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É Desporto

Moniz Pereira. O Senhor Atletismo chegou à meta

Moniz Pereira

Tinha 95 anos. Com uma história de vida dedicada ao desporto, Mário Moniz Pereira construiu os alicerces para os melhores resultados de Portugal no atletismo. «Valeu a pena», como o título de uma das centenas de fados que compôs. 

 

«Sou muito antigo mas não sou velho»

 

Nunca foi um aluno brilhante. Num programa da RTP em 2009, «Há conversa», sacou do boletim de notas do sexto ano e alternava entre o 9, o 10 e o 11. Havia duas exceções: o 14 a Educação Física e o 18 a Canto Coral. Foi nessas duas que se destacou durante uma vida em que a matemática esteve sempre presente.

 

Moniz Pereira recusava ser visto como velho. «Sou muito antigo mas não sou velho», garantia. «Se fosse velho estava aqui a fazer crochet. E amanhã lá vou para o campeonato, para o Pombal. Sou igualzinho ao que sempre fui, não mudei nada». E nunca dizia a idade de forma simples e dura. Em 2009, tinha 17 vezes cinco mais três. Dois anos mais tarde, mudou a tabuada e passou a ter cinco vezes 20 menos dez. Mas velho nunca foi.

 

Marcou o desporto de uma forma indiscutível. Chegou ao Sporting em 1939 como praticante de ténis de mesa mas também deu uns toques no hóquei em patins, na ginástica, no ténis, no voleibol e, claro, no atletismo.

 

Quando fez 94 anos, reagiu com humildade à homenagem que a Sporting TV lhe fez: «Fico satisfeito por as pessoas gostarem de me ver. É sinal que fiz qualquer coisinha que as pessoas gostaram».

 

O início de uma história de amor

Moniz Pereira

Moniz Pereira atribuía ao vizinho Salazar Correia a maior responsabilidade de se ter tornado quem era. «Tinha uma grande cultura desportiva, era meu vizinho, emprestava-me os jornais desportivos. Teve uma grande influência na minha paixão», disse.

 

Habituado aos estádios olímpicos e pistas de atletismo espalhadas pelo mundo, tudo começou no pequeno quintal de casa, com 60 metros quadrados (dez por seis).

 

«O meu estádio era o meu quintal. A minha primeira pista de atletismo foi o meu quintal», disse em 2009 ao «Há conversa». Depois de ter tido autorização para remover os canteiros, restou apenas uma nespereira que servia de referência para algumas provas.

 

«O caminho entre descer da varanda, dar a volta à nespereira e voltar à varanda eram 38 metros. Por isso havia os 38 metros livres e os 38 metros barreiras, quando metíamos lá umas coisas pelo meio. Fazíamos à vez, eu, o meu irmão e um rapaz meu colega no liceu que vivia ali perto», contou.

 

Mário Soares, o vizinho de cima, assistia mas sem participar. Afinal, era quatro anos mais novo e, conta Moniz Pereira, muitas vezes ficava ao colo da mãe da família Pereira na varanda. Já as provas não se ficavam por ali.

 

«O lançamento do peso era com uma pedra. Triplo salto não dava – o quintal era muito pequeno -, portanto era o duplo salto, que foi uma coisa que eu inventei e nunca houve em parte nenhuma. Na varanda havia o salto em altura com uma corda e para o salto com vara usávamos uma vassoura das grandes. Os resultados eram um metro e pouco», continuou.

 

O Sporting e o sonho

 

O ano de 1945 mudou-lhe a vida para sempre. Ao assumir o cargo de treinador de atletismo do Sporting, estava a dar o primeiro passo para entrar na história do país.

 

O irmão dizia que Mário Moniz Pereira era um pouco como a frase de Kennedy: «Aquela do "não perguntes o que o teu país pode fazer por ti, mas sim pelo que podes fazer pelo teu país"».

 

E aí, o sonho era treinar um atleta que conseguisse ser campeão olímpico. «Demorei 39 anos a conseguir aquilo que toda a gente dizia ser impossível», afirmou, lembrando o dia em que Carlos Lopes conquistou a maratona nos Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 1984.

 

Para trás tinha ficado um caminho cheio de obstáculos e no qual a sorte não foi tida nem achada: «A sorte dá muito trabalho. Até é uma palavra feminina, tu é que tens de ir atrás dela, não é ela que vem ter contigo.»

 

Pelo caminho, fizera tudo para garantir melhores condições aos atletas. «Sempre disse que éramos tão bons como os melhores mas que era preciso ter condições, ou semelhantes, como os melhores», lembrou o comentador da RTP Luís Lopes este domingo.

 

A ajuda do amigo de infância Mário Soares foi fundamental. Em 1976, o então primeiro-ministro do I Governo Constitucional permitiu a criação de condições para que os atletas não trabalhassem a tempo inteiro. Esse foi também o ano em que Portugal conquistou a primeira medalha olímpica no atletismo: Carlos Lopes foi prata nos 10 mil metros em Montreal.

 

«Continuamos todos contentes por termos nascido?»

 

Moniz Pereira não admitia atrasos. Não permitia faltas aos treinos. Não admitia desculpas e no balneário havia um aviso que podia ser assustador: «Comigo há treino em quaisquer condições atmosféricas, inclusive terramotos.»

 

Ao mesmo tempo criava uma empatia única com os atletas que treinava. No início de cada sessão, a primeira pergunta era sempre a mesma: «Continuamos todos contentes por termos nascido?»

 

«Toda a vida fiz aquilo que gosto, e ainda por cima pagavam-me», confessou uma vez. Aurora Cunha considera que «tudo o que o atletismo português conseguiu nestes últimos 30 e poucos anos, deve-o ao professor Moniz Pereira».

 

«Ganhou tudo o que havia para ganhar num tempo em que Portugal não ganhava nada. Fez campeões da Europa, campeões do mundo, campeões olímpicos, sempre com muito trabalho», explicou o fadista Carlos do Carmo, para quem Moniz Pereira compôs vários fados, em declarações à RTP3.

 

1984, o ano de ouro

Moniz Pereira

Foi o ano em que tudo mudou. Primeiro, a 2 de julho, no Meeting de Estocolmo, viu Fernando Mamede roubar praticamente nove segundos ao recorde do mundo dos 10 mil metros que pertencia há seis anos ao queniano Henry Kono.

 

O último europeu a deter o recorde mundial deu um testemunho muito emocionado à RTP3: «Morreu-me um pai, sem dúvida. Era um homem fabuloso, um treinador fabuloso. Fez de mim, um corredor dos 400 e dos 800 metros, um recordista mundial nos 10 mil metros. E se mais não fez comigo, foi porque o meu sistema nervoso não o permitiu».

 

Os elogios e as recordações de Fernando Mamede não ficam por aqui: «Ele apostou tudo em nós e nele próprio. Mostrou, por A+B, que treinando mais um pouco, mesmo sem ter as condições dos atletas estrangeiros, éramos capazes».

 

Do recorde mundial de Fernando Mamede ao ouro olímpico de Carlos Lopes, passaram-se 41 dias. Apesar dos 37 anos, e de ter sido atropelado durante um treino pouco tempo antes, o fundista nacional cumpriu o desígnio a que Moniz Pereira se tinha dedicado há 39 anos.

 

«Levar um atleta a tornar-se campeão europeu, mundial ou olímpico é inexplicável. É como a música. Começa-se com uns acordes ao piano e acabamos a ver uma orquestra a tocar o que fizemos. É como o nascimento de um filho», confessou ao Expresso em 2000.

 

A música como segunda paixão

 

Moniz Pereira

O atletismo dominou a vida de Moniz Pereira, mas o professor arranjou sempre uma forma de envolver a música. A confissão é de Fernando Mamede: «Nos estágios ou nas deslocações pela seleção, desde que houvesse piano, ouvíamos os fados dele.»

 

Compôs centenas de fados para alguns dos artistas portugueses mais famosos, como Carlos do Carmo e Fernando Tordo, e levava uma vida sem excessos.

 

Carlos do Carmo garante que Moniz Pereira nunca bebeu álcool e nunca fumou. Ou melhor, «nunca». «Ele convidava-nos para irmos à festa de anos dele. Houve um dia, num almoço, em que estava um bocado de calor. Eu perguntei-lhe se não queria experimentar um bocado de vinho. Insisti tanto que conseguiu que bebesse quase meio copo.»

 

Sporting... Clube de Portugal

 

A vida de Moniz Pereira e o Sporting cruzaram-se em 1939 e nunca mais se separaram. Era o sócio número 2 e sempre garantiu que deixaria de ser sócio no dia em que passasse a ser «Sporting Futebol Clube e não Sporting Clube de Portugal».

 

Moniz Pereira nunca escondeu o desalento pelo desaparecimento das pistas de atletismo dos estádios portugueses com o Euro-2004 e achou inacreditável que a decisão em Alvalade tenha sido tomada praticamente na altura em que os leões conquistaram o inédito título europeu masculino de pista, em 2000.

 

«Vivemos numa ditadura futebolística e não temos cultura desportiva. Mas creio que isto há-de mudar. Vai é levar muitos anos, décadas ou até séculos».

 

RPS