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É Desporto

Marieke Vervoort. Saber que pode decidir morrer deixa-a tranquila

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«Quando quiser, pego nos documentos e decido morrer. Isso é algo que me deixa tranquila quando sinto dores. Não quero viver como um vegetal.» Atleta paralímpica belga decidiu que vai terminar a carreira no Rio de Janeiro e que o futuro está em aberto. Antes de recorrer à eutanásia, ainda tem sonhos por cumprir.

 

Liberdade de escolha

 

A liberdade é um conceito muito flexível. Para Marieke Vervoort, nascida em maio de 1979 na Bélgica, as limitações começaram com 14 anos, por culpa de uma inflamação no pé, que rapidamente se alastrou aos joelhos e deixou-a condenada a andar de cadeira de rodas a partir dos vinte anos.

 

Os sonhos de Marieke foram sendo arrasados, um atrás do outro. Quando era nova, divertia-se a trepar a todas as árvores que conseguia com os seus amigos. Mas não o fez por muito tempo. Depois, nem sequer conseguiu terminar os estudos, destruindo o sonho de um dia poder ser educadora de infância.

 

A raiz do problema estava na espinal medula e numa doença degenerativa que a iria limitar cada vez mais e transformar a vida num sofrimento insuportável.

 

Desporto como refúgio

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Apesar das dores, Marieke nunca se acomodou. Testou basquetebol, golfe, esgrima, surf, triatlo, pesca submarina e golfe. Tudo desportos em que, de uma forma ou de outra, só precisaria de usar as mãos.

 

As limitações continuaram e as dores alastraram. Hoje, está concentrada no atletismo e é uma das atletas mais rápidas em cadeira de rodas. Nos Jogos Paralímpicos de Londres, venceu a medalha de prata na prova de 200 metros e foi campeã olímpica nos 100 metros.

 

No Brasil, aos 37 anos, o objetivo é terminar em grande: «Depois do Rio de Janeiro, vou acabar a minha carreira. Quero ver o que a vida me dá e tentar aproveitar estes últimos momentos. Tenho uma lista de coisas para fazer e começo a pensar em eutanásia.»

 

“Morte” é trunfo na manga

 

Marieke Vervoort não sabe quando vai morrer mas sente-se muito mais tranquila por saber que tem esse recurso. Na Bélgica, onde a eutanásia é legal desde 2002, a atleta já tem tudo tratado e «basta» mostrar a documentação a um médico credenciado para pôr fim à vida.

 

O quando continua a ser a incógnita, mas o fim da carreira desportiva, a sua «única razão de viver», será um momento que poderá antecipar a decisão.

 

«O Rio é o meu último desejo», explica a atleta que quer poder terminar a carreira com um pódio – vai competir nos 100 metros (já hoje) e nos 400. Apesar de tudo, Marieke não se queixa. Não sente que deixou tudo para trás nem que teve uma vida afetada pela doença.

 

«Tenho tido a oportunidade de experienciar coisas que outros podem apenas sonhar», refere.

 

«Quando quiser, pego nos documentos e decido morrer. Isso é algo que me deixa tranquila quando sinto dores. Não quero é viver como um vegetal.»

 

Dores insuportáveis

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Há duas faces de Marieke, garante. «As pessoas veem-me sempre a sorrir mas não sabem o que acontece quando estou em casa sozinha. Veem-me com as medalhas não conhecem o lado obscuro.»

 

As crises são sucessivas. Quando sente que vai ter uma crise carrega num botão para pedir a presença de uma enfermeira mas há casos em que desmaia e tem de ser o cão, Zen, a ir procurar ajuda. Além disso, as noites são insuportáveis.

 

«Por vezes não durmo com dores insuportáveis e há outros casos em que não descanso mais do que dez minutos e depois tenho de ir treinar», recorda.

 

O treinador, Rudi Voels, destaca o caráter de enorme sacrifício da belga: «Nunca quer perder um treino. Às vezes chega cheia de dores e obrigo-a a voltar para casa.»

 

O treino e a competição são os maiores refúgios de Marieke: «Quando me sento na cadeira de rodas de competição, tudo desaparece. Expulso todos os pensamentos sombrios, dou um murro no medo, na tristeza, no sofrimento, na frustração. É assim que ganho as medalhas de ouro.»

 

Desejos finais

 

Marieke ainda não sabe quando vai morrer mas já tem tudo pensado.

 

«O meu funeral não vai ser numa igreja. Não vai ter café nem bolo. Quero que toda a gente erga uma flute de champanhe e diga: ‘A ti, Marieke, tudo de melhor. Tiveste uma boa vida e agora estás num sítio melhor’.»

 

A belga garante também que quer ser cremada e até já decidiu onde pretende que as cinzas sejam espalhadas: «Quero que as deixem em Lanzarote, onde a lava se une com o mar. É um lugar que me transmite paz e tranquilidade. Quero terminar ali.»

 

RPS