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É Desporto

RDA. O desporto como forma de afirmação

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O Muro de Berlim caiu há 27 anos (9 de novembro de 1989). Na República Democrática Alemã (RDA), o desporto era visto como uma forma de afirmação e os Jogos Olímpicos serviram de palco de eleição. Para ter sucesso, nada estava fora do alcance e o doping era um trunfo «escondido».

 

Campo de recrutamento

*Publicado originalmente na edição de 8 de novembro de 2014 do jornal i

 

Katarina Witt foi bicampeã olímpica em patinagem artística. Nascida em 1965 na República Democrática Alemã (RDA), cresceu numa altura em que o governo começou a olhar para o desporto de outra forma. De facto, o seu território era um enorme campo de recrutamento.

 

Nas escolas, os professores eram incentivados a detetar crianças que mostrassem apetência natural para o desporto. No caso de Witt, bastou patinar num rinque perto de casa para ser descoberta, com cinco anos.

 

O desporto na RDA tornou-se demasiado importante para ser ignorado. Num país tão fechado ao mundo, as provas internacionais eram fundamentais para que os alemães de Leste pudessem mostrar a força de uma sociedade. Vencer era propaganda gratuita e Walter Ulbricht, presidente da RDA entre 1960 e 1973, considerava que os atletas eram «diplomatas com equipamento desportivo».

 

A estreia em Jogos Olímpicos de Verão na Cidade do México em 1968 foi promissora. As 25 medalhas valeram o sexto lugar, mas a rival RFA foi mais forte – 26. O futuro ia mudar tudo, muito por culpa da influência de Manfred Ewald, ministro do Desporto entre 1961 e 1988.

 

A aposta consistia em moldar os mais novos desde uma fase precoce, mas nem sempre os objetivos foram alcançados, como é exemplo Axel Mitbauer. Em 1969, o nadador de longas distâncias decidiu fazer-se à água no mar Báltico e nadou durante 22 quilómetros para a liberdade.

 

O caso foi considerado uma lição e a partir desse momento a Stasi começou a infiltrar-se entre os atletas para antever tentativas de fuga.

 

Plano em andamento

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A RDA queria mostrar ao mundo que era uma potência desportiva e não se podia dar ao luxo de perder atletas. Mas, mais importante do que isso, era a obsessão do país pelas medalhas olímpicas que o levava a esquecer qualquer fronteira entre o moralmente aceitável e o imoral.

 

A partir de 1971, Manfred Ewald (na foto) e Manfred Höppner, director médico para o Desporto, implementaram um recurso sistemático ao doping, que mais tarde ficou conhecido por State Plan 14.25 e que empregava 1500 cientistas e médicos.

 

Identificar, recrutar e moldar uma criança desde tenra idade deixava de ser suficiente e passava a ser fundamental usá-la como cobaia química para melhorar as suas capacidades. Nesta lógica, a farmacêutica Jenapharm entrou em ação com a criação de um esteróide anabolizante a que foi dado o nome de Oral-Turinabol.

 

Os resultados não deixavam dúvidas e eram muito mais eficazes em mulheres muito jovens. «Elas são tão novas, não precisam de saber nada», transmitia Ewald aos treinadores. E, anualmente, 2000 atletas eram acrescentados ao programa, alguns de apenas 11 anos.

 

A nadadora Rica Reinisch conquistou três medalhas de ouro em Moscovo-1980. «O pior é que nem sabia que estava a ser dopada. Mentiam-me e enganavam-me. Quando perguntava ao meu treinador o que eram aqueles comprimidos, dizia-me que eram vitaminas.»

 

Ines Geipel bateu o recorde dos 4x100 metros em 1983 mas não chegou aos Jogos Olímpicos. «Os velhos do regime usavam raparigas novas para satisfazer a sua grande ambição. Aquele pequeno país tinha de ser o maior do mundo. Era doentio, a infância era-nos roubada», conta à BBC a atleta que ousou pensar em fugir para os EUA para viver com um mexicano por quem se tinha apaixonado num estágio.

 

Quando regressou à RDA contou ao namorado que aí tinha e descobriu que este era da polícia secreta. Geipel estava a sofrer as consequências da fuga de Mitbauer, mas o caso não se ficou por aqui. A RDA estava obcecada pelo seu valor atlético e não a queria perder: primeiro quis encontrar um alemão parecido com o mexicano para a fazer mudar de ideias; depois procurou torná-la informadora da Stasi. Perante o fracasso, operou-a de forma que nunca mais pudesse voltar a competir.

 

Fugas e consequências

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Ines Geipel não conseguiu, mas entre os três milhões que fugiram da RDA estavam 615 atletas. Entre 1976 e 1979 foram 15, entre eles o esquiador Hans Georg Aschenbach, que foi dos primeiros a falar das intervenções médicas: «Por cada campeão olímpico há pelo menos 350 inválidos.»

 

A década de 70 ficou também marcada pelo encontro oficial de futebol mais importante entre as duas Alemanhas. No Mundial disputado na RFA, a seleção da casa conseguiu o título, mas na fase de grupos perdeu com a RDA, uma equipa que só viria a contar com o goleador Lutz Eigendorf entre 1978 e 1979.

 

O avançado era uma das referências do Dínamo Berlim, um clube com uma forte ligação à Stasi, mas aproveitou um encontro particular com o Kaiserslautern para escapar. A aventura valeu-lhe uma suspensão da UEFA por um ano e uma vingança fatal que só se consumou a 5 de março de 1983. O patrão da Stasi, Erich Mielke, entendera a deserção como uma afronta pessoal e ordenou o assassinato.

 

Medalhas e mais medalhas

 

Os atletas desertores eram um insulto mas a superioridade da RDA nos Jogos Olímpicos de Verão era cada vez mais evidente. A RFA tinha ficado para trás e os alemães de Leste lutavam pelo pódio nas contas finais com os EUA e a União Soviética.

 

Mais do que isso, os efeitos dos esteróides nas mulheres davam cada vez mais resultados: as oito medalhas em 1968 de atletas da RDA foram crescendo sucessivamente para 29, 50 e 60, sendo sempre o país com mais pódios no feminino.

 

De facto, as 60 conquistadas em 1980 nuns Jogos de Moscovo que não contaram com EUA e RFA foram um recorde até aos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quando a comitiva feminina superou a marca depois de já ter ameaçado em Londres (59).

 

Rescaldo macabro

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A queda do Muro de Berlim acabou com a profissionalização doentia do doping e levantou a cortina sobre o tratamento desumano que os atletas recebiam. Um desses exemplos é Andreas Krieger, que foi Heidi até fazer uma operação de mudança de sexo em 1997.

 

«Eles mataram a Heidi com aqueles medicamentos. É difícil dizer se hoje em dia ainda seria a Heidi ou não, mas deveria ter podido decidir por mim. A RDA tinha uma economia deficiente em muita coisa, como fruta. Por isso diziam-nos para tomar aquelas vitaminas. Armavam- se em Deus connosco.»

 

Os casos de problemas de saúde ganharam cada vez mais força e, em 2006, 184 atletas foram compensados com 9250 euros numa ação colectiva. Peter Busse, o ministro do Interior alemão responsável pela coordenação da reunificação no desporto na década de 90, confirmou as prioridades da RDA: «Era uma arma contra o Ocidente. Todo o sistema era organizado por um comando central e só havia um objetivo: garantir o reconhecimento da RDA no mundo.» Antes da queda, a RFA afirmava que os rivais alocavam 10% do orçamento nacional ao desporto.

 

A reunificação pôs fim ao processo de doping mas abrandou também o trabalho de dezenas de escolas viradas exclusivamente para a preparação dos atletas. A partir de 1990, a preocupação passou a ser dar a melhor educação e permitir o suporte possível a estudantes interessados em desporto.

 

O ginasta Andreas Wecker, atleta do ano da RDA em 1989 e campeão olímpico em Atlanta-1996, previu que a mudança de filosofia iria fazer com que a qualidade do desporto alemão começasse a cair radicalmente a partir de 1997.

 

Os números deram-lhe razão: depois das 82 medalhas conquistadas nos Jogos Olímpicos de Verão em 1992, a evolução da Alemanha foi sucessivamente negativa: 65, 56, 49 e 41, em Pequim-2008. Há quatro anos, em Londres, o total subiu pela primeira vez, para 44. Ainda assim, os 11 títulos olímpicos foram um mínimo histórico desde 1964, quando RFA e RDA competiram juntas no mesmo comité pela última vez.

 

No Rio de Janeiro, o número total de medalhas voltou a cair, para 42, mas os alemães somaram 17 títulos olímpicos.

 

RPS