Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

É Desporto

John Urschel. Trocar a NFL por um doutoramento no MIT

urschel.jpg

John Urschel nunca foi um jogador igual aos outros e agora, com apenas 26 anos, decidiu terminar a carreira na NFL e concentrar-se a tempo inteiro no doutoramento em Matemática no MIT. O timing pode não ter sido inocente... 

 

Um adeus prematuro

 

Estava bem posicionado para iniciar a próxima época como titular na linha ofensiva dos Baltimore Ravens mas anunciou o final na carreira. «Não foi uma decisão fácil mas acredito que foi a correta para mim. Não há nenhuma grande história aqui, por isso agradeço privacidade», escreveu John Urschel nas redes sociais.

 

O jogador tem direito à privacidade mas não está correto quando diz que não há uma grande história, mais não seja por não ser um jogador igual aos outros. Aos 26 anos, o produto de Penn State – onde jogou sob a alçada do mítico e polémico Joe Paterno – é considerado um dos melhores jovens matemáticos do país.

 

Com bacharelato e mestrado em Matemáticas Aplicadas em Penn State, Urschel chegou ao final da primeira época na NFL com o desejo de fazer algo mais.

 

«Pensei que só conseguiria chegar ao MIT depois de terminar a carreira mas a decisão de abandonar os estudos estava a corroer-me. Sempre tinha seguido o princípio de não prejudicar o futebol por causa da matemática nem a matemática por causa do futebol. No primeiro verão, percebi que não estava a fazer tudo o que podia para me tornar o melhor matemático possível. Tinha de aprender, tinha de crescer, por isso candidatei-me», escreveu num ensaio publicado no The Players’ Tribune.

 

Paixão precoce

urschel1.jpg

John Urschel nasceu no Canadá e é filho de um cirurgião e de uma advogada. A paixão pelo futebol sempre existiu mas nunca descurou a formação. «Quando estava no secundário, queria ser como o Jake Long, tackle dos Michigan Wolverines. A minha mãe queria que fosse um engenheiro aeronáutico, um cientista de foguetões. Queria tanto que eu fosse para o MIT que, ao saber que ia continuar a jogar futebol, ligou para o treinador do MIT a perguntar se me podia recrutar».

 

Não podia. Os MIT Engineers não faziam recrutamentos, limitavam-se a treinar com quem decidisse aparecer. De qualquer modo, o futuro de Urschel passou pela Pensilvânia e não pelo Massachusetts.

 

Na Penn State, foi descoberto pelo professor de cálculo, Vadim Kaloshin, durante o segundo ano. O docente apercebeu-se do seu talento e começou a dar-lhe leitura complementar em sistemas dinâmicos para que pudesse levar durante as suas viagens com a equipa.

 

«Gostava de ter mais tempo para ler matemática mas o futebol deixa-me muito ocupado. Gostava de ter um maior conhecimento de matemática pura e um conhecimento mais profundo de várias áreas das matemáticas aplicadas», dizia no início de 2016, já na NFL.

 

A ligação é profunda: «Adoro matemática, adoro a elegância, adoro o desafio. Por isso tudo tem sido natural para mim. O meu stress na matemática é auto imposto e é bom: o desejo de alcançar, o desejo de concretizar. O meu objetivo é tornar-me num matemático que as pessoas olhem para trás e pensem: ‘Sim, ele fez boas contribuições. Ajudou a matemática a evoluir’».

 

A sombra das concussões

urschel2.jpg

O impacto da violência do futebol americano no futuro dos homens que praticam futebol americano tem sido um tema recorrente e ao qual se dá cada vez mais importância. Em 2015, depois de uma concussão, John Urschel sentiu as consequências na pele.

 

«Acho que perturbou o meu raciocínio matemático. Precisei de três semanas para voltar a jogar e de ainda mais tempo para recuperar o mesmo raciocínio de alto nível que tinha», lamentou.

 

Esta semana, um novo estudo foi ainda mais preocupante. Em 110 de 111 cérebros de antigos jogadores futebol americanos foram encontrados traumatismos encefalopáticos crónicos. De acordo com uma fonte da ESPN, o estudo teve um peso importante na decisão de Urschel em deixar a NFL e concentrar-se a tempo inteiro no doutoramento no MIT. Mas não só.

 

«Estou entusiasmado por começar a trabalhar no meu doutoramento em Matemática a tempo inteiro no MIT. Estou ansioso por poder escolher disciplinas que só estão abertas no primeiro semestre, ao mesmo tempo que passo tempo com a minha noiva e me preparo para os desafios da paternidade. O nosso primeiro filho deve nascer em dezembro», escreveu.

 

Uma nova casa no MIT

mit.jpg

John Urschel começou o doutoramento em Matemática no MIT em 2016, com enfoque na teoria espectral de grafos, álgebra linear numérica e aprendizagem computacional.

 

O início não foi fácil – foi preciso encontrar um horário adequado e organizar rotinas – mas o matemático continuou a impressionante série de notas máximas que traz desde o ensino básico. E nunca deixou de treinar, aproveitando para manter a forma nas sessões dos Engineers.

 

«Eu era maior do que toda a linha ofensiva. Devia pesar mais uns 25 quilos do que todos os outros. Mas quando era para correr, humilhavam-me. Eram muito mais rápidos do que eu», afirmou.

 

O futebol americano vai passar a ser passado: «Estou extremamente grato aos Ravens e sinto-me abençoado por ter tido a oportunidade de jogar o jogo que amo ao mais alto nível. É uma grande modalidade e há jogos, como o dos playoffs em Pittsburgh, que nunca esquecerei».

 

O treinador dos Baltimore Ravens, John Harbaugh, aceitou a decisão. «Agradecemos todo o seu esforço nos últimos três anos e desejamos-lhe o melhor para o seu futuro.»

RPS