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É Desporto

Salif Keita. A fuga para a Europa

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África tornou-se demasiado pequena para acolher a qualidade do maliano. Fuga para o Saint-Etienne foi ocultada ao governo maliano e teve passagens por Nigéria e Libéria. No aeroporto, mostrou um papel ao taxista e convenceu-o a percorrer mais de 500 quilómetros com a promessa de que seria pago pelos dirigentes. 

 

Talento precoce

 

Salif Keita tinha apenas 16 anos quando se estreou pela seleção em 1963. O talento do futebolista nascido na capital do Mali, Bamako, não causava surpresa a ninguém e as equipas tinham um nível com ele em campo e outro, muito mais abaixo, quando não estava.

 

Sinónimo de golos, foi obrigado a viver com o peso da responsabilidade desde muito cedo. Sem concorrência a nível nacional, esteve perto de alcançar a glória continental na recém-criada Liga dos Campeões Africanos de futebol.

 

Mas, como o futuro viria a mostrar, estava amaldiçoado. Tudo começou em 1964/1965, na primeira edição da prova. Na altura, ainda adolescente, Keita alinhava no Stade Malien. A 7 de fevereiro de 1965, numa final disputada a um só jogo, em Acra (Gana), a equipa maliana perdeu com os camaronenses do Oryx Douala (2-1).

 

A época seguinte trouxe um novo alento. Salif Keita regressou ao Real Bamako, onde já tinha disputado uma temporada, e foi decisivo na campanha africana da equipa. Logo na primeira ronda, o Invencible Eleven da Libéria foi goleado por 9-2 (resultado acumulado). Nos quartos-de-final, o Conacry da Guiné foi eliminado por 5-3 e, nas meias-finais, Keita teve direito a um sabor de desforra ao eliminar o Oryx Douala – isento até essa ronda – com triunfos por 4-2 e 3-2.

 

Restava a final. Se, uma vez mais, fosse disputado a uma só mão, o troféu estava no papo, graças ao triunfo por 3-1 frente aos marfinenses do Stade D’Abidjan. Mas o segundo jogo, na Costa do Marfim, foi marcado por uma derrota pesada (1-4) e pela ausência de golos de Keita.

 

Logo ele, que até então levava 14 golos nos sete jogos disputados.

 

O início da despedida

 

A derrota caiu mal entre os adeptos. E Salif Keita, tantas vezes herói, transformou-se em vilão. «Fizeram-me a vida difícil em Bamako. A seguir à derrota, o público… bom, uma parte do público não me deixava jogar e de cada vez que tocava na bola gritavam e insultavam-me. Julgavam-me responsável.»

 

A situação tornou-se insustentável. Semana após semana, mês após mês, Keita desenamorou-se do Mali e ficou mais vulnerável a apelos externos. Por isso, quando ouviu um libanês chamado Charles Dagher, adepto fervoroso do Saint-Étienne, falar-lhe da equipa francesa, mostrou-se recetivo.

 

Dagher não descansou enquanto não convenceu os dirigentes do Saint-Étienne a aceitarem pagar uma viagem de avião para que Keita pudesse mostrar o que valia. Depois de cartas sucessivas, o convite chegou mas continuava a faltar um passo delicado: conseguir sair do Mali.

 

O governo maliano não era muito diferente de todos os outros africanos na década de 1960. A onda de independências tinha-se alastrado e o futebol era visto como um modo de afirmação. Se o futebol fosse bom, também o governo o seria. Se Keita abandonasse o Mali, saía também a maior referência do país.

 

A inusitada viagem de táxi

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Sair diretamente do Mali para Paris era uma tarefa impossível. Salif Keita recorreu a todo o dinheiro que tinha para conseguir chegar a Monróvia, capital da Libéria, e lá ficar até conseguir finalmente viajar para a cidade francesa, a 14 de setembro de 1967.

 

De Paris até Saint-Étienne o desafio ainda era grande: havia 550 quilómetros de distância. Munido de um papel com a morada do estádio do clube francês, entrou num táxi e explicou o que queria. Numa primeira fase, o taxista não quis acreditar e recusou-se a ligar o carro.

 

Mas Keita insistiu. Garantiu que tinha um contrato à espera no Saint-Étienne e que assim que chegasse, haveria um dirigente do clube presente para fazer o pagamento, superior a 1000 francos franceses (150 euros ao câmbio atual). Em 1967.

 

Sucesso em França

 

O futebolista ainda não tinha vinte anos quando assinou contrato com o Saint-Étienne. O primeiro passo obrigou-o a alinhar pelos juniores, com estreia logo a 20 de setembro. Dois meses depois, contra o Monaco, estreou-se pela equipa principal e só precisou de sete minutos para marcar o primeiro de 135 golos em 167 jogos.

 

Tinha reencontrado a alegria. Nos anos seguintes, venceu três vezes o campeonato francês, duas vezes a Taça de França e em 1970 foi eleito o melhor jogador africano. Para Jean-Michel Larqué, colega de equipa no Saint-Étienne, este foi um momento de reconciliação.

 

«Ele não fala muito disso mas percebe-se que foi algo que o deixou magoado [a forma como foi criticado no Mali após as finais perdidas]. A Bola de Ouro fez-lhe bem. Foi uma espécie de desforra que lhe permitiu recuperar o estatuto que tinha em África.»

 

Logo nesse ano, fez pressão por um contrato melhor. O clube não cedeu e Salif Keita teve tudo acertado com o Anderlecht. Sentindo o alerta, os dirigentes voaram até Bamako de urgência e garantiram a renovação, dando o pontapé de partida para uma temporada em que marcaria 42 golos em 38 jogos.

 

De Marselha até Alvalade

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A saída do Saint-Étienne deu-se em 1972, com os dirigentes do Marselha a concretizarem o sonho de juntar Keita a Skoblar, que no ano anterior havia marcado 44 golos. Nesse mesmo ano, o avançado voltou a sentir um travo amargo em África, com o Mali a perder a final da Taça das Nações Africanas para o Congo.

 

A dupla de sonho no papel não se confirmou na prática. Keita ainda marcou 12 golos mas a pressão do Marselha para que solicitasse nacionalidade francesa e assim abrisse espaço para a contratação de mais estrangeiros precipitou a saída.

 

O capítulo seguinte, em Valência, ficou marcado por lesões e pelo insucesso. A imprensa escreveu na altura que os dirigentes tinham abandonado Espanha à procura de contratar alemães e regressavam com um negro.

 

Finalmente, no verão de 1976, Salif Keita chegou a Alvalade, contratado por João Rocha. Com 33 golos em três temporadas, jogou ao lado de Manuel Fernandes, Manoel e Jordão e esteve presente na conquista de uma Taça de Portugal.