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É Desporto

Lee Pearson. O rapaz que Margaret Thatcher carregou ao colo

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Passou três dias dentro de um armário até a mãe o ver pela primeira vez. A artogripose múltipla congénita mudou-lhe a vida mas o britânico, que tem 12 medalhas paralímpicas em dressage, não se queixa e vive como quer. Uma das coisas que lhe dá mais gosto é estacionar o Range Rover num lugar para deficientes e perceber como os olhares das pessoas passam de fúria para arrependimento. 

 

Do armário a Downing Street em seis anos

 

Lee Pearson nasceu a 4 de fevereiro de 1974, filho de uma enfermeira de psiquiatria e de um condutor de pesados. O parto foi difícil, a mãe tinha sido fortemente sedada e o nascimento confirmou que tinha graves problemas físicos.

 

A solução das enfermeiras foi escondê-lo num armário, dentro de um berço, juntamente com esfregonas, baldes e colchões. «Devem ter achado que eu não ia sobreviver», comenta.

 

Ao terceiro dia, a mãe, já acordada, decidiu que queria saber o que se passava com o bebé. As enfermeiras levaram-na numa cadeira de rodas ao armário e, antes de a porta ser aberta, Lydia respirou fundo. «Pensava que me afastavam dela se tivesse uma má reação», acrescenta Lee Pearson.

 

A artogripose múltipla congénita afeta o tecido muscular e as articulações. Durante os primeiros anos de vida, Pearson foi submetido a 14 operações: tem tecido fibroso em vez de músculo nos membros e talas de plástico espalhadas entre a cintura e os calcanhares para promover o equilíbrio das pernas.

 

Com seis anos, idade em que se pôs de pé pela primeira vez, foi distinguido com a medalha «Children of Courage» na residência oficial da primeira-ministra, Margaret Thatcher, no número 10 da Downing Street em Londres. Com um espírito extrovertido, chamou a atenção e terminou a ser levado ao colo pela líder do governo britânico.

 

Tudo começou com um burro

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O britânico montou pela primeira vez quando tinha nove anos. Os pais levaram um burro para casa e Lee fez o melhor que pôde. «Não foi fácil, não tinha quase equilíbrio nenhum e parecia que ele fazia de propósito para baixar a cabeça e fazer com que caísse», afirma.

 

É por isso que considera que o maior sucesso que teve na vida foi montar pela primeira vez. Os sustos, ainda assim, fizeram com que abrandasse o interesse pelo desporto.

 

A década de 90 marcou a viragem na sua vida. Em 1994, contou aos pais que era homossexual e dois anos depois, ao ver os Jogos de Atlanta, sentiu que tinha de voltar. O processo foi difícil: descobriu que era alérgico a cavalos e ainda hoje tem de tomar anti-histamínicos diariamente.

 

O contacto com outros atletas com deficiências foi a maior dificuldade que enfrentou. «Tinha muito medo. Tinha pânico sempre que alguém de cadeira de rodas vinha na minha direção. Era como um heterossexual num bar de gays. Estava encostado a uma parede a dizer: ‘Ó meu Deus, há deficientes em todo o lado!’»

 

A sensibilidade mudou e começou a perceber o que é olhar para alguém ligeiramente diferente. A estreia em Paralímpicos, em 2000, deu o toque definitivo: «Mudaram a minha mentalidade sobre deficiências. Quando estás numa aldeia paralímpica, deixas de ver as deficiências.»

 

Sucesso estrondoso

 

Lee Pearson é um dos atletas paralímpicos mais medalhados da história: tem dez títulos em provas de dressage. Até Pequim, conquistou sempre três medalhas de ouro mas em Londres não foi além de um título numa prova coletiva, ao qual juntou uma medalha de prata e uma de bronze. A justificação? Tinha partido as costas uns meses antes e não competiu em perfeitas condições.

 

A lesão foi má para ele mas o pai divertiu-se, ao vê-lo sair da sua propriedade de helicóptero: «Foi buscar uma câmara de filmar, não podia acreditar que estava um helicóptero no campo dele. Nem sequer estava preocupado comigo.»

 

A recuperação não permitiu que se apresentasse na máxima força mas ainda assim aumentou um palmarés que conta ainda com seis títulos mundiais, três europeus e um pedaço de história que concretizou em 2003, quando se tornou o primeiro atleta com deficiência a sagrar-se campeão nacional de dressage.

 

Vida com exageros

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O britânico vive como quer. Antes de casar em 2010 com um bombeiro, era conhecido por ter uma vida de excessos.

 

«Digo sempre que sou a pessoa anormal mais normal que alguma vez vão conhecer. Sinto-me embaraçado com as medalhas que já ganhei e furioso quando as pessoas assumem que só por ser gay, tenho de me vestir de cor-de-rosa e que por ser deficiente tenho de agir como uma vítima e abdicar da minha vida», protesta.

 

É precisamente por estas reações das pessoas que uma das coisas que lhe dá mais prazer é quando estaciona o seu Range Rover num lugar para deficientes. «As pessoas assumem sempre que não posso ser deficiente. Devem querer que tenha um daqueles carros azul-turquesa com três rodas com espaço para uma cadeira de rodas. O nível de impropérios que ouço até sair do carro com as minhas muletas é fenomenal. O melhor disto é que ando a mudar a forma de pensar das pessoas ao viver a minha vida e não a fazer campanha», diz.

 

Separado desde 2012, Pearson garante que a motivação que tem para os Paralímpicos é a de pagar a hipoteca. «Acreditem, estou a ser honesto. É isso que me faz continuar, isso e o prazer de construir uma ligação especial com um cavalo.»

 

RPS