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É Desporto

Sporting-Benfica. Muito mais do que um jogo

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Foi um dérbi. Foi o primeiro dérbi de voleibol no Pavilhão João Rocha. Foi o primeiro jogo oficial do voleibol leonino depois de uma interrupção de 22 anos. São ingredientes únicos que fizeram do Sporting-Benfica de domingo um jogo especial. 

 

Diz-me o que vês, dir-te-ei quem és…

 

Foi um Sporting-Benfica, a maior rivalidade do desporto português. Um dérbi de Lisboa, capaz de mover montanhas e fazer despertar o sentimento mais faminto de triunfo, seja no futebol, voleibol ou pesca à linha. Para muitos, basta estar escrito Sporting de um lado e Benfica do outro para aquele momento ganhar automaticamente um sabor especial.

 

O dérbi de voleibol encaixou-se nesse molde. Mas foi mais do que isso. Para alguém nascido em 1985, é o reviver de algumas das memórias mais antigas do desporto. Para alguém nascido em 1991, é mesmo a primeira experiência de um dérbi no voleibol.

 

Mas há mais. O ambiente de um dérbi é sempre especial e percebem-se dimensões extraordinárias quando se olha em redor e se percebe que há centenas de pessoas ali que ainda não tinham nascido quando o Sporting fez o seu último jogo oficial na modalidade.

 

O Sporting-Benfica não foi um jogo. Ou melhor, não foi apenas um jogo. Foi um evento. E um que fazia falta a Lisboa. Com um pequeno passeio pelas portas do Pavilhão João Rocha, percebe-se que o mundo do voleibol está ali em peso. Que há caras conhecidas a cada esquina, treinadores, antigos jogadores, jovens dos escalões de formação e apaixonados pela modalidade que não quiseram perder a oportunidade de assistir ao vivo a este regresso. De certa forma, quase pareceu um jantar de Natal promovido pela Associação de Voleibol de Lisboa.

 

Um pavilhão com «cheiro» a novo

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Entrar no João Rocha pela primeira vez para ver um jogo de voleibol causa uma sensação de estranheza. Quem está habituado a ver jogos da modalidade no Acácio Rosa no Restelo, no CVO, no CNG, no Filipa de Lencastre, na Lusófona e em muitos outros campos espalhados pelo distrito que não se aproximam da grandeza de um pavilhão recém-construído sente a diferença. Apenas o pavilhão n.º 2 da Luz surge ao mesmo nível mas… nunca recebeu um dérbi.

 

O recinto “cheira” a novo. Ainda brilha. Percebe-se que viveu pouco e ainda está a construir as primeiras memórias. Já teve o primeiro dérbi no futsal, o primeiro clássico no andebol, mas o voleibol tem de ser especial.

 

E repete-se a ideia: é um Sporting-Benfica. Um clube que tinha acabado de ser tricampeão antes da época de despedida contra um que se sagrou tricampeão em 2015 e é o atual detentor do título. Tanto de um lado como do outro há jogadores que ainda não tinham nascido em 1995, quando Pedro Santana Lopes formalizou o fim do voleibol.

 

Por outro lado, há Miguel Maia. O distribuidor não é apenas jogador do Sporting. É o rosto do voleibol português há mais de duas décadas. Seja no pavilhão ou na areia, o quarentão (46 anos) tem uma história irrepetível e nenhum dos 1489 espetadores ignora esse estatuto. Não é por acaso que, a cada anúncio do seu nome na instalação sonora, se sigam as maiores ovações.

 

Um jogo dos adeptos, não das claques

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A bancada reservada aos adeptos do Benfica tinha pouca gente, talvez trinta pessoas. A bancada reservada às claques do Sporting estava muito mais despida do que no dérbi do futsal na véspera. O voleibol não é, pelo menos ainda, uma modalidade de interesse para estes grupos. Talvez venha a chegar lá, mas para já foi reservada para planos secundários. Quando o interesse aumentar, o ambiente será ainda melhor. Afinal, não há outra modalidade em que se festeje de forma mais exuberante a cada cinco segundos, com o exemplo a sair do próprio campo e a espalhar-se pela bancada como se de um vírus indestrutível se tratasse.

 

A tradição de Alvalade faz-se sentir. Quando o Benfica se preparava para servir pela primeira vez no jogo, os adeptos começam a entoar «O mundo sabe que». Começa de forma tímida, envergonhada, e permite que quatro ou cinco adeptos do Benfica façam a diferença com gritos pelo nome do clube da Luz, mas à entrada para os últimos versos são naturalmente abafados por uma concorrência que ultrapassa o milhar.

 

Os adeptos do Benfica são poucos, não fazem muito barulho, mas há um que se destaca. Estamos em cima,do lado oposto, e a distância atraiçoa mas parece uma criança de meio metro. É, de facto, um rapaz bastante novo. Está vestido à Benfica, está logo no primeiro degrau e tem um cachecol amarrado ao pulso. Deve ter cinco, seis anos, no máximo sete e não para por um segundo. Sempre aos saltos, faz rodar o cachecol por cima da cabeça e gritará, imaginamos nós, sem parar pela sua paixão.

 

Não está “a jogar” em casa mas isso não interessa. Sente-se seguro, como sempre devia ser, e está a viver o seu dia. É pequeno demais para sentir vergonha por estar sozinho. É grande demais para passar despercebido tal é a sua dedicação durante as mais de duas horas de jogo.

 

O Danger que agora é uma Bomba

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À nossa frente também há petizes. Menos atentos ao jogo, também menos dedicados, mas que gritam pelo Sporting com um sentimento de pertença que facilmente se entranha nos primeiros anos de idade. Não parecem perceber exatamente o que se passa no jogo mas reconhecem a estranheza de haver alguém que se chame Bomba. «Bomba? Bomba? Por que é que estão a dizer Bomba? O que é Bomba?»

 

É Iván Márquez, o venezuelano. Para nós, é um reencontro. Já o tínhamos visto jogar em Bucareste, em fevereiro, pelo Arcada Galati com Miroslav Gradinarov (o 10 do Benfica) como colega. Só havia uma diferença: na altura tinha o nome Danger na camisola.

 

A Bomba não joga muito. Nos dois primeiros sets, passa mais tempo do lado de fora do que lá dentro. No terceiro tem mais influência durante um set decidido depois de 58 pontos (30-28) e que nos faz divagar sobre como seria o ambiente se o pavilhão estivesse completamente cheio e com uma réplica considerável dos adeptos do Benfica.

 

Repetimos: há uma explosão de festejos a cada cinco segundos. Cada jogada é disputada como se fosse a última e os jogadores são os primeiros a ser exuberantes. Quando a bancada acompanha, é difícil não ser levado pela espetacularidade e emoção de um momento assim.

 

A fava num dia especial

 

A emoção do terceiro set caiu para o lado do Sporting e o jogo desequilibrou-se definitivamente a partir daí. A vencer 2-1, os leões partiram para um set tranquilo para fechar o encontro. Pelo meio, um momento assustador.

 

O reforço brasileiro do Benfica Ary Neto caiu desamparado e cedo se percebeu que algo estava mal. Caído junto à rede, mantinha o braço direito para cima e contorcia-se com dores. Os jogadores clamaram por assistência rápida e, curiosamente, o staff médico do Sporting foi o primeiro a chegar.

 

Não percebemos como aconteceu. Mas havia algo errado. Houve quem lhe tivesse tapado os olhos para não ver o estado em que estava o braço. Ivo Casas, o líbero encarnado, parecia afastar colegas para não verem o que estava a acontecer.

 

Nas bancadas, a claque do Sporting ensaiou um cântico insultuoso mas foi rapidamente abafada pelos assobios dos restantes adeptos leoninos. Ali, num momento arrepiante para quem estava a viver de perto, relembrou-se o tratamento que Helton teve ao sair com uma lesão grave em Alvalade. Ary sai de maca e sob o relativamente forte aplauso dos adeptos. Afinal, a enorme vontade de ganhar não tem de influenciar o respeito pelo adversário e pela integridade física do rival.

 

A lesão acalmou os ânimos mas a festa não tardou, uns minutos depois, com o final do quarto set. O Sporting voltou ao voleibol oficial com um triunfo no dérbi que abriu o campeonato. Os adeptos quiseram dizer presente e não faltaram ao… evento. Não será sempre assim, claro está, mas é uma memória que ficará guardada. Um dia que fazia falta ao desporto e que deve ser repetido e replicado nas modalidades em que ainda é possível.

RPS/SSM

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