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É Desporto

Nate Ebner. Um campeão da Super Bowl nos Jogos Olímpicos

Nate Ebner com a bola oval/THE BOSTON GLOBE

A paixão sempre foi o rugby mas a morte brutal do pai encaminhou-o para o futebol americano. A presença nos Jogos Olímpicos é o sonho de um jogador que confessa ter, «provavelmente», um parafuso a menos.

 

No início era o rugby

 

Nate Ebner nasceu a 14 de dezembro de 1988 com a paixão pelo rugby no sangue. O pai, Jeff Ebner, tinha jogado na Universidade do Minnesota, e foi o principal responsável pela transmissão do interesse.

 

O talento do adolescente judeu destacou-se de forma precoce. Com 17 anos, tornou-se o jogador mais jovem de sempre a atuar pelos Estados Unidos numa partida de sevens. Foi essa dedicação completa à modalidade que impediu que acumulasse outros desportos.

 

O futebol americano pareceu estar sempre numa porta ao lado que só foi aberta no penúltimo ano da faculdade, mais ou menos na mesma altura em que o pai foi agredido até à morte durante um assalto.

 

O modelo e a forma de ultrapassar a dor

 

Jeff Ebner era a maior inspiração de Nate. «Era o meu único ídolo. Olhando para trás, vejo que tinha jogadores favoritos, mas não passavam disso. Como modelo, na forma como devo agir, trabalhar, naquilo que o trabalho significa e como me devo comportar em todos os aspetos da vida... para mim, o meu pai era esse homem, esse modelo», confessou.

 

O trauma fez com que procurasse outro ambiente. Foi aí que a porta do futebol americano se abriu: «Foi precisamente isso que foi, uma ocupação que me fez esquecer. Era algo diferente em que me podia concentrar. Quando algo trágico acontece, tem de se fazer alguma coisa. Não tinha de falar sobre os meus sentimentos com ninguém, limitava-me a trabalhar.»

 

A transição não foi fácil. No início, tinha de garantir que conseguia colocar todo o equipamento bem à primeira. O facto é que os resultados apareceram e foram suficientes para convencer a faculdade de Ohio State a oferecer-lhe uma bolsa para o último ano da universidade.

 

A lógica era simples: Ebner dedicava-se ao máximo em tudo a que se entregava. Mais uma vez, o pai foi o responsável. «Realçava a importância de dar tudo em cada tarefa e em atuar sempre de forma apropriada», contou.

 

O salto para a NFL

 Nate Ebner com Bill Belichick/USA TODAY

A impossibilidade de assinar um contrato profissional com uma equipa de rugby fez com que Ebner, o melhor jogador das special teams dos Buckeyes, admitisse a possibilidade de ir jogar para a NFL. No draft de 2012, esperou até à sexta ronda para ser escolhido pelos New England Patriots.

 

A adaptação nunca é simples, especialmente numa equipa como a de Bill Belichick e de Tom Brady, na qual os hábitos e jogadas estão enraizados há mais de dez anos, mas Ebner foi igual a si mesmo e convenceu o treinador.

 

«Teve uma enorme evolução durante o primeiro ano. De todos os jogadores que já treinei, estará nos 5% que mais evoluíram», analisou Belichick na altura.

 

O safety sentia-se bem. E até já tinha um momento de jogo preferido: «O kickoff, muito provavelmente. Porque… gosto de começar a correr o máximo que consigo. É o caos, é excitante, é uma loucura. Dá uma grande adrenalina, fica tudo enevoado… e depois acaba. Provavelmente tenho um parafuso a menos, eu.»

 

Uma paixão nunca se esquece

 

Nate Ebner renovou o contrato com os New England Patriots por mais duas épocas em março de 2016. Já era campeão da NFL – os Patriots conquistaram a Super Bowl em fevereiro de 2015 – mas não tinha conseguido esquecer o rugby.

 

A paixão estava viva e três dias depois da renovação pediu à equipa uma licença para prestar provas na seleção de sevens, de forma a lutar por um lugar nos Jogos Olímpicos. Os Patriots consentiram.

 

Para Ebner, era a possibilidade de perseguir um sonho que tinha desde criança num desporto pelo qual sempre sentiu uma grande paixão. «Não consigo traduzir em palavras o quanto esta oportunidade significa não só para mim, mas também para os meus amigos e família.»

 

A presença estava longe de ser uma garantia. Aliás, em abril o selecionador Mike Friday dizia que a possibilidade de ser convocado estava entre os 10 e os 20%. Depois dos primeiros jogos particulares, reviu os números para 50%.

 

O assunto gerou muita atenção mediática mas Mike Friday sempre garantiu: «Isto não é uma manobra de marketing, não temos tempo para isso.»

 

Impressionar desde o primeiro momento

 

Nate Ebner convenceu em campo/POWER SPORTS IMAGES

Nate Ebner fez o que tinha a fazer: deu tudo o que tinha e ofereceu tudo o que podia. Uma das primeiras coisas que fez, para facilitar a adaptação, foi perguntar à equipa técnica se havia um código de linguagem para utilizar em campo.

 

Mike Friday achava que sim, mas descobriu que não. Depois de investigar, percebeu que os jogadores tinham termos diferentes para as mesmas ações. «Foi isso que gostei e que queria dele. Sendo novato neste ambiente, soube reconhecer uma área em que podíamos melhorar», explicou.

 

A percentagem continuou a subir até ser definitivamente escolhido em julho de 2016. Hoje, os Estados Unidos defrontam a Argentina e Nate Ebner vai lá estar. Com um parafuso a menos, provavelmente, mas igual a si mesmo. Como o pai sempre lhe ensinou.

 

RPS