadores…

 

E qual é que foi?

Nada está perdido. Isto não põe em xeque todo o trabalho que fizemos nem deixa de nos desviar minimamente do nosso objectivo. Temos é de saber as razões objectivas que nos levaram a este desaire e tirar ilações. E não podemos abdicar dos nosso princípios. O importante é que a confiança não seja abalada. Nesse jogo há um jogador que acabo por tirar da equipa, não como bode expiatório, porque quem assume a derrota é o treinador…

 

Está a falar do Abel Xavier?

Sim.

 

Começou por sair logo ao intervalo, para entrar o Aílton…

Sim, mas aí temos de arriscar e tentar inverter a situação. O Abel Xavier foi um jogador que nunca perdeu a minha confiança mas era importante ter uma conversa com ele. Depois acaba por ser uma peça muito importante no decurso da época, mas há um período em que para salvaguardar o jogador temos de tomar decisões que deixem a equipa sempre acima de todos. E o Abel Xavier percebeu a minha conversa e acabou por fazer um resto de campeonato forte.

 

Há uma mudança depois desse jogo. Kulkov ainda não tinha jogado e depois passa a ser titular indiscutível, entra no jogo seguinte e só falha três jogos até ao final.

Vamos associar o Mostovoi e o Yuran ao Kulkov. O Benfica teve três grandes jogadores ao seu serviço, mas tiveram dificuldades em afirmar-se e os dois últimos nem no FC Porto se afirmaram, com o clube a dar-lhes logo a corda aos sapatos ao fim de um ano. Se lermos uma entrevista que o Yuran já deu, ficamos a perceber muito daquilo que foi a sua passagem. Disse que enquanto treinador não gostava de ter jogadores com o carácter dele. Aí está a resposta para aqueles que na altura foram meus críticos.

 

Mas centremo-nos no Kulkov.

De todos era o mais cerebral. Mas tal como Yuran era um amante da noite e estava fora até às cinco, seis da manhã. Era espectacular no último passe e se tivesse encarado o futebol de uma forma profissional teria sido o que quisesse. Tinha uns pés, uma inteligência, um sentido posicional espectacular.

 

Na receção ao Sporting houve alguma conversa diferente por ser o regresso de Paulo Sousa e Pacheco?

Não, as pessoas tomaram as suas decisões e seguiram o seu caminho. O importante é que se seja um profissional íntegro na defesa do clube em que se está. Nunca deixei de ser amigo deles. Eles fizeram uma opção, não sei se se arrependeram ou se para eles a decisão que tomaram foi certa. Foi um problema deles, não tinha sequer de questionar. É natural que o adepto assobiasse, eles não estavam à espera de receber palmas. Eu compreendi as posições que tomaram, mais nada.

 

A meio da época, Manuel Damásio é eleito. Há alguma consequência?

Quando as mudanças acontecem a meio de uma época nunca são muito boas. O nosso objectivo desde o primeiro dia era o campeonato, e disso ninguém nos desviava. Continuámos a desenvolver o nosso trabalho dentro das dificuldades financeiras que o clube vivia porque os meses passaram a ter muito mais de 60 dias. Aliás, 59, porque 60 já dava direito a rescisão, mas os jogadores sabiam que estavam num clube sério que não ficava a dever um escudo a ninguém. O nosso compromisso não podia ser afectado porque tínhamos era de cumprir com as nossas responsabilidades. Sabíamos que do outro lado ia acontecer o mesmo. Foi por isso que conseguimos manter sempre a chama viva, apesar dos problemas financeiros.

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Já falou no Yekini e no Sérgio Araújo. Que mais jogadores se destacavam?

Havia um jogador brasileiro do Marítimo que se chamava Heitor. Não havia explicação para aqueles livres diretos, de “três dedos”, como os brasileiros lhes chamam. Depois havia um outro brasileiro no Beira-Mar que molhava sempre o bico contra nós…

 

O Dino? Que marcou ao Benfica em Aveiro nessa época?

Sim, é esse. Era rápido. Depois o Boavista também tinha sempre bons jogadores e há equipas que são historicamente complicadas. No meu tempo havia a CUF, o Vitória de Setúbal, o Vitória de Guimarães, a Académica, o Varzim, com um estádio em que o vento era difícil...

 

Pedro Barbosa, Ziad…?

Sim, esses. Havia outro no Gil Vicente, um careca, o Caccioli.

 

Se lhe falar no 8-0 ao Famalicão, qual é a primeira memória que tem?

É a de um rapaz chamado Celestino, que faz dois golos na própria baliza. Até acho que foi a maior goleada dessa época. Foi num jogo à noite na Luz…

 

Neste 8-0, o plano geral do estádio mostra as bancadas quase desertas.

No meu tempo de jogador, os jogos eram sempre à tarde e a média de espectadores era 45 mil. Quando os jogos eram à noite e passaram a ser transmitidos, ficou mais complicado. Nesse jogo não notei um divórcio entre adeptos e equipa mas pode ser um sinal de que seria um jogo mais fácil. Mas não posso explicar com certeza.

 

A segunda derrota da época, com o Salgueiros, fica a meio dos encontros com o Parma. A campanha europeia afetou o campeonato?

O objectivo sempre foi ser campeão, mas depois chega o momento das decisões, ali em abril e maio. É quando se conjugam alguns jogos que têm carácter decisivo para as diferentes competições. Aí não nos divorciámos da prova europeia. Aliás, fizemos um jogo de grande qualidade contra o Parma na Luz, tivemos oportunidade para golear, mas o que fica para a história é o 2-1. Depois em Itália, jogamos com dez a partir dos 20 minutos e só a 15 minutos do fim é que somos eliminados com um golo do Sensini.

 

O empate com o Estrela antes do dérbi foi duro?

Nunca projetei os dérbis em função do que se fez para trás. É sempre emoção, incerteza no resultado. Os dérbis são feitos de outras coisas, há-de ser sempre assim. Não sabemos quem vai ganhar nem o que vai acontecer. Mas é certo que se ficaria mais reforçado psicologicamente se tivéssemos vencido o Estrela.

 

Houve algo de diferente antes desse dérbi?

Não. É uma semana muito especial para todos, mas não se treina mais do que nas outras. Há detalhes em que nos prendemos mais na abordagem, mas é mais uma semana especial para os adeptos e para a imprensa do que para aqueles que se envolvem nele. A única carga que traz é o detalhe, especialmente nas bolas paradas…

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O 3-2 no dérbi, num livre estudado, é resultado disso?

O futebol não é basquetebol, não há a jogada um, dois e três. No momento, são os intérpretes que decidem tudo. A marcação de um livre lateral é sempre resultado da leitura que o jogador faz do leque de opções que tem e para haver essa sintonia e sincronização de movimentos tem de haver uma enorme capacidade de leitura. Naquele momento tudo se conjugou.

 

O Queiroz disse numa entrevista que só faltou o Neno entrar pelo lado direito. Houve alguma indicação durante o jogo para explorar esse flanco?

Os próprios jogadores conseguem aperceber-se disso, através da sua cultura táctica. Não foi o Toni que mandou as tropas atacarem pelo lado direito. E o Neno também pagou para esse peditório, porque os dois golos que sofremos foram num ponto que não era forte nele, em bolas paradas. Mas não tinha lido essa do Neno…

 

Queiroz também disse que o Veloso parecia um miúdo de 17 anos ao pé do Pacheco.

O Veloso ainda hoje continua a ter o mesmo corpo que quando jogava. Já não tem é a força que tinha. Mas era daqueles jogadores que todos os treinadores gostavam de ter. Era uma máquina. Tivesse o filho a raça que o pai tem…

 

O título aparece em Braga, contra o Gil Vicente.

Sabíamos que estávamos perto e não o deixámos fugir. Não deixámos para outro dia. Entrámos determinados, o adversário também não estava a jogar em casa e soubemos ultrapassar esse obstáculo.

 

Quando é que sabe exatamente que não vai continuar?

Antes do jogo de Alvalade já sabia que estava tudo tratado.

 

E os jogadores sabiam?

Não sei, talvez alguns. Para mim nunca teve importância, embora tivesse mais um ano de contrato, porque tinha era de ser profissional até ao fim. E sabendo disso já há uns tempos, desde março (já não era propriamente o corno, que é o último a saber), nunca me desviei do objectivo. No fundo, foi só a forma como conduziram as coisas. Quem dirige um clube como o Benfica procura sempre o melhor e se achavam que outro treinador [Artur Jorge] era o homem com o perfil ideal, era muito simples. A forma é que me deixou magoado. Antes, Mortimore já tinha sido despedido depois de ganhar o campeonato e a Taça. Eu tinha ganho um e depois fiquei como adjunto de Eriksson. Se calhar era algo que não voltaria a fazer, ser campeão e voltar a adjunto. Não é dar tiros nos pés, é ficar sem pés mesmo.

 

Esse tempo já não volta mas orgulho-me dos 34 anos que estive no clube, como jogador, como treinador-adjunto, como diretor, como treinador. A história não apaga isso, mas não vivo agarrado ao passado. Vivo com o trajeto que o Benfica faz, com os seus êxitos, vivendo e sofrendo com isso.

 

Foi por causa disso que nunca mais treinou outra equipa em Portugal?

É uma decisão que tomei há muito tempo. Há razões que me levaram a que o fizesse.

 

Pessoais, profissionais, sentimentais?

Há uma mistura de muita coisa. Fica assim, fica no ar.