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É Desporto

Jonathan Guerreiro. O filho de português que dança no gelo

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É filho de uma russa, Svetlana Liapina, e de um português, Francisco Guerreiro. Nasceu na Austrália, onde os pais se conheceram, mas foi viver para Moscovo com 14 anos. Em PyeongChang, fez dupla com Tiffani Zagorski e terminou no 13.º lugar na prova de dança no gelo. 

 

Panela de diversidade cultural

 

A pesquisa pelas origens de um atleta estrangeiro com apelido nacional deve ser uma das atividades que mais interesse de investigação suscita em Portugal. Por isso, de madrugada, quando a final da prova de dança no gelo de patinagem artística já vai longa e a dupla de atletas olímpicos da Rússia se prepara para entrar no rinque, há um pormenor que salta à vista.

 

Ele chama-se Guerreiro, Jonathan Guerreiro. Não faz sentido, sobretudo tendo em conta que na patinagem artística são mais os russos que acabam a competir por outros países do que o oposto. Com dois ou três cliques, descobre-se que Jonathan Guerreiro nasceu em Sydney, na Austrália.

 

É curioso. Afinal, na história do primeiro indígena australiano nos Jogos Olímpicos de Inverno, Harley Windsor (também ele da patinagem artística), ficámos a saber que o seu par, Ekaterina Alexandrovskaya, deixou a Rússia para competir pela Austrália. Aqui será o contrário?

 

Sim. E não. É um misto das duas. Com mais uns cliques de pesquisa, descobre-se que Jonathan pode ter nascido na Austrália mas é filho de Svetlana Liapina, uma russa que representou a União Soviética na dança no gelo durante a década de 80 e chegou mesmo a ser bicampeã mundial júnior.

 

E depois, finalmente, o que se procurava. O pai chama-se Francisco Guerreiro e é português. Conheceu Svetlana quando era agente de uma dupla britânica na modalidade: Jayne Torvill e Christopher Dean. Os dois apaixonaram-se, casaram-se e viviam na Austrália em 1991, quando Jonathan Franciscovich Guerreiro nasceu. Isso mesmo: o filho de Francisco Guerreiro chama-se Franciscovich Guerreiro.

 

Paixão pela dança no gelo

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A mãe foi a maior influência na vida de Jonathan. «Quando era pequeno, adorava ver vídeos de dança no gelo, especialmente aqueles em que a minha mãe aparecia. Por isso, quando cresci, decidi ser eu próprio a tentar», contou.

 

Jonathan até chegou a viajar com os pais quando Francisco representava a dupla britânica mas era demasiado novo para se lembrar. A ausência de memórias, contudo, não o impediu de ficar contagiado pela modalidade mais tarde e assumir-se como um dos melhores a nível mundial. Quando, em 2005, a família se mudou para Moscovo, as condições melhoraram e Jonathan evoluiu cada vez mais, chegando duas vezes ao pódio do Mundial júnior: bronze em 2009 e prata em 2011.

 

Em PyeongChang, Jonathan surgiu a dançar com Tiffani Zagorski. O par juntou-se em 2014 mas durante vários meses não pôde competir oficialmente pela Rússia devido ao passado da patinadora.

 

Sim, a sua história consegue ser uma mistura de nacionalidades ainda maior. Tiffani nasceu em Inglaterra e pediu uma primeira licença para poder competir por França. Depois de conhecer Jonathan, decidiu mudar novamente, mas a federação francesa não achou muita piada e adiou ao máximo o processo.

 

Tiffani tinha um trunfo no bolso para fazer pressão. Também ela tem antepassados russos: o avô paterno nasceu em Moscovo e foi viver para Inglaterra por altura da II Guerra Mundial, chegando mesmo a servir como piloto da Força Aérea Britânica. Este pormenor dava-lhe a liberdade para solicitar a nacionalidade russa, que lhe foi atribuída em abril de 2016. No entanto, por essa altura, já os franceses tinham abdicado do braço-de-ferro.

 

Jonathan e Tiffani começaram a representar a Rússia em outubro de 2015 e estrearam-se ambos em Jogos Olímpicos na Coreia do Sul. Apesar de fazerem parte da equipa de atletas olímpicos da Rússia, que foi medalha de prata na prova coletiva, os dois não chegaram a entrar em ação.

 

Foi preciso esperar pela prova de pares de dança no gelo. Aí, apesar de garantido o lugar na final, não foram além do 13.º posto, com 162,24 pontos. A outra dupla russa, composta por Dmitri Soloviev e Ekaterina Bobrova, terminou no quinto posto com 186,92.

 

O resultado não foi o melhor mas a dupla amealhou experiência e uma oportunidade única na estreia, semanas depois de ter terminado o Europeu na sexta posição.