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É Desporto

Kaillie Humphries. E a história ali tão perto

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Podia fazer história ao vencer o bobsleigh pela terceira edição consecutiva mas não foi além da medalha de bronze. A fase em que era ignorada pelos colegas já lá vai e a carreira olímpica é uma das mais impressionantes no Canadá. E tudo começou quando, aos 12 anos, apostou com os pais que estes teriam de tatuar a folha de ácer canadiana se ela alguma vez chegasse à seleção. Ganhou… mas não da forma que pensava. 

 

Sair de onde não se é desejado

 

Kaillie tinha o grande sonho de poder representar o Canadá e estava tão convicta que ia concretizar essa ambição que um dia, com 12 anos, decidiu fazer uma aposta com os pais. Se algum dia conseguisse chegar a uma seleção, eles teriam de tatuar uma folha de ácer (a da bandeira do Canadá).

 

O desafio estava feito e a adolescente começou por apostar no esqui alpino. Lá, somou desilusões e angústias. «Não era boa o suficiente, sempre fui maior do que as outras todas. Tinha as pernas muito compridas e o meu rabo também era muito grande», explicou.

 

Este não era o único problema. As colegas de modalidade não lhe ligavam nenhuma, era como se ela não existisse. Ou, quando admitiam a sua existência, era apenas para fazer dela o alvo de brincadeiras, como quando lhe enchiam a mala de gelatina.

 

«A pior parte era que não podias fazer nada. Tens de te sentar a um canto e ser um zé-ninguém ou um fantasma. Quando és nova, estás a crescer e não sabes por que é que não gostam de ti, ou por que é que os teus melhores amigos são treinadores com 40 anos ou os pais dos teus colegas, não é fácil», recordou.

 

Se a este ambiente nefasto se juntar as lesões – Kaillie partiu as duas pernas em quedas diferentes -, está encontrada a receita para uma mudança de ares. «Pensei nas alternativas que teria. Como cresci a ver o Cool Runnings [filme que retreta a aventura da equipa da Jamaica nos Jogos Olímpicos de 1988], como toda a gente, e havia uma pista de bobsleigh em Calgary, decidi experimentar.»

 

Evolução progressiva

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Os primeiros passos na modalidade foram dados com 17 anos. Numa fase inicial tentou ser piloto mas rapidamente foi empurrada para a posição de travão. Ano após ano, ia melhorando e esteve muito perto de chegar aos Jogos Olímpicos de Turim, em 2006.

 

Foi também por essa altura que voltou a experimentar a posição de piloto. «Acharam que o meu passado no esqui alpino podia dar alguma vantagem», contou, antes de revelar o desastre. «Tentei durante duas semanas e até foi bom… até ter um despiste e partir a clavícula. Claramente que precisava de ser mais experiência.»

 

A solução encontrada foi inscrever-se numa escola de condução… de bobsleigh. Sessão após sessão foi melhorando e mostrando que poderia ter uma palavra a dizer ao mais alto nível. As dúvidas que pudesse haver desapareceram quando conquistou a medalha de ouro em Vancouver-2010, fazendo equipa com a experiente Heather Moyse. Ali, a correr em casa, a dupla venceu o primeiro título olímpico para o Canadá.

 

Humphries – apelido do ex-marido que mantém – tornou-se imparável e continuou a bater recorde atrás de recorde. Em Sochi, há quatro anos, novamente com Moyse, pilotou para a primeira revalidação de título no bobsleigh feminino. Depois, em provas da Taça do Mundo, fez parte da primeira geração de mulheres a competir, primeiro em equipas mistas e depois em trenós exclusivamente femininos, no meio de homens.

 

«Foi muito divertido e é preciso começar por algum lado», afirmou depois de, juntamente com Cynthia Appiah, Genevieve Thibault e Melissa Lotholz, ter terminado no 17.º lugar em janeiro de 2016.

 

Agora, na Coreia do Sul, falhou uma nova revalidação. A canadiana surgiu com novo par (Phylicia George) e não foi além do terceiro lugar. Mau, tendo em conta a perspetiva de fazer história e lembrando o passado, mas muito bom para quem aos 12 anos sonhava apenas com fazer parte da seleção.

 

Para os pais, que cumpriram há muito a promessa da tatuagem, continua a ser um grande motivo de orgulho.