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É Desporto

Quénia. Correr muito no futebol mas ainda sem grande sentido

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Atletismo é um oásis no desporto do Quénia. No futebol, federação tem atravessado vários problemas. O desporto é pouco atrativo, os jogadores preferem estudar e há uma história constante de empresários a explorar jovens talentos, nas quais tropeçamos até por acaso. A corrupção tem impedido qualquer evolução e o futuro está a ser estudado.

 

Supremacia olímpica

 *Adaptado a partir do texto publicado originalmente em julho de 2012 no jornal i

 

Com 100 medalhas em Jogos Olímpicos, o Quénia é o país africano que mais vezes foi ao pódio na prova, superando África do Sul (86) e Etiópia (53). No entanto, a superioridade desportiva resume-se basicamente ao atletismo e não encontra qualquer tipo de paralelo quando a conversa mete futebol.

 

Sim, também é preciso correr, e sim, a condição física é muito importante, mas há sempre algo que parece ir contra a aspiração queniana. As escassas participações na CAN (apenas cinco, sem nunca passar da fase de grupos) ajudam a perceber que algo vai mal no futebol queniano.

 

A corrupção, a falta de informação, a fraca aposta na profissionalização e o aproveitamento dos empresários estão entre as principais causas.

 

Falar sobre futebol queniano não é simples e obriga a constantes desafios. Recorrer aos agentes FIFA costuma ser uma ferramenta útil em qualquer situação, mas o Quénia tinha apenas cinco em 2012. Desses, um não tinha o email ativo e outro tinha um número de telefone que não funcionava. Havia um terceiro que não respondia, sobrando apenas duas alternativas: uma era Feisal Hussein, outra Sam Muchembe. O primeiro foi direto ao assunto: «A federação tem sido sempre o principal problema e as políticas do governo só prejudicam o nosso futebol. No atletismo há uma tribo dominante [Kalenjin], no futebol é muito mais complicado.»

 

As aparências iludem

 

Quanto a Muchembe, a conversa era outra, elogiando a ideia da reportagem: «Fico feliz por me ter contactado. Posso responder às suas questões e tenho um parceiro belga que tem estado ligado ao futebol queniano nos últimos sete anos, levando alguns jogadores para equipas europeias. Espero que escreva uma boa história, inspiradora, que ajude o futebol queniano.»

 

À primeira vista, Muchembe estava a dar uma boa contribuição, mas o caso mudou de figura quando investigámos o parceiro, Jean-Marie Abeels. O belga foi acusado de exploração e tráfico de pessoas ao levar jogadores clandestinamente para a Bélgica e o tema já foi levado ao Parlamento Europeu. Tudo fica mais claro quando se lê que, como Abeels não está licenciado pela FIFA, conta com a ajuda de um queniano. Quem? Sam Muchembe, claro.

 

O segundo contacto tornou-se mais útil. Francis Gaitho tinha 31 anos em 2012 e estivera ligado durante vários anos ao site KenyaFootball.com, dedicando-se na altura a uma empresa que organiza jogos em África.

 

O diagnóstico do futebol queniano começou por um problema que se arrastava há vários anos: a corrupção. De facto, a federação queniana vive na confusão e em 2004 foi suspensa pela FIFA durante três meses, devido a interferências políticas. Dois anos depois, a persistência dos problemas levou a nova suspensão. Pelo meio cresceu um organismo paralelo que lutou pela tutela do futebol queniano.

 

Com tantos problemas, será que o futebol continua a ser popular? Gaitho garantia que sim: «O atletismo dá as medalhas, mas não é para todos. É caro, e os centros de treino estão longe da maior parte da população. Na escola, desde cedo, começa-se a jogar futebol. Mas os problemas existem, claro. O antigo selecionador Francis Kimanzi foi despedido recentemente, acusado de chamar apenas os amigos.»

 

Ainda assim, há talento, como declara o queniano, recordando que os sub-23 haviam derrotado dias antes a equipa sénior do Botsuana por 3-1.

 

Exemplos a seguir

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A identificação de modelos é um passo importante para que as crianças cresçam a desejar ser alguém no futebol. Gaitho explicou que os jogos do campeonato inglês e espanhol passam com frequência na televisão, mas que Dennis Oliech e McDonald Mariga também têm um lugar especial entre Ronaldo, Messi e Rooney.

 

«Todos querem ser como Oliech. Ele é um talento excecional que se destacou num torneio em Marrocos em 2004. É um jogador muito rápido, muito ágil, que se distingue pelos desequilíbrios que consegue», explica sobre o futebolista que atuou várias épocas em França, no Nantes, Auxerre e Ajaccio. Já Mariga, treinado por Mourinho no Inter, «é um caso de perseverança de um jogador que tem subido a pulso».

 

Que futuro?

 

O futebol queniano está longe de ser uma força continental e a presença nas fases finais das Taças das Nações Africanas não tem sido mais do que uma miragem. Para a edição de 2017, a seleção ficou no último lugar de qualificação do grupo E, com Guiné-Bissau, Congo e Zâmbia. E no apuramento para o Mundial-2018 nem sequer conseguiu ultrapassar a segunda ronda, caindo aos pés de Cabo Verde.

 

Seja de que forma for, a grande aposta que os responsáveis estão a fazer prende-se com reformas de fundo que visem uma melhoria a médio e longo prazo. «O país tem exercido uma enorme pressão para que o futebol progrida, visando a criação de academias para jovens, cooperação com escolas e, acima de tudo, tornar o futebol mais atrativo. Hoje em dia, os adolescentes preferem estudar, porque a carreira de jogador não dá dinheiro. É preciso seguir passo a passo, com fundos e novas ideias que estão a ser preparadas e devem ser aprovadas no parlamento nos próximos meses», diz Francis.

 

Uma solução mais imediata e adotada por muitos países africanos passa pela aposta em técnicos estrangeiros. No passado, o cargo já foi ocupado por Bernard Lama, antigo guarda-redes internacional francês. «Só lá esteve um mês e foi uma pena, tinha boas ideias. Mas como não lhe pagaram, foi-se embora. Teria sido uma experiência muito proveitosa, mas não teve tempo.»

 

Para que casos como os de Abeels e Muchembe não continuem a surgir, será preciso também apostar numa maior consciencialização do jogador. Francis Gaitho lamenta que haja pouca informação quando se assinam contratos: «Limitam-se a escrever o nome no papel sem saber o que vem atrás e é isso que os leva a serem explorados pelos agentes.»