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É Desporto

John Kundla. Os 101 anos do treinador que pôs os Lakers no mapa

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Conduziu a equipa aos primeiros cinco títulos do seu palmarés. Visto como um dos melhores treinadores da história, nunca perdeu a humildade: «Sempre tive grandes jogadores». Morreu no domingo, com 101 anos.

 

Quando a natureza chama

 

O jogo está empatado e falta cerca de um minuto para o fim. John Kundla, o treinador dos Minneapolis Lakers, está no banco com a equipa e decide fazer uma substituição. O resultado não deixa margem para dúvida: o suplente entra em campo, converte um lançamento e garante a vitória aos Lakers.

 

Os elogios a Kundla são automáticos. «Toda a gente aplaudiu e disse como tinha sido inteligente ao fazer aquela alteração. O que ninguém sabe é que o jogador que substituí tinha vindo falar comigo a pedir para ir à casa de banho».

 

Kundla era assim mesmo. Até nos acasos tinha sucesso. Apesar de tudo, nunca foi ganancioso nem descurou a humildade quando vivia os seus melhores momentos. Recordando o passado, um dos seis filhos dizia-lhe muitas vezes que tinha sido um grande treinador. «Não, eu sempre tive grandes jogadores», reagia.

 

A importância de ter George Mikan

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Além de humilde, Kundla era honesto na forma como recordava o início da carreira com os Lakers. Depois de uma primeira oferta para assumir o comando da equipa em 1947, Kundla recusou. Mas, mais tarde, quando George Mikan (na imagem), um dos melhores jogadores da época, se juntou à equipa, o técnico não teve dúvidas.

 

E fez bem. Os Minneapolis Lakers tornaram-se uma equipa indomável. Com George Mikan e Jim Pollard (e, mais tarde, Vern Mikkelsen), Kundla criou uma fórmula de sucesso capaz de vencer cinco títulos em seis temporadas. Na única vez que falhou o campeonato, Mikan estava de fora por culpa de uma lesão no tornozelo.

 

«O John não gritava e tinha um comportamento muito adequado, mas era capaz de perder a paciência quando merecíamos e eu era sempre a primeira vítima», recordou Mikan há uns anos. Para a estrela, era a forma de Kundla passar a mensagem de que ninguém estava imune à crítica.

 

A igualdade para Kundla era pedra basilar nos seus princípios. Filho de pais europeus, alistou-se na Marinha e serviu os Estados Unidos na II Guerra Mundial, combatendo na Europa e no Pacífico. De regresso a casa, onde viveu desde os cinco anos, fez sempre questão de não traçar diferenças entre pessoas. Durante as viagens, por exemplo, recusava hospedar a equipa em hotéis que impediam a entrada de afro-americanos.

 

A maior dificuldade era, ainda assim, arranjar um espaço que satisfizesse o tamanho de Mikan. «Viajávamos de comboio. Íamos para Chicago e aí tínhamos de mudar de estação para ir para Nova Iorque. Todos no comboio nos conheciam. O Mikan ficava sempre num compartimento só para ele. Era demasiado grande, tinha de tirar o colchão e pô-lo no chão, e ficava com os pés pendurados. Agora há grandes camas mas na altura era horrível para os jogadores mais altos».

 

Los Angeles nunca foi opção

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John Kundla permaneceu ao serviço dos Lakers entre 1947 e 1959, com algumas intermitências. Em 1957, abriu espaço para a entrada de George Mikan mas o ex-jogador não demonstrou a mesma capacidade para fazer a diferença enquanto treinador. Num cargo executivo, Kundla também se conseguiu destacar ao escolher Elgin Baylor, um dos melhores jogadores na história dos Lakers.

 

Para ele, no entanto, a história morreu em 1960 quando os Lakers foram comprados e saiu a notícia de que a equipa iria mudar para Los Angeles. O sucesso era cada vez menor, as bancadas tinham menos gente e o novo proprietário decidiu dar um novo destino aos Lakers.

 

Kundla e Mikan foram convidados a seguir viagem rumo ao pôr-do-sol mas nenhum deles aceitou. «Não quis ir para lá. Recebi uma oferta da Universidade do Minnesota e fiquei por cá. Além disso, tinha ouvido coisas muito más de Los Angeles», recordou.

 

Longe dos holofotes da NBA, Kundla manteve o mesmo espírito. Foi o primero treinador do estado do Minnesota a recrutar jogadores afro-americanos e nunca cedeu, apesar das ameaças que recebia.

 

Domingo, no mês em que festejou os 101 anos, Kundla morreu, deixando para trás um legado que mostrou ser visionário. Ainda assim, na entrevista que fez nos seus 100 anos, não foi capaz de deixar de vincar como o basquetebol tinha mudado. «Agora o estilo é muito mais de lançar ao cesto, e rapidamente».

 

Os tempos mudaram mas a paixão de Kundla pelo basquetebol nunca morreu. O corpo fugiu mas o nome ficará para sempre, desde 1995, no hall of fame da modalidade.

RPS