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É Desporto

Lindsey Jacobellis. Pagar caro o excesso de confiança

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Tinha apenas 20 anos e estava a poucos metros de conquistar uma medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de 2006. Quis adornar o penúltimo salto na prova de snowboard e caiu. O título transformou-se em prata e o futuro foi pouco amigável: voltou a desapontar em 2010 e em 2014. Como será em 2018? 

 

Erro de principiante?

 

Snowboard cross era uma especialidade em que Lindsey Jacobellis era rainha e senhora. Apesar de ter entrado nos Jogos Olímpicos de Turim com apenas vinte anos, o currículo impunha respeito e não deixava dúvidas: campeã do mundo em 2005 e vencedora dos Winter X Games em 2003, 2004 e 2005.

 

O caminho até à final em Itália foi simples. Demasiado simples. Foi a terceira mais rápida na ronda de qualificação, que apurava 16 atletas, e depois passou sem dificuldades nos quartos de final e nas meias-finais. Faltava uma última corrida para alcançar a derradeira distinção: o título olímpico.

 

A prova começou da melhor maneira. A norte-americana do Vermont aproveitou o bom impulso da largada para assumir uma trajetória interior na primeira curva da descida. A partir daí, tudo parecia encaminhar-se para o mais esperado.

 

Até as adversárias ajudavam. A canadiana Maelle Ricker foi a primeira a cair, garantindo quase desde logo uma medalha às três rivais que continuavam em prova. Momentos depois, outra canadiana, Dominique Maltais, também caiu.

 

Podia pensar-se que era uma corrida a dois mas por esta altura já Jacobellis tinha uma vantagem muito confortável sobre a suíça Tanja Frieden. E a americana sabia-o, pois não parava de olhar por cima do ombro direito sempre que tinha essa oportunidade.

 

Faltavam apenas dois saltos e só uma catástrofe poderia roubar o ouro a Jacobellis. Uma catástrofe ou… a arrogância de uma jovem de vinte anos que quis adornar o penúltimo salto e dar espetáculo extra.

 

Depois de segurar a prancha durante demasiado tempo, perdeu o equilíbrio e falhou a aterragem. Foi parar ao chão e não voltou à pista a tempo de impedir a ultrapassagem de Frieden.

 

«Jacobellis está no chão, caiu. Pareceu um momento de indecisão e foi ultrapassada por Frieden, que conquista a medalha de ouro. Que desilusão para Jacobellis. O que será que lhe terá passado pela cabeça com apenas dois saltos para fazer?», disse na altura o comentador da prova em direto.

 

O que lhe passou pela cabeça?

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A primeira reação de Jacobellis foi justificar a decisão com uma manobra necessária para recuperar o equilíbrio: «Tinha tido problemas com aquele salto o dia inteiro. O vento soprava de uma forma esquisita e tentei o que podia para fazer uma manobra que me permitisse recuperar a posição, mas não resultou».

 

Por outro lado, Tanja Frieden nem teve dúvidas: «Não tive qualquer problema com aquele salto. Não era assim tão grande, há uns maiores».

 

Mais tarde, mais a frio, Jacobellis mudou a versão. «Deixei-me levar pelo momento. Acho que de vez em quando se deve ver coisas destas. Nem sequer pensei duas vezes: estava a divertir-me e é isso que o snowboard deve ser. Estava na frente. Quis partilhar o meu entusiasmo com o público. Fiz asneira, acontece!»

 

O treinador Peter Foley teve um pressentimento que algo de errado poderia acontecer. E teve razão. «À terceira curva, já tinha uma vantagem enorme. Só pensava para mim: “Continua a correr! Continua a correr!”. Quando as vantagens são muito grandes, há uma tendência para algo correr mal. Não se pode dizer que azar, mas ela tinha tudo controlado. Se calhar, com uma atleta mais velha, nada disto teria acontecido», comentou.

 

Novas oportunidades no horizonte?

 

A carreira de Jacobellis continuou a ser brilhante, mesmo manchada por Turim-2006. Voltou a ser campeã do mundo em 2007, 2011, 2015 e 2017 e dos Winter X Games em 2008, 2009, 2010, 2011, 2014, 2015 e 2016.

 

Os Jogos Olímpicos de Inverno, no entanto, continuam a ser afetados pela maldição de Turim. Em 2010, em Vancouver, foi desqualificada na meia-final, e em 2014, em Sochi, voltou a cair numa altura em que lutava por uma medalha.

 

Agora, com 32 anos, terá uma quarta e muito possivelmente última oportunidade de ganhar uma medalha.

RPS