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É Desporto

Robin Jordan. O feitiço virou-se contra o feiticeiro

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Guarda-redes da Rodésia foi vítima de uma maldição “patrocinada” pelos australianos em 1969. Depois da vitória dos socceroos, num jogo em que Jordan foi substituído por lesão na primeira parte, os dirigentes da federação recusaram-se a pagar ao bruxo. Resultado: foram eliminados na ronda seguinte e não chegaram ao Mundial do México.

 

 

Um convidado indesejado

 

A Rodésia - atual Zimbabué - tornou-se membro da FIFA com pleno direito em maio de 1965, depois de ter aceitado ser uma federação multirracial. A problemática independência do Reino Unido fez com que a Confederação Africana de Futebol expulsasse a Rodésia da qualificação continental, pelo que a solução foi incluir a seleção na ronda de qualificação com adversários asiáticos e da Oceânia.

 

Em dezembro de 1968, a FIFA anunciou que a Rodésia iria tentar o apuramento através do Grupo 15A, defrontando Austrália, Japão e Coreia do Sul. O problema é que as ligações diplomáticas com o Reino Unido continuaram a boicotar as possibilidades da Rodésia.

 

O governo sul-coreano recusou a emissão de vistos aos jogadores da Rodésia e obrigou a FIFA a encontrar nova solução. Curiosamente, foi este clima de tensão que permitiu à seleção africana ir saltando etapas de apuramento. O vencedor do grupo de Seul iria defrontar a Rodésia.

 

A Austrália não ficou satisfeita com a solução, acusando o organismo mundial de estar a favorecer um adversário, que assim seria obrigado a disputar menos jogos. E, na altura de disputar uma finalíssima a duas mãos com a Rodésia, imitou a decisão da Coreia do Sul, boicotando a viagem dos africanos até à Austrália.

 

Estádio Salazar em Moçambique

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Mais uma vez, a FIFA encontrou uma solução: os dois jogos seriam disputados no Estádio Salazar (sim, esse mesmo) em Lourenço Marques (Moçambique). Os jogos estavam marcados para 23 e 27 de novembro de 1969 e a Rodésia estava sem ritmo competitivo desde 1967. Com uma seleção multirracial, um dos elementos mais importantes era o guarda-redes Robin Jordan, titular desde 1962.

 

Robin Jordan é a peça nuclear desta história. A Austrália era considerada largamente como a grande favorita mas não foi além de um empate a um golo no primeiro jogo. No segundo, o guarda-redes da Rodésia fez, segundo contam os relatórios da época, o jogo da sua vida. Defendeu tudo – e mais um par de botas – o que havia para defender e frustrou os australianos, que não conseguiram mais do que um nulo.

 

As regras ditavam que se disputasse um terceiro jogo de desempate que, em caso de nova igualdade, seria desfeito com moeda ao ar. Os australianos não queriam arriscar e cederam à tentação de usar um fenómeno paranormal para derrubar a muralha da Rodésia.

 

Abordados por um bruxo, por intermédio de dois jornalistas, os responsáveis da federação australiana aceitaram pagar por um pequeno ritual que lançasse uma maldição sobre Robin Jordan. A cerimónia incluiu que fossem enterrado ossos numa das balizas do estádio batizado com o nome do ditador de Portugal.

 

Feitiço fez efeito

 

O jogo de desempate, a 29 de novembro, correu sempre a favor dos australianos. Num encontro arbitrado pelo português António Saldanha Ribeiro, a equipa da Oceânia adiantou-se no marcador logo aos 12 minutos e aproveitou-se ainda de um autogolo de Sibanda aos 22 minutos.

 

E Robin Jordan? Não durou sequer até ao intervalo, cedendo o lugar a Stewart Gilbert depois de ter chocado com o avançado australiano Ray Baartz. O 3-1 no resultado final acabou por ser visto um resultado demasiado simples, sem dificuldades e sem passar por arrepios.

 

A suposta facilidade fez com que os australianos faltassem ao prometido, recusando-se a pagar ao bruxo. A equipa estava de saída para Israel, onde seria disputada a derradeira eliminatória de qualificação para o México-1970, e os australianos entenderam que não tinham nada a pagar.

 

A decisão talvez tenha gerado arrependimentos, depois a derrota em Ramat Gan por 1-0 e um empate insuficiente em Sydney a um golo. Resultado: a Austrália falhou o apuramento e Israel fez parte do grupo 2 no México, defrontando Itália, Uruguai e Suécia.

 

A maldição não teve um efeito muito duradouro, uma vez que os socceroos estiveram no Mundial da Alemanha, em 1974. Depois disso, no entanto, foi preciso esperar até 2006 por nova oportunidade.