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É Desporto

Pierre Nkurunziza. O futebol como propaganda no Burundi

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Está a cumprir o terceiro mandato presidencial, apesar da tentativa de Joseph Blatter de o fazer mudar de rumo, e faz questão de organizar jogos contra as equipas locais. Tem um estádio privado que, conta a reportagem do The Guardian, parece tirado do Championship.

 

E no início era a bola…

 

«Interessa-se pelo futebol desde a tenra infância, com cinco anos. Estava sempre entre os melhores jogadores da equipa, tanto no ensino secundário como no ensino universitário». A descrição, sempre suspeita, surge na biografia disponível de Pierre Nkurunziza, no site oficial da presidência do Burundi.

 

Verdade ou não, a ligação ao desporto é indesmentível. O mesmo texto garante que é «um atleta talentoso que gosta de futebol e ciclismo». O passado, no entanto, é quase todo no futebol, não só como jogador mas também como treinador, orientando na década de 90 a equipa do exército e o Union Sporting, então na primeira divisão.

 

Os primeiros anos de vida de Pierre Nkurunziza não foram fáceis. Com apenas oito anos viu o pai de etnia hutu, membro do parlamento e governador da região em que viviam, ser assassinado durante o massacre étnico protagonizado pelos tutsis em 1972, que vitimou mais de 100 mil pessoas. Mais tarde, na universidade, era o alvo de um grupo rival mas foi o irmão que acabou assassinado, devido às parecenças com Pierre.

 

O aparecimento da política

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Condenado por montar minas anti-pessoais, Nkurunziza beneficiou da amnistia feita no acordo do fim da guerra civil e lançou as bases para uma carreira política, sendo eleito presidente pela primeira vez em 2005.

 

Antes, em 2004, enquanto Ministro do Estado, criara uma escola de futebol que integra quase 600 jovens de diferentes cantos do país. Depois, já presidente, foi ainda mais longe e criou uma equipa de futebol, o Alleluia FC, onde «joga como avançado e marca muitos golos».

 

O Alleluia FC tornou-se uma das ferramentas de governação mais importantes de Nkurunziza. Onde quer que vá no país, leva a equipa composta por antigos companheiros de equipa e organiza jogos contra os clubes locais e sessões de orações religiosas.

 

A atitude, considerada pela oposição como populista, conduz a muitas críticas. «Este presidente passa o tempo a construir escolas, a colocar o cimento, a jogar futebol ou a rezar. Não tem tempo para se ocupar com os dossiers de governação.»

 

Em sua defesa, Nkurunziza, hoje com 52 anos, vê o desporto como «uma ferramenta importante de reconciliação e desenvolvimento». Menos decisiva terá sido a construção de um estádio privado com dez mil lugares cobertos e quatro torres de iluminação capazes de «transformar a noite em dia».

 

No Burundi, apenas 2% da população tem acesso a eletricidade.

 

O polémico terceiro mandato

 

A tensão social no Burundi tem subido de tom nos últimos anos e atingiu um novo pico quando Pierre Nkurunziza anunciou que seria candidato à presidência em 2015. O problema, segundo os rivais, era a limitação de mandatos prevista na constituição.

 

Nkurunziza recusou não estar em posição de se candidatar novamente e o tribunal constitucional deu-lhe razão. O argumento utilizado realçou o facto de em 2005 não ter sido eleito pelo povo mas sim pelos deputados do parlamento.

 

Os resultados eleitorais deram-lhe sempre maioria. Em 2010, venceu com mais de 91% dos votos e há dois anos conquistou um terceiro mandato com 69,41%, numas eleições em que a abstenção rondou os 70%. Pelo meio, teve de resistir a uma tentativa de golpe de estado.

 

No ano passado, Joseph Blatter, antigo presidente da FIFA, revelou que tinha sido contactado pela Suíça e pelos EUA para tentar ajudar a mediar a tensão que se vivia no Burundi. O suíço revelou que o organismo tentou aproveitar a paixão de Nkurunziza pelo futebol para seduzi-lo a aceitar o cargo de embaixador para o futebol.

 

«A Suíça, que queria proteger os interesses do Burundi, pediu-me para falar com o presidente, que é um grande adepto de futebol, e persuadi-lo a não tentar a recandidatura», escreveu Blatter em livro.

 

«Disse-me que estava sensibilizado. Pensou durante algum tempo mas disse-me que não, que ia mesmo concorrer», continuou o antigo presidente da FIFA.