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É Desporto

Tobie Mimboe. Nunca se pergunta a idade a um senhor

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Num espaço de dois anos, defesa camaronês teve 31, 23 e 27 anos. Viver com a verdade foi sempre um desafio muito complicado para um dos primeiros africanos a aventurar-se no futebol sul-americano, onde chegou a ser “empresário” de Geremi e Eto’o.

 

 

Nascido a 30 de junho

 

O fenómeno de datas de nascimento desconhecidas em África não é novo. Acontece há muito, na maior parte das vezes por falta de condições que permitam aos pais obter um certificado de nascimento quando os filhos nascem.

 

Quando isto acontece, há uma grande probabilidade de a criança vir a festejar o aniversário a 1 de janeiro, uma vez regularizada a documentação. Acontece não só em África mas também em países que recebem refugiados. Em 2009, uma porta-voz dos Serviços de Imigração e Cidadania dos Estados Unidos, explicou que é uma data convencional, por ser fácil de lembrar. Além disso, é um dia sempre associado a festa.

 

A responsável reconhece que determinar o verdadeiro dia de nascimento é complicado – há culturas que não celebram os aniversários, por isso ninguém se lembra. Ou então simplesmente não usam o mesmo sistema de calendário.

 

Tobi Mimboe não tem esta desculpa. O camaronês nasceu a 30 de junho. Por mais datas de nascimento que tenha apresentado durante a carreira, o dia e o mês nunca foram o problema. Já o ano…

 

Benjamin Button? Pfff…

 

O estranho caso de Tobie Mimboe, que na verdade tem pouco de estranho, nada deve ao da personagem interpretado por Brad Pitt no cinema. E a descoberta é responsabilidade de um conjunto de italianos que queria realizar um almanaque minucioso sobre o futebol africano.

 

Os números confundiram. Quando Tobie Mimboe fez parte da seleção camaronesa na Taça das Nações Africanas na África do Sul, em 1996, competiu como se tivesse nascido em 1964. Tinha 31 anos.

 

Um ano e uns meses depois, ao chegar à Turquia para representar o Gençlerbirligi, já era um jovem promissor nascido em 1974, com 23 anos. Em 1998, em nova edição da Taça das Nações Africanas, a inscrição apontava para um nascimento em 1970.

 

Não há explicações óbvias para o caso. Mimboe nunca teve um aproveitamento claro da falsificação de idade: não competiu em seleções mais jovens, não jogou com adversários mais novos, fazendo uso da idade. Eventualmente, poderá dizer-se que não teria sido contratado se os dirigentes soubessem que era mais velho, mas não passa de especulação.

 

A única certeza é que Tobi Mimboe teve uma idade mais volátil do que as sondagens para as eleições presidenciais nos Estados Unidos. E tanto dava para envelhecer como para rejuvenescer.

 

Um africano na América do Sul

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A carreira de Tobi Mimboe é muito difícil de entender. Nascido em Yaoundé, fez duas temporadas no Olympic Mvolyé antes de cruzar o Atlântico rumo à América do Sul. Foi no Paraguai que, entre 1993 e 1996, foi mais feliz enquanto futebolista e se tornou um favorito entre os adeptos.

 

Representou o Deportivo Recoleta, o Atlético Colegiales e o 12 de Octubre antes de atingir o Cerro Porteño, em 1996. Por essa altura, já tinha disputado uma fase final da CAN com os Camarões. Foi também nesse ano que conheceu Pedro Aldave, empresário hoje mais famoso por ter sido o representante de Oscar Cardozo em Portugal.

 

Os Camarões estavam em guerra e mais de metade da população vivia abaixo do limiar da pobreza. Qualquer oportunidade era boa para tentar a sorte no estrangeiro e Geremi (17 anos) e Samuel Eto’o (15 anos) foram ao Brasil prestar provas.

 

Foi nessa altura que Mimboe se cruzou com Aldave. «Tenho dois jogadores jovens que tens de levar para o Cerro. Vais encher-te de guito», ter-lhe-á dito, com confiança. O empresário argentino ouviu o que o camaronês lhe tinha para dizer, viu os dois jogadores e arriscou… com cautela. Eto’o era demasiado novo, demasiado franzino e ficou de fora. Mas Geremi foi mesmo para o Paraguai e jogou ao lado de Mimboe, muito antes de se notabilizar na Europa em clubes como Chelsea ou Real Madrid.

 

Herdeiro de Passarella?

 

Tobie Mimboe atravessou a fronteira entre o Paraguai e a Argentina no final de 1996 para responder ao convite do San Lorenzo. As expetativas do presidente, Fernando Miele, eram altas e na conferência de imprensa afirmou que o camaronês era como um sucessor de Daniel Passarella.

 

O resultado em campo foi muito diferente. Fez apenas um jogo pela equipa principal – um encontro particular – e foi somando histórias rocambolescas, como o incêndio que lhe destruiu a casa e de onde só conseguiu salvar a família por milagre.

 

No balneário, cruzou-se com El Loco Abreu. É o avançado uruguaio que conta mais pormenores sobre a passagem de Mimboe pelo clube argentino, sobretudo o facto de só ter metade de um dos dedos. «Perguntei-lhe uma vez, disse-me que tinha sido mordido por um leão quando era novo.»

 

Abreu vai mais longe. «Era muçulmano e uma vez foi ao treino com uma túnica. Fartámo-nos de rir. Pegámos numa tesoura e cortámo-la aos pedaços. Quando a pôs, parecia uma menina colegial. Ele desconfiou de mim e começou a correr na minha direção. Tive de me fechar no balneário, ele queria matar-me.»

 

A descrição da carreira feita pelo próprio é apenas mais um capítulo da lenda de Mimboe: «Tenho experiência. Participei em cinco Taças das Nações Africanas e num Mundial.» Pois, CAN foram apenas duas (1996 e 1998) e o mais próximo que esteve de uma fase final de um Mundial foi ter sido escolhido para cromo da Panini antes de França-1998.