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É Desporto

Qual é o problema do Sporting?

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Sporting esteve a segundos de terminar 2016 a dez pontos da liderança numa época em que a expetativa começou no topo mas tem vindo a sofrer quedas sucessivas. As vitórias ajudam mas não há uma solução imediata: o caminho será sempre longo.

 

Não basta abrir e fechar os olhos

 

O problema do Sporting não se chama “Jorge Sousa”. Nem sequer “arbitragens”. O problema do Sporting não é Bruno de Carvalho nem Jorge Jesus. O problema do Sporting não está nos adeptos. Não está nos jogadores. O problema do Sporting não são as contas, a crise financeira ultrapassada, a derrota com a Doyen ou o arquivamento do caso dos vouchers. O problema do Sporting é não haver uma resposta única, e certa, para indicar qual é o… problema.

 

Os leões podiam ter vencido na Luz e não ter escorregado com o Sp. Braga e continuariam, ainda assim, a ter um problema. Um problema que tem muito mais de abstrato do que de concreto. Se pudesse haver um termo para ajudar a resumir o que se passa, talvez o mais certo andasse em torno de um problema de identificação.

 

É difícil saber quem é o Sporting. Não há um culpado único. O clube de Alvalade mostra ter pele de campeão mas o sangue está velho, precisa de ser renovado. São marcas naturais de uma equipa que só venceu o título nacional duas vezes desde 1982.

 

O Sporting tem adeptos de clube campeão, o Sporting tem condições de clube campeão, tem um treinador de clube campeão e já teve vários plantéis de clube campeão mas não é um clube campeão. No fim da época, quando se fazem as contas, nenhum dos últimos 14 plantéis foi campeão. E isso deixa marca, de uma forma ou de outra. 

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E deixa uma marca ainda maior quando há apenas três anos o clube bateu no fundo. O Sporting era um homem em estado de obesidade mórbida que podia cair para o lado a qualquer momento. Ao longo do tempo, perdeu o controlo, não soube procurar o apoio e entrou numa espiral negativa que podia ter sido fatal.

 

A entrada de Bruno de Carvalho coincidiu com o corte nas gorduras. Tomaram-se decisões difíceis, fizeram-se boas apostas – dificilmente poderia ter sido contratado um treinador com melhor perfil para aquela temporada do que Leonardo Jardim – e o clube operou uma reviravolta fantástica.

 

A obesidade mórbida estava ultrapassada e o aspeto era agora muito mais agradável à vista. Mas, como em qualquer programa de entretenimento de perca de peso rápido, os problemas não se esgotam com o emagrecimento. É preciso saber reconstruir toda a cultura de triunfo necessária para manter o bom aspeto. E aí não há forma de o conseguir sem o ingrediente fundamental: os próprios triunfos.

 

Problema de identificação

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O Sporting pode assemelhar-se a um dos memes mais famosos de profissão. Seja designer, jornalista, relações públicas, advogado, seja o que for, há quatro janelas em que se identifica a forma como a família, os amigos, os outros e eles próprios se veem. Como julgam que é a profissão.

 

É este o estado atual do Sporting. E tem sido assim há muito tempo. A forma como o Sporting se vê, a forma como os seus adeptos o veem e a forma como é visto por adeptos e dirigentes de outros clubes é diferente.

 

O Sporting não se pode querer assumir como o melhor clube nacional, mesmo que tenha o maior número de títulos em todas as modalidades. Bruno de Carvalho não pode querer reforçar a cada comunicação o estatuto de “maior potência desportiva nacional” quando em ação, o clube continua a vacilar nas modalidades de maior destaque. Todos os títulos interessam, é claro, e o Sporting está hoje mais próximo de vencer em futebol, andebol e hóquei em patins do que estava quando o atual presidente tomou posse, mas o caminho é longo.

 

O clube já tem o aspeto rejuvenescido mas ainda não promove os melhores hábitos. Mais uma vez, tem um problema de identificação. O mercado de 2013, apertado e sem exageros, correu melhor do que o de 2014. Em diversos momentos, jogadores como Jefferson, Montero e Slimani – até Maurício – assumiram lugares de destaque e estiveram em momentos decisivos.

 

Na temporada seguinte, com dinheiro da Liga dos Campeões e um estado financeiro mais desafogado, a equipa não soube investir. Não interessa identificar culpados dos investimentos fracassados, mas é indesmentível que o valor investido não se traduziu em retorno, mesmo contando com a conquista da Taça de Portugal.

 

Este ano aconteceu mais do mesmo. A época passada foi promissora, deixou os leões com 86 pontos e com o sabor do título na ponta da língua. Cresceu a sensação de que só faltava pressionar mais um pouco. Mas com quatro meses de temporada, percebe-se que não correu bem. Há margem ainda para melhorar, claro, mas os erros de casting estão já relativamente bem identificados.

 

Parece que, de certa forma, o Sporting tem assumido na gestão uma posição semelhante à que qualquer um de nós adotava no Championship Manager quando tinha fôlego financeiro. Gastar, contratar, dotar a equipa de soluções com uma técnica infalível de ter dois jogadores muito bons (pelo menos na teoria) para cada posição e ignorar eventuais efeitos nefastos que essas alterações poderiam ter na dinâmica e cultura da equipa.

 

Gestão de ativos

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Jefferson é o exemplo que mais confusão causa. O lateral nunca foi o preferido de Jorge Jesus e, com o tempo, os adeptos mentalizaram-se que um dos problemas estava precisamente aí. Mas o brasileiro que chegou do Estoril em 2013 foi muito importante ao longo das últimas três épocas. O pendor ofensivo que transmitia à equipa e a propensão para assistir fizeram dele um dos elementos mais valiosos da equipa.

 

Agora, prestes a entrar em 2017, está irreconhecível. Perdeu minutos, perdeu confiança, perdeu valor de mercado. E quem diz Jefferson pode dizer Paulo Oliveira. E, eventualmente, mais tarde ou mais cedo, Zeegelaar, a acreditar na prioridade de reforçar a lateral esquerda em janeiro.

 

Chame-se o clube Sporting, Benfica, Barcelona, Real Madrid ou Bayern Munique, é sempre possível contratar jogadores melhores para o onze. Não se pode, nunca, é ignorar o efeito contraproducente que isso poderá causar na dinâmica.

 

Já que cantas, tens de estar afinado

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Bruno de Carvalho chegou ao Sporting com a garantia de que o clube passaria a falar a uma só voz. Era uma promessa válida e que fazia sentido, especialmente lembrando as fases recentes em que tinha havido Godinho Lopes, Carlos Freitas, Luís Duque, Carlos Barbosa e muitos mais dirigentes que se sentiam sempre legitimados a falar.

 

O problema é que não basta ter uma só voz. É preciso ter cuidado e ponderação no que se diz. O presidente do Sporting tem travado muitas guerras. Dizem que dispara contra tudo e contra todos. É difícil desmentir quando as declarações nos entram pelas redes sociais a cada dia, mas mais importante do que perceber se está sempre e guerra, é perceber se as guerras fazem sentido.

 

Fez sentido cortar relações com o FC Porto por se sentir desrespeitado? Fez sentido a guerra com a Doyen e contra os fundos que assumiam relações de poder sobre os clubes? Fez sentido continuar a promover a adoção do vídeo-árbitro? Quando as guerras são bem escolhidas, não interessa se se fala muito ou pouco. Mas se há guerras laterais que pouco interessam e de onde saem derrotas, o cenário geral só vai sair prejudicado.

 

Jorge Jesus tem uma dinâmica semelhante. Foi uma escolha perfeita para o momento em 2015 e a recompensa material esteve muito perto de acontecer. Independentemente disso, a equipa melhorou em muito o futebol praticado. E isso também importa para os adeptos.

 

Mas ao contratar o ex-treinador do Benfica, Bruno de Carvalho comprou também uma guerra de comunicação. O Sporting deixou de ter apenas um alvo a abater, passou a ter dois. O “futebol” em Portugal não gosta de Bruno de Carvalho. E também não gosta de Jorge Jesus.

 

Acontece por razões diferentes, seja postura ou passado, mas o mais importante a reter é que são duas pessoas que gostam de falar. Que são polémicas quando falam. Que dizem o que pensam, a bem ou a mal. E isso cria anticorpos. Cria um desejo, secreto ou não, de os ver perder, de troçar nas derrotas. Algo que não acontecia, por exemplo, com um muito mais discreto Leonardo Jardim.

 

Se o Sporting perdesse, ninguém faria fila para saber como foi a cara de Leonardo Jardim (até porque era o rei da "inexpressão"). Com Jorge Jesus, e Bruno de Carvalho, a história é radicalmente diferente. Se as entrevistas rápidas fossem em pay-per-view, provavelmente renderia mais do que o próprio jogo.

 

Quem assume uma postura de “cantar de galo” tem de provar depois em campo, correndo o risco de cair no limiar do insuportável quando não o faz. E esta dinâmica está longe de ser exclusiva do Sporting. Seja o Benfica em todo o período entre Toni e Jesus ou o FC Porto, a cada sensação de insulto por ouvir que havia um fim de ciclo, todos correm esse risco.

 

Valorização da identificação

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A diferença residirá sempre no esforço e valorização do trabalho e na capacidade de entender e aplicar em que momento está verdadeiramente um clube. O Sporting, os seus dirigentes e os seus adeptos, parecem estar a falhar neste aspeto.

 

O Sporting não pode continuar a insistir que é o melhor enquanto cantar desafinado. Tem de conseguir ser afinado para depois cantar à vontade. Tem de haver uma mensagem suficientemente forte, pelo menos a nível interno, com uma obsessão pela perfeição e capacidade de conquistar títulos dentro de campo, independentemente do que se passar fora dele.

 

Os exemplos estão aí a comprová-lo. A recuperação do Benfica pós-Artur Jorge primeiro e pós-Vale e Azevedo depois teria sido tanto melhor, quanto tivesse sido a capacidade de todos – já com responsabilidades para Luís Filipe Vieira – de perceber que o clube continuava a ter os títulos todos do passado, mas estava a ser uma equipa irreconhecível dentro de campo, com maus hábitos e maus princípios.

 

O FC Porto talvez estivesse hoje mais sólido se não tivesse ironizado, com responsabilidade para os seus adeptos também, com a expressão “fim de ciclo” que se ouviu quando o Benfica de Jorge Jesus foi campeão em 2014, no primeiro de três títulos consecutivos.

 

O significado de fim de ciclo é esse mesmo. Os dragões tinham vencido três títulos consecutivos e acharam que o ciclo não tinha terminado. Erraram. E ao errar cometeram erros sucessivos que lançaram o clube numa depressão que deixa os adeptos preocupados, mesmo com as mais recentes vitórias.

 

O FC Porto falhou porque perdeu a sua matriz, deixou de se conseguir identificar. Quando perderam o título em 2005, os dragões cerraram fileiras e lançaram o mote para um tetracampeonato. Quando perderam o título em 2010, deram a volta, contrataram André Villas-Boas e entraram em 2010/11 com uma sede de vitórias que fez toda a diferença.

 

Em 2014, no entanto, julgaram que tinha sido apenas mais uma época. E continuam a pagar caro, ultrapassando a maior seca de títulos desde que Pinto da Costa assumiu o comando.

 

Der por onde der, quer a bola entre ou não, quer o árbitro apite ou não, é imprescindível saber sempre o estado do clube, onde se situa e para onde tem de caminhar. Se, como a mensagem tem sido transmitida, o Sporting julga que está no topo e o problema são apenas os fatores externos, menor será a preocupação de reparar os problemas internos e aproximar o clube do verdadeiro topo.

 

RPS

 

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