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É Desporto

Kayla Harrison. Vencer o abuso sexual por ippon

Kayla Harrison/NBC

Judoca foi bicampeã nacional nos escalões jovens na mesma altura em que era abusada sexualmente pelo treinador. Chegou a pensar em suicidar-se mas disse basta, testemunhou em tribunal e deu a volta por cima: no Rio de Janeiro vai tentar revalidar o título olímpico.

 

O dia em que não aguentou mais

 

A mãe era cinturão negro e transmitiu-lhe a paixão. Com seis anos, Kayla começou a praticar e aos oito passou a ser treinada por Daniel Doyle.

 

Os resultados desportivos foram brilhantes. Até aos 16 anos já tinha sido duas vezes campeã nacional e a evolução fazia antever uma carreira promissora. Mas nem tudo estava bem: um dia, no ginásio, sentiu que não conseguia aguentar mais e contou ao amigo Aaron Handy que estava a ser abusada sexualmente pelo treinador.

 

«O Daniel era um dos amigos da minha mãe. Servia de babysitter para mim e para os meus irmãos e vinha aos churrascos da família. Quando eu era nova, dizia-me que tínhamos de manter aquilo entre nós ou poderia haver problemas», começa por recordar Kayla Harrison.

 

A judoca reconhece que foi submetida a uma lavagem cerebral: «Sabia que era errado, mas achava que o amava. E achava que ele sentia o mesmo. Era jovem, estava assustada e não entendia. Sentia uma pressão muito grande para agradar aos outros e o meu mundo andava à volta do Daniel. Era o meu sol. Tudo o que queria fazer era agradar-lhe… e ele tirou vantagem disso.»

 

O princípio da mudança

 

Aaron Handy não se limitou a ouvir o desabafo. A primeira coisa que fez foi ir falar com a mãe de Kayla que, por sua vez, fez queixa na polícia.

 

O caso tornou-se mediático e Daniel Doyle confessou os abusos. O dia em que Kayla testemunhou em tribunal foi um dos pontos de viragem: «Foi crucial. Disse o que tinha a dizer, disse a verdade ao juiz e encerrei o assunto.» O treinador foi condenado a dez anos de prisão.

 

Kayla continuava deprimida. Durante aqueles anos esteve sempre no meio de um caos emocional. Odiava a vida e sentia que tinha de dizer basta. Viver numa sociedade fechada e pequena não ajudou. A solução foi abandonar o Ohio em direção a Massachusetts, onde iria ser treinada por Jimmy Pedro.

 

A cabeça de Kayla Harrison continuava num turbilhão. Pensou em suicidar-se. Queria fugir. Queria deixar o judo para trás. Mas as palavras do novo treinador foram decisivas. «Um dia, sentou-me numa cadeira e disse-me: ‘Sabes, isso aconteceu-te mas não te define como pessoa. Um dia destes vais ter que o ultrapassar.’ Assim que percebi isso, foi muito mais fácil.»

 

Títulos mundiais

Kayla Harrison/JUDO JOURNAL

O talento sempre teve, faltava voltar a conseguir desfrutar do judo. O trabalho do antigo medalhado olímpico (bronze em Atlanta-1996 e Atenas-2004) fez a diferença e em 2008 sagrou-se campeã mundial júnior. Dois anos depois, fez o mesmo mas a nível sénior, na categoria de -78 quilos.

 

Faltava o título nos Jogos Olímpicos. A ambição não era simples: em 48 anos de história, nunca os Estados Unidos tinham conquistado uma medalha de ouro na modalidade. Mas Kayla Harrison nunca tinha participado.

 

Com a vitória sobre a britânica Gemma Gibbons na final de Londres em 2012, por dois yukos, a norte-americana matou de vez quaisquer fantasmas que pudessem resistir na sua mente. Por esta altura, o abuso sexual de que fora vítima já não era um tabu.

 

«Sinto-me muito triste por aquela jovem rapariga. Ainda a consigo ver, a chorar compulsivamente por não saber como escapar. Mas estou contente por ela porque sei que teve a coragem de dizer que não queria continuar a ser vítima. Agora está noiva [precisamente do amigo a quem contou tudo], vive numa praia linda e está a caminho da glória nos Jogos Olímpicos», comentou, em declarações ao Guardian antes da prova em 2012.

 

A luta continua

 

As dificuldades na vida tornaram-na uma atleta mais forte e determinada: «Se desejo que o que passei acontecesse à minha pior inimiga? Não. Isto tornou-me mais forte, mais confiante e com a certeza que nada na vida poderá ser mais difícil do que aquilo.»

 

A glória olímpica, o grande propósito da sua vida, tinha sido alcançada mas Kayla não se ficou por aí. Numa primeira fase, o projeto era abandonar o judo e seguir o caminho da antiga companheira de treino, Ronda Rousey, em direção às artes marciais mistas. Tudo mudou um dia ao acordar.

 

Não tinha decidido nada, ainda, mas ao pôr um pé no chão ao sair da cama sofreu uma lesão no joelho que a deixou parada durante seis meses. Foi o período que aproveitou para repensar a decisão e perceber que queria estar no Rio de Janeiro.

 

Arranque da fundação

 

O tempo de recuperação não foi inútil. Kayla Harrison aproveitou a oportunidade para criar a Fearless Fundation, uma organização com o objetivo de ajudar as vítimas de abusos sexuais em criança.

 

«É maior do que eu. É maior do que uma medalha de ouro. O judo é algo muito egoísta. Não estou a resolver a fome mundial, não estou a tornar o mundo um sítio melhor ao tentar projetar alguém de costas», afirma.

 

Kayla Harrison é, por agora, uma pessoa feliz: «Estes são os melhores dias da minha vida. Um dia, vou olhar para trás e pensar: ‘Uau! Estava na melhor forma de sempre. Estava a fazer algo que amava. As pessoas queriam ouvir o que tinha para dizer. Era a minha festa e toda a gente estava convidada.’ Um dia deixará de ser assim.»

 

Hoje ainda não é o dia. Hoje, Kayla Harrison entra em competição à procura de fazer história novamente: revalidar o título olímpico na categoria de -78 quilos.

 

RPS