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É Desporto

Karsten Warholm. O último grito do atletismo norueguês

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A Noruega não vencia uma medalha em Mundiais desde 2011 e 1987 tinha sido a última edição com um título numa prova de pista. Com apenas 21 anos, Warholm teve de pedir que um fotógrafo o beliscasse para ter a certeza do que tinha acabado de acontecer: «Sim, é real!» 

 

Uma loucura nos 400 metros barreiras

 

A chuva era intensa e não se previam tempos muito bons. Karsten Warholm tem-se notabilizado por conseguir arranques muito fortes, mas os últimos 50 metros tendem a ser pouco meigos para quem decide dar tudo no início. Além do mais, havia rivais como Kerron Clement e Yasmani Capello.

 

Warholm foi fiel a si mesmo. Arrancou forte, determinado, como um viking em direção a um novo porto com a sede de conquista. A qualquer momento, esperava-se que pudesse quebrar, abrindo caminho para os principais candidatos. Esperou-se isso a 100 metros, a 80, a 50, a 30… e nunca aconteceu.

 

O norueguês de 21 anos, a nova coqueluche do atletismo do país, não tremeu e cruzou a meta no primeiro lugar, com um tempo de 48,35 segundos e a incerteza sobre o que tinha acabado de acontecer. Praticamente no segundo seguinte, proporcionou um festejo que ameaça tornar-se icónico desta edição, levando os dedos à boca, potenciando as comparações com a obra do seu compatriota, Edvard Munch, e as dezenas de versões que fez do quadro «O Grito».

 

«O que é que se está a passar, será que isto é real?», perguntou a um conceituado fotógrafo da Reuters, Phil Noble, durante os festejos. O britânico respondeu-lhe que sim, Warholm hesitou. «Belisca-me!», exigiu. Ao sentir os dedos do fotógrafo, finalmente acedeu: «Sim, é real!»

 

Mais tarde, o atleta que foi campeão europeu sub-23 em julho estava mais racional mas, ao mesmo tempo, não tinha perdido ainda o tremer do corpo por estar a viver um momento tão inesperado: «Não consigo mesmo acreditar. Trabalhei arduamente para isto mas o que acabei de fazer é uma loucura. É uma sensação incrível. Sou campeão do mundo, é uma loucura».

 

Hábito de vencer

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A reação ao triunfo é estranha para alguém que está habituado a ganhar praticamente desde que começou a competir. Em 2013, com 17 anos, entrou nos campeonatos juniores de pista coberta da Noruega e saiu com oito medalhas de ouro.

 

«O meu objetivo era vencer o maior número de medalhas. É uma loucura, não podia ter sido melhor do que isto», explicou na altura o jovem. O treinador Arve Hatloy perspetivava um futuro risonho e apontava a razão para tanto sucesso: «É provavelmente uma combinação de um talento único com um treino focado e sério».

 

Num país com tradição recente escassa no atletismo, sobretudo nas provas de pista, Warholm transformou-se num novo símbolo do país. Ameaçando a especialização no decatlo, no qual foi medalha de prata nos Europeus juniores de 2015, sempre sentiu que um dia talvez tivesse de se concentrar numa única prova.

 

«Saberei quando chegar a altura. Vou aconselhar-me com quem está mais perto de mim. Mas agora só quero aproveitar o momento», disse na altura.

 

Transição sempre a evoluir

 

A entrada nas competições seniores e a especialização nos 400 metros barreiras, desde o ano passado, correu de forma tranquila. No verão de 2016, nos Europeus de Amesterdão, atingiu a final da competição mas sempre fez questão de sublinhar que o caminho seria longo.

 

«Há muito a fazer antes de ganhar uma medalha. Não quero cometer esse erro. Vocês podem querer falar sobre isso. Tenho tudo no lugar e não quero ter de falar em desculpas caso as coisas não corram bem», previu antes da última corrida. E fez bem – terminou em sexto.

 

Poucas semanas depois, chegaram os Jogos Olímpicos. Se na Holanda tinha batido o recorde nacional com uma marca de 48,84 segundos, no Brasil voltou a mostrar capacidade para melhorar. Logo na terceira série das eliminatórias venceu com um tempo de 48,49. Esse registo teria sido suficiente para atingir a final, mas não foi além dos 48,81 na terceira e derradeira corrida dessa fase. A curva de aprendizagem continuava a ser acentuada e Warholm estava cada vez mais entre a elite da disciplina.

 

Favorito de segunda linha

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Quando entrou nos Mundiais de Londres, Karsten Warholm apareceu ainda melhor, mais experiente. Em junho, nos Nacionais, havia batido novamente o recorde da Noruega, fixando a marca em 48,25 segundos.

 

Em Inglaterra, mesmo com o recorde nacional, seria mais difícil. Havia três adversários com melhores tempos, mas Warholm alimentou a loucura, o sonho de poder dar uma alegria que escapava há muito à Noruega.

 

Sem medalhas em 2015 e em 2013, o país europeu tem resumido o sucesso no atletismo dos últimos anos a um nome: Andreas Thorkildsen. No lançamento do dardo, o atleta de agora 35 anos conquistou dois títulos olímpicos (2004 e 2008) e quatro medalhas em Mundiais (ouro em 2009, prata em 2005, 2007 e 2011).

 

Em pista, o deserto era ainda mais acentuado, sendo preciso recuar até 1987, em Roma, para encontrar o último título. Nos 10 mil metros, Ingrid Kristiansen subiu ao lugar mais alto do pódio de uma prova em que Albertina Machado foi sétima e Aurora Cunha 17.ª e na qual competiu apenas uma africana – queniana Leah Malot foi eliminada na primeira série.

 

Agora, o tempo é de Karsten Warholm. Tem apenas 21 anos mas já faz parte de uma elite de campeões que junta nomes como Nicholas Bett, Kerron Clement, Félix Sánchez e Edwin Moses.

RPS