Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É Desporto

Nigéria. A guerra civil parou para ver jogar Pelé?

pele.jpg

O almanaque do Santos escreve que a época de 1969 começou com «uma viagem com tantas histórias que se torna difícil fazer a distinção entre facto e ficção». Pelé é o primeiro a dizer que ajudou a parar a guerra civil na Nigéria durante dois dias mas, como fazia dentro das quatro linhas, pode estar apenas a embelezar um lance.

 

 

Uma boa história

 

Há frases que se tornam verdadeiros lugares-comuns numa redação, mesmo que não sejam levadas a sério. «Não deixes que a verdade atrapalhe uma boa história» é uma delas, mais críticas, e que, na verdade, não fica muito bem a quem a diz. Mas acontece.

 

É isso que se passa com a história sobre como os nigerianos acordaram um cessar-fogo de 48 horas durante a guerra civil nos anos 60 para ver jogar o Santos de Pelé. Foi assim que descobrimos a história mas não houve espaço sequer para nos empolgarmos com a ideia: logo na primeira página de pesquisa, há uma frase que salta à vista: «O único problema com a história de Pelé sobre o cessar-fogo na guerra civil nigeriana é que não é verdade.»

 

A mesma ideia surge no almanaque do Santos, de Guilherme Nascimento. «A época oficial (1969) começa com a famosa, e ainda misteriosa, digressão a África. Uma viagem com tantas histórias que se torna difícil fazer a distinção entre facto e ficção.»

 

Há factos que parecem garantidos: em 1969, o Santos não só era a melhor equipa brasileira como tinha o melhor jogador do mundo – Pelé. Por isso mesmo, havia quem estivesse disposto a pagar muito dinheiro para ver a equipa jogar ao vivo. Foi essa vontade que levou o Santos a fazer uma digressão em África, com paragens no Zaire (atual RD Congo), Nigéria, Moçambique, Gana e Argélia.

 

Etapa nigeriana

 

A guerra civil na Nigéria tinha começado a 6 de julho de 1967. O país era independente desde 1960 mas tinha surgido um novo movimento separatista no sudeste do país, na região do Biafra. Apesar da guerra, os dirigentes da federação de futebol avançaram para garantir a viagem do Santos.

 

«Quando se equaciona o valor deste clube internacionalmente, o dinheiro que vamos pagar é relativamente pequeno», afirmou o vice-presidente da federação na altura, garantindo que as 11 mil libras eram um preço justo a pagar, mesmo em época de guerra.

 

O Santos aterrou em Lagos a 26 de janeiro de 1969, um dia depois de ter perdido no Zaire por 2-3. A situação no país africano preocupava os jogadores do Santos mas Pelé refere que um diretor lhes tinha garantido que não haveria problema.

 

O encontro terminou empatado a dois golos, com Pelé a bisar. Mas os nigerianos queriam mais e chegaram a acordo para um segundo encontro, já em fevereiro, no Benim, junto à fronteira com a Nigéria. O prémio foi substancialmente mais baixo (seis mil libras) e, apesar da vitória do Santos, não houve golos de Pelé no 2-1.

 

Cessar-fogo. Facto ou ficção?

As declarações de Pelé sobre a digressão são inconsistentes. Só falou em cessar-fogo na sua segunda autobiografia e vai confundindo o ano da viagem entre 1967 e 1969. Mais recentemente, assentiu que não estava certo que a história do cessar-fogo fosse «totalmente verdadeira».

 

«Mas os nigerianos garantiram uma forma de evitar os ataques da fação de Biafra a Lagos enquanto lá estávamos», garante.

 

No jogo de Benim, a situação parece ainda mais improvável. Não só seria difícil percorrer o país por uma zona hostil até ao local do jogo como não faz sentido que tenha havido um cessar-fogo tendo em conta que quatro dias antes o lado de Biafra tinha bombardeado uma terra a pouco mais de dez quilómetros do Benim, provocando a morte a quatro agricultores.

 

Mesmo sendo mentira, não deixa de ser uma boa história. Podia ser melhor, mas continua a demonstrar como uma equipa – das melhores do mundo e com um jogador chamado Pelé – aceitou viajar para um país africano em guerra em troca de uma compensação financeira que ajudasse a equilibrar as contas.

 

No ano seguinte, os dois lados tiveram um momento marcante. Logo em janeiro, a guerra civil chegou ao fim, com a reintegração de Biafra na Nigéria após mais de um milhão de mortes. Mais tarde, no verão, Pelé levou o Brasil ao terceiro Mundial da sua história no México.