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É Desporto

Julius Yego. O queniano que não foi em corridas

Julius Yego tem a oitava melhor marca da história

Tinha 13 anos quando participou numa prova de 10 mil metros na escola. Depois de ser dobrado, decidiu que a corrida não era para ele e foi para o lançamento do dardo. Como não tinha treinador, aprendeu tudo o que podia no YouTube. É o campeão mundial e disputa hoje a final olímpica.

 

Ser diferente de todos os outros

 

Como tantas crianças quenianas, Julius Yego começou por tentar o atletismo. Uma vez, com 13 anos, correu os 10 mil metros numa prova da escola e foi dobrado pelos colegas. Aí, nesse momento, percebeu que tinha de procurar uma alternativa.

 

«Costumava ver os outros a atirar dardos de madeira na escola e tinha a sensação que conseguia fazer melhor se tentasse. O meu irmão [Henry Kiprono] estava a dar-se bem no dardo por isso tentei a minha sorte também», explica.

 

Os dardos eram feitos manualmente com a madeira que encontravam e não havia nenhum tipo de treinador que ajudasse a assimilar as noções técnicas básicas. Isso não incomodou Julius. Depois de bater o irmão quatro anos mais velho percebeu que poderia evoluir ainda mais e começou a procurar todos os vídeos disponíveis no YouTube.

 

Jan Zelezny, recordista mundial, e Andreas Thorkildsen tornaram-se rapidamente os seus modelos a seguir. Com 19 anos, sagrou-se campeão nacional pela primeira vez, apesar de continuar a ser esquecido no Quénia.

 

Quando as equipas iam para provas, Yego era ignorado porque o «Quénia não tinha hipóteses no dardo». O lançador, polícia de profissão, dedicou-se a provar que estavam errados.

 

Choque de técnicas

 

Julius Yego

A participação nos Jogos da Commonwealth serviu como um banho de realidade para Yego. Em Nova Deli, na Índia, não foi além dos 69,60 metros e ficou incrédulo ao ver a concorrência: «Percebi que a minha técnica era patética».

 

Mas a motivação não era. «Sempre quis ser como o Kip Keino, o Paul Tergat e os outros heróis da corrida, mas a fazer a diferença no dardo. Queria abrir o caminho para uma área marginalizada no Quénia porque também temos grandes talentos aqui.»

 

A evolução compensou. Depois de bater o recorde nacional com 78,34 metros, a IAAF (Federação Internacional de Atletismo) ofereceu-lhe uma bolsa de seis meses para estagiar com treinadores na Europa, já com os Jogos Olímpicos de Londres em vista.

 

No inverno de 2011, cruzou-se com Petteri Piironen em Kuortane, na Finlândia. O técnico recorda a primeira imagem: «Ele andava a lançar 78 metros sem treinador por isso só podia ser talentoso. Era muito explosivo, muito forte no tronco e membros superiores mas fraco com as pernas. Tive de mudar algumas técnicas.»

 

O frio como obstáculo

 

Julius Yego reconhece a importância de Piironen na sua evolução: «É um treinador brilhante. Ainda uso o programa de treino que ele me deu quando nos conhecemos. Criámos uma boa relação e está sempre disponível para mim quando preciso.»

 

A relação com os dois não se cingiu à rotina de treino. «Lembro-me que tive de lhe dar todas as minhas roupas de Inverno para ele vestir. Foi um grande choque para o corpo dele», diz Piironen.

 

Os conselhos tiveram resultados práticos. Nos Jogos Olímpicos de Londres bateu o recorde nacional por 69 centímetros (81,81 metros) e tornou-se o primeiro queniano a conseguir um lugar na final (foi 12.º).

 

«Quando vi o lema destes Jogos, o de inspirar uma geração, disse que era isto que teria sempre em mente, para de facto inspirar uma nova geração de lançadores no Quénia. Tenho a certeza que agora está toda a gente inspirada, a ver-me, a sentir que se eu consigo eles também conseguem. Tal como Kip Keino fez quando começou a correr e contagiou toda a gente, eu estou a puxar a atenção para os eventos de campo.»

 

Rumo ao título mundial

Yego foi 12.º em Londres

De ano para ano, Julius Yego assumiu-se como um candidato a ter em conta. Foi quarto no Mundial-2013 com 85,40 metros e em Pequim, no Mundial do ano passado, chocou o mundo da especialidade ao lançar 92,72 metros.

 

Foi a oitava melhor marca de sempre. Só dois lançadores conseguiram fazer melhor: Jan Zelezny (com seis das oito melhores marcas e o recorde mundial em 98,48 metros) e Aki Parviainen (93,09 metros). Yego e o Quénia estavam para ficar no lançamento do dardo.

 

«Temos inúmeros talentos aqui. Espero apenas que consigam ter o apoio necessário no futuro para que, um dia, o país possa ser a casa dos lançadores do dardo», deseja Yego.

 

Para já, este sábado, vai lutar por uma medalha olímpica na final do dardo. Na qualificação, lançou 83,55 metros, atrás de cinco adversários. Mas final é final e Yego não é homem para se deixar ficar.

 

RPS