Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É Desporto

Nnamdi Azikiwe. Combater os nazis foi cavalo de tróia

nnamdi.jpg

Luta pela independência da Nigéria fez com que organizasse jogos pelo país, autorizados pelos britânicos, para vender obrigações que ajudassem a financiar a II Guerra na Europa. Mas não perdia uma oportunidade para discursar contra a ocupação colonialista. 

 

Futebol une o povo

 

Nnamdi Azikiwe foi o primeiro presidente da Nigéria, em 1963. Estava a chegar aos 60 anos e para trás tinha uma dura luta pela independência do país africano, colonizado pelo Reino Unido. O caminho foi sempre longo, passou pela II Guerra Mundial, mas todos os momentos foram pensados ao pormenor. O maior trunfo foi a paixão dos nigerianos pelo futebol.

 

Zik, como era conhecido, não era apenas mais um nigeriano oprimido pelos colonos. Queria mais. Sabia que o processo nunca seria fácil e apostou na educação. Foi para os Estados Unidos na década de 30 para completar o ensino universitário e voltou diferente, mais capaz, mais estratégico, mais inteligente.

 

No regresso a África, começou por trabalhar como jornalista, em 1934. Quatro anos depois, no entanto, decidiu formar uma equipa de futebol em Lagos, o Zik’s Athletic Club. O primeiro objetivo passou por demonstrar que se podia promover um futebol sem racismo mas, com o deflagrar na guerra na Europa, sentiu que havia uma oportunidade que não podia desperdiçar.

 

Entre 1942 e 1943, nos anos mais quentes da guerra contra a Alemanha nazi, Zik promoveu várias digressões pela Nigéria, organizando jogos de futebol contra as equipas locais. A bandeira era sempre a mesma: ajudar a vender as tão necessárias obrigações de guerra para que os britânicos não ficassem sem fundos.

 

Mas no fundo era mais, muito mais. Zik sabia que o futebol era a forma mais eficaz para lutar contra as autoridades coloniais. Dessa forma, usou-o para aumentar a sensibilidade no tema da independência, discursando após os jogos que chegavam a reunir 20 mil espetadores e apontando a hipocrisia de um país colonizador que lutava contra a Alemanha.

 

Zik ansiava pela democracia e por reformas estruturais. Não houve canto de terra da Nigéria por onde não tivesse andado. Reunia donativos para os britânicos com uma mão mas apontava-lhes o dedo com a outra. «Se estamos todos numa guerra contra a Alemanha Nazi e contra a sua ocupação e políticas discriminatórias na Europa, o que estão a fazer aqui ainda?», perguntava aos diplomatas britânicos.

 

Esforço conjunto

 

O futebol foi visto como o trunfo perfeito para apelar ao sentimento de unidade e identidade entre nigerianos de várias regiões mas vinha acompanhado pelo trabalho executado pelo jornal que ajudou a fundar, o The Pilot.

 

O jornal prolongava a mensagem e ajudava a enquadrar o futebol como um elemento pacificador e de união. Em 1949, quatro depois da guerra, organizou uma digressão ao Reino Unido e voltou a explorar a modalidade.

 

A qualidade dos nigerianos servia de arma de arremesso. Se, numa fase preliminar, o futebol tinha sido utilizado como prova da superioridade cultural dos colonialistas, o equilíbrio atual não mais era de que um sinal da decadência imperial e incapacidade para governar.

 

Na mesma estratégia, o The Pilot publicou, em 1953, um texto satírico sobre a vitória da Nigéria sobre a Inglaterra por 10-0 na chamada Taça da Liberdade.

 

O sistema estava a ruir e Zik continuava a assumir um papel preponderante. A luta durou mais de vinte anos mas foi ganha. E o futebol até beneficiou disso primeiro, com o reconhecimento da seleção nigeriana pela FIFA em 1959, semanas antes de a independência ter sido declarada.