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É Desporto

Tondela. Não era apenas pelo jogo, era pelo orgulho

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Bill Shankly dizia que o futebol era muito mais importante do que uma questão de vida ou morte. Não é. Mas em Tondela, no jogo com o Belenenses, o futebol foi muito mais do que um jogo de futebol. Foi ter o orgulho de um clube, de uma cidade, de uma região em campo… e sair de cabeça levantada a acreditar no futuro.   

 

Os círculos do inferno

 

Dante Aligheri dividiu o inferno em nove círculos na primeira parte da Divina Comédia. É mais ou menos o que sentimos que existe quando partimos de Lisboa rumo a Tondela num domingo de manhã.

 

Não somos apanhados de surpresa. Sabemos ao que vamos e por que é que vamos. Mas não deixa de haver sucessivos patamares em que sentimos autênticos murros no estômago perante o que nos passa à frente dos olhos.

 

O inferno está longe mas faz-se anunciar. Os primeiros sinais de terra queimada aparecem em Leiria. Mais à frente, ao longe, identificamos parcelas inteiras de monte que não resistiram ao avançar das chamas. Quando saímos da A1 rumo ao IP3, não há mais como esconder: o inferno passou por ali e não foi assim há tanto tempo.

 

O cheiro entra pelo carro mesmo com as janelas fechadas. Subitamente, não são apenas umas terras queimadas aqui e outras ali. Está tudo queimado. Não há uma única copa de árvore que se tenha mantido verde. Quando a estrada é mais estreita, percebe-se que circular ali exatamente uma semana antes teria sido impossível.

 

Os cones que indicam o vento estão queimados. Os postes de iluminação de madeira foram derrubados e estão encostados à ravina. O plástico de outdoors derreteu só com a proximidade do calor e as placas de trânsito mostram as cicatrizes das labaredas. E este cenário prolonga-se por quilómetros e quilómetros até chegar a Tondela.

 

Quando as imagens ganham forma

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Só me lembro de ter estado em Tondela uma vez. Sei que era pequeno, não sei que idade tinha. Mas sei que foi em dia de Paços de Ferreira-Sporting com derrota dos leões e empate num Benfica-Penafiel com golo de Magnusson. Juntando os detalhes, recuo até dezembro de 1991, semanas antes do sétimo aniversário.

 

Recordações concretas de Tondela não existem. E, mesmo que existissem, a cidade deve estar irreconhecível. Por isso, ao entrar, tudo é novo. Sim, conhecemos o estádio da televisão e vimos algumas das imagens das chamas, mas sem o enquadramento da realidade, é difícil concretizar o que se passou.

 

Quando estacionamos junto ao estádio, começamos a tentativa de fazer uma reconstituição do que se passou. Situamos o estádio junto aos terrenos ardidos, percebemos que a zona junto ao cemitério, mais alta e encostada a uma das bancadas, está completamente queimada. Na parte baixa, há zonas que também não resistiram às chamas.

 

Mas não ouvimos ninguém falar sobre o que se passou. Sentimos um silêncio estranho na rua, ainda um pouco deserta em cima da hora do almoço, mas pode ser apenas uma sensação. Quando nos aventuramos até ao centro, a pé, para ir levantar dinheiro para pagar os bilhetes, percebemos que aquele não é um domingo qualquer.

 

Há uma carrinha de recolha de donativos (roupa, comida, água). Há filas de pessoas que querem ajudar e escolheram o domingo para desaguar todo o esforço que foram fazendo durante a semana. Em frente ao quartel dos bombeiros, reúne-se um grupo de adeptos do Tondela. Mas não se fala muito. Vive-se, mas fala-se pouco.

 

Hostilidade azul?

 

Não sabíamos o que esperar deste Tondela-Belenenses. A semana foi rica na troca de palavras que acabou com o corte de relações. A postura da SAD do Restelo ficou mal na fotografia mas a claque azul soube tomar uma posição forte.

 

Mas como seria a receção à equipa? E aos seus adeptos? O autocarro não teve problemas a entrar no parque de estacionamento reservado e tinha apenas à sua espera três adeptos… do Belenenses, devidamente identificados com cachecóis.

 

Uns minutos depois, num café que parece ser ponto de paragem obrigatório dos adeptos – a julgar pela quantidade de pessoas na esplanada com camisolas do Tondela e cachecóis de vários clubes lá dentro – sentimos que pode haver alguma cautela.

 

Estamos sentados a almoçar. «Vocês por acaso não trazem cachecóis do Belenenses, não?», pergunta-nos uma empregada do café. Explicamos que não, que nem sequer somos adeptos do Belenenses, que não foi isso que nos levou ali naquela tarde. A conversa morre mas ficamos com a pulga atrás da orelha.

 

Por um lado, a pergunta fazia todo o sentido: a parede está cheia de cachecóis e podia haver alguma troca amigável em equação. Por outro, depois de tudo o que se passou, podia ser apenas um aviso para termos cuidado, uma vez que estávamos no «covil» do Tondela. Não resistimos e, ao pedir um café, disparamos a curiosidade: «Porquê a pergunta?».

 

«Ah, é que só temos um cachecol do Belenenses do jogo com o Basileia e queria um só do Belenenses. Se tivessem algum convosco, tinha ali um para a troca», responde-nos, dando início a um mote de que nos fomos apercebendo durante a tarde.

 

Os adeptos do Tondela souberam fazer a distinção entre a posição tomada pelos responsáveis da SAD e os próprios adeptos do Belenenses. Uma não manchou a imagem de outros. Rui Pedro Soares, várias vezes insultado em cânticos ao intervalo e no final do encontro, foi a principal fonte de crítica, com os jogadores a surgir em segundo plano porque… a rivalidade num jogo é assim mesmo.

 

Os três mil bilhetes

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O Estádio João Cardoso estava muito bem composto. A compra, para posterior oferta, de três mil bilhetes por parte de um grupo de empresários ajudou, mas a região quis marcar presença em peso. O jogo ia merecer destaque de qualquer modo – era o primeiro depois de um fim-de-semana infernal – mas o desenrolar da situação com o Belenenses feriu o orgulho. E isso sentiu-se.

 

Os «salazaristas», como criticou um velho adepto ao nosso lado durante o jogo, tinham sido inflexíveis e tinham feito provocações desnecessárias em resposta às difíceis condições de treino dos jogadores do Tondela durante a semana. Ninguém queria deixar isso impune. Ninguém podia deixar isso impune.

 

A resposta foi a possível: ir ao estádio. Um estádio em que as bandeiras do Clube Desportivo Tondela e da cidade de Tondela estavam a meia haste. Um estádio em que ainda se sentia o impacto das chamas nas narinas de forma tão intensa que, passado algum tempo, parecia tão natural que deixávamos de sentir o cheiro. Pelo menos até este reaparecer em peso, cinco horas depois, a 300 quilómetros de distância, enquanto escrevemos este texto.

 

Um jogo como deve ser

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O contexto foi anormal mas a consequência foi a que deve acontecer sempre: um estádio moldado à dimensão dos seus adeptos. As duas bancadas centrais não estavam a abarrotar mas estavam muito bem compostas. Fossem mais pequenas e não havia espaço para todos. Fossem maiores e o ambiente perdia-se perante tanta cadeira vazia.

 

Depois, claro, a Febre Amarela. É a claque do Tondela e foram raras as vezes em que se calou durante o jogo. Composta quase exclusivamente por jovens – e com um equilíbrio impressionante entre rapazes e raparigas – soltou o seu reportório extenso, desde melodias mais associadas aos principais clubes do país ao Despacito, passando por temas que nos pareceram originais.

 

Pelo meio, duas surpresas. Primeiro, uma enorme tarja que foi prontamente aplaudida pela bancada oposta: «Juntos, das cinzas, renasceremos». Mais tarde, e em mais do que uma situação, um cântico dedicado aos heróis da semana anterior: «Bombeiroooo-oooos, bombeiroooo-oooos, bombeiroooo-oooos… muito obrigadoooo!»

 

A sensação de gratidão para com os bombeiros tornou o minuto de silêncio no início do jogo estranho. Além das equipas, também um conjunto de bombeiros apareceu perfilado no círculo de jogo. Esperava-se um silêncio sepulcral mas, assim que o árbitro apitou, o setor da bancada central que estava de frente para os bombeiros irrompeu com um conjunto de aplausos. Foi estranho mas contagiou o resto do estádio.

 

Felizmente, este «minuto de silêncio» deu para tudo. Parecia combinado mas nos últimos 25, 20 segundos as palmas calaram-se e, aí sim, o silêncio fez-se ouvir de foram ensurdecedora. Ali, enquanto o ponteiro dos segundos fazia a pirueta, os cerca de três mil adeptos no João Cardoso conseguiram homenagear não só os bombeiros que lutaram para defender o que era de todos mas também as mais de 40 pessoas que perderam a vida.

 

A cereja no topo do bolo

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O jogo pareceu sempre secundário mas, ao mesmo tempo, o ingrediente capaz de pôr a cereja no topo do bolo. O Belenenses até começou melhor mas a expulsão de Persson em cima do intervalo abriu caminho para que os tondelenses assumissem a iniciativa clara do encontro na segunda parte e chegassem à vitória.

 

Por muito pessimismo crónico que se ouvisse na bancada, com frases como «ainda vão perder com um golo a acabar», «não adormeçam, não se deixem adormecer» e «a bola é para a frente, ponham a bola na frente, caramba», o Tondela chegou mesmo ao golo. Ou melhor, aos golos.

 

Para que não restassem dúvidas. O Tondela venceu 2-0 e milhares de pessoas puderam descarregar alguma da adrenalina que mantiveram no corpo. Puderam ter dois momentos de felicidade e dar corpo à ideia de que o futuro começou no dia seguinte à tragédia e que continuará a haver motivos para estar feliz, para sorrir, para festejar.

 

Afinal, já dizia o outro, o futebol é o ópio do povo. Não resolve problemas por si mas ajuda a mitigar e a adormecê-los. Mesmo quando a realidade nos insiste em acordar para o mais duro dos infernos.

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«Encontre-se com o Centro», lemos num outdoor já no caminho de regresso durante o IP3. É irónico: todo o terreno que o circunda está queimado e o plástico num dos cantos começou a derreter. É ali que está o círculo central do Inferno de Dante. Mas de Divina Comédia não tem nada. Não há nada ali que faça rir.

RPS/TMP