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É Desporto

Kim Rhode. A campeã que recebe ameaças de morte nos Estados Unidos

Kim Rhode

Ganhou medalhas no tiro nos últimos cinco Jogos Olímpicos mas é um alvo a atacar de cada vez que há um tiroteio em massa nos EUA. «As pessoas querem que nos tirem as medalhas mas o que faço é um desporto.»

 

O reverso da medalha

 

Kim Rhode não tem o mediatismo de Michael Phelps mas é uma das atletas norte-americanas que mais história já fez em Jogos Olímpicos. A começar pela longevidade: hoje, no Rio de Janeiro, parte para a sua sexta presença consecutiva.

 

Estar lá sempre, dependendo das modalidades, é fácil. Ganhar sempre é que é mais difícil. Mas Kim Rhode, uma californiana de 37 anos, sabe perfeitamente o que é isso. Em Atlanta, com apenas 17 anos, tornou-se a mais jovem campeã olímpica da história no tiro (fossa dupla). Depois, foi bronze em Sydney, ouro em Atenas, prata em Pequim e ouro em Londres.

 

Os recordes surgem uns atrás dos outros. Vencer uma medalha em cinco edições de Jogos é um recorde nos Estados Unidos. Ter três títulos olímpicos no tiro é outro, mundial, partilhado com Ralf Schumann (Alemanha) e Jong-oh Jin (Coreia do Sul).

 

O problema é o reverso da medalha. Kim Rhode não é famosa o suficiente para ser reconhecida num centro comercial nos EUA mas há muitos que não se esquecem dela de cada vez que há um tiroteio com múltiplas vítimas no país.

 

«Os atletas do tiro recebem várias ameaças de morte. Exigem que as nossas medalhas sejam retiradas. Há muita emoção nestas alturas, mas o que eu faço é um desporto», garante.

 

Em defesa das armas

Rhode em Londres/AP

Kim Rhode não sabe o que é uma vida sem armas. Começou a caçar quando era nova e fez pela primeira vez um safari em África com 12 anos. Um ano depois, venceu o primeiro título mundial na variante de fossa dupla.

 

Membro da National Rifle Association, nunca se escondeu na defesa pelo direito ao porte de arma e, em 2012, no Congresso Nacional do Partido Republicano, discursou a favor da Segunda Emenda e da candidatura presidencial de Mitt Romney.

 

«Fiz a minha parte de espalhar a palavra. Quero continuar a mostrar que a comunidade do tiro é muito ativa na promoção da responsabilidade em relação às armas. Apesar das críticas, quero mostrar às pessoas o que realmente somos», comentou.

 

Nos últimos anos, a defesa tem vindo a ser mais ativa, especialmente depois de um conjunto de leis aprovadas na Califórnia. «Há seis que me vão afetar, por exemplo a lei sobre munições. Eu disparo 500 a 1000 rondas por dia. Ter de ser sujeita a uma pesquisa de antepassados de cada vez que compro munições ou que as levo para uma competição… é muito complicado.»

 

Para Kim Rhode, o direito ao porte de arma é uma vantagem em caso de tiroteios, garante Kim Rhode: «Como querem que as pessoas estejam nos 10 a 20 minutos que os polícias demoram a chegar? Querem que me limite a esperar e ficar ali? Prefiro conservar os meus direitos.»

 

Dissabor com espingarda

 

Viver uma vida ao lado da mesma espingarda provocou uma das maiores tristezas de Kim Rhode em setembro de 2008. A atiradora olímpica foi a um centro comercial para fazer compras para o seu casamento e quando regressou percebeu que a sua carrinha tinha sido assaltada.

 

«Foram direitos à espingarda. Não há palavras para descrever o que aquela arma significa para mim», lamentou. Avaliada em 30 mil dólares, a Old Faithful foi substituída graças aos donativos dos fãs de Kim Rhode.

 

Quatro meses depois, recebeu um telefonema: era a polícia. A espingarda tinha sido encontrada em casa de um homem de 22 anos que estava em liberdade condicional. «Estou tão feliz. Ainda por cima está em perfeito estado e na caixa original», disse.

 

Mas, por essa altura, já tinha começado a treinar com a nova e decidiu terminar a carreira da Old Faithful. Nos Jogos seguintes, em Londres, a sucessora saiu-se muito bem.

 

Com 99 pontos, a apenas um da perfeição, Kim Rhode bateu o recorde mundial na variante de skeet. «É uma chatice falhar um tiro mas às vezes acontece. As condições estavam muito difíceis, com muito vento e variações de iluminação. E ainda houve chuva no final. Mas foi graças a isso que estive mais concentrada a todos os alvos e detalhes.»

 

Recordes para continuar

Kim Rhode a dar os primeiros passos

O título olímpico em Londres ajudou Kim Rhode a entrar na história do desporto nos Estados Unidos e dos Jogos Olímpicos.

 

«Acho que ainda não assimilei o que aconteceu. Tem sido um carrossel de emoções. Quero correr, gritar, chorar e saltar para um lado e para o outro. Só não sei o que fazer primeiro», admitiu a atleta que, além do roubo da espingarda, também passou por um susto de saúde quando lhe foi detetado um tumor benigno na mama.

 

«Cada jornada até aos Jogos Olímpicos é única. Esta foi, provavelmente, a mais desafiante. É isso que faz com que tudo se torne melhor quando se está no topo do pódio, a ouvir o hino e com a medalha à volta do pescoço», afirmou.

 

No Rio de Janeiro, com 37 anos, o objetivo é manter a série impressionante. E depois, Tóquio. Rhode é a primeira a lembrar que o tiro é uma modalidade em que se consegue ter uma carreira longa, referindo o nome de Oscar Swan. «É o medalhado mais velho. Tinha 72 anos quando competiu pela última vez. Por isso acho que ainda tenho mais uns Jogos Olímpicos», brincou.

 

O sueco foi campeão olímpico em Estocolmo, em 1912, com 64 anos. Oito anos depois, teve a última participação olímpica.

 

O tiro é a grande paixão de Kim Rhode, que defende a modalidade como pode: «É um desporto com igualdade, onde muitas vezes os homens e as mulheres competem. Não tem a ver com violência, mas sim com determinação e concentração, precisão e prática. Acredito que dá grandes lições de vida a quem esteja disposto a aprender.»

 

RPS