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É Desporto

Jim Clark. Carrossel de emoções acabou em desgosto

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Britânico conquistou a pole em Monza em 1967 mas um furo fez com que perdesse uma volta para os líderes. Pouco a pouco, recuperou e estava na liderança a uma volta do fim. Já conseguia saborear o triunfo mas um problema mecânico fê-lo ser ultrapassado por John Surtees e Jack Brabham.  

 

A Lei de Murphy falou mais forte

 

Falar de consistência e de fiabilidade na Fórmula 1 durante a década de 60 roça o limite de uma piada seca. Era uma fase em que tudo estava no arranque, em que as inovações surgiam a cada corrida e o que se fazia era muito mais baseado no instinto do que no conhecimento científico.

 

E por isso também era espetacular. A cada corrida, tudo podia acontecer. Não havia limites, não havia argumentos que só pudessem ser escritos em Hollywood ou corridas demasiado boas para ser verdade. Mas mesmo assim, Jim Clark foi um forte candidato a derrubar todas estas ideias, quando disputou o Grande Prémio de Itália, em Monza, a 10 de setembro de 1967.

 

O ano estava a ser de azar. Itália era a nona corrida do calendário e já somava cinco desistências: na África do Sul por causa de uma falha no motor, no Mónaco e na Alemanha pela suspensão, em França pelo diferencial e no Canadá pela ignição. Sempre que pudesse haver algo a acontecer de mau, iria acabar por surgir.

 

O Lotus não lhe dava tréguas mas, nos intervalos, o piloto britânico demonstrava a qualidade que lhe tinha permitido ser campeão mundial em 1963 e em 1965, com vitórias nas corridas da Holanda e Grã-Bretanha.

 

Pole position motivadora

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Monza era a antepenúltima corrida da temporada e o título mundial era uma miragem, com Denny Hulme e Jack Brabham destacados nessa disputa, mas Clark tinha uma reputação a defender e queria demonstrar que merecia mais.

 

O primeiro passo chegou com o tempo mais rápido da qualificação, que lhe deu a pole position numa corrida de 68 voltas ao circuito italiano. A prova começou de forma diabólica, com cinco pilotos a passarem pela frente nas voltas iniciais, mas Clark era líder à volta 12 quando teve um furo.

 

Subitamente, o azar pairava outra vez como uma nuvem em cima de Clark. Foi à boxe, substituiu o pneu e regressou com uma volta de atraso para os pilotos da frente. Entre os 18 pilotos que tinham arrancado, estava em 16.º

 

A partir daí, encetou uma das recuperações mais fantásticas na história da Fórmula 1. Numa primeira fase, Clark até estava entre os favoritos. Tinha uma volta de atraso, mas corria junto de Brabham, Surtees, Rindt e Hill. Cedo se percebeu que o ritmo de Clark estava vários patamares acima.

 

Com voltas em que ganhava no mínimo dois segundos para a dianteira, o britânico desdobrou-se e começou a galgar posições. Volta após volta, o público vibrava e reconhecia que estava a ver uma atuação fantástica. Quarenta e oito voltas depois, com apenas oito para dar, o impensável aconteceu: o Lotus de Jim Clark estava na frente da corrida.

 

Oito voltas eternas

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A corrida estava a ser perfeita. O bicampeão mundial tinha superado o furo no pneu e estava mais rápido do que a concorrência mas, ainda assim, nas boxes a expetativa era grande. A escuderia tinha ido para a prova com três carros e os de Graham Hill e Giancarlo Baghetti já estavam parados, vítimas de problemas no motor.

 

Será que o mesmo iria acontecer a Clark, especialmente depois da recuperação empolgante? Clark foi mantendo a liderança mas conseguia ver John Surtees e Jack Brabham a fazer pressão. Com uma vantagem superior a três segundos, estava bem encaminhado mas, mais uma vez de repente, tudo mudou.

 

Quando cruzou a meta pela penúltima vez, a diferença tinha reduzido para 1,8 segundos e o Lotus estava aos soluços. Ninguém queria acreditar. Jim Clark ia morrer na praia e Surtees e Brabham aproveitaram para disparar na disputa pelo triunfo.

 

O carrossel de emoções ia terminar em baixo. Da euforia ao desgosto, Jim Clark já so tinha o objetivo de conseguir cruzar a meta, desejando que os restos de combustível fossem suficientes para, soluço a soluço, garantir o último lugar do pódio.

 

O problema fora esse mesmo, na alimentação de combustível. Os mecânicos chegaram a pensar que tinham cometido um erro de cálculo mas, horas depois, examinaram o carro e descobriram que havia ainda onze litros que, estranhamente, não tinham sido usados.

 

A desforra antes da última despedida

 

Não havia nada a fazer. O terceiro lugar foi um mal menor e o único caminho era… levantar a cabeça e seguir em frente.

 

Foi o que Jim Clark fez. O britânico terminou a temporada a vencer as duas últimas corridas e arrancou para a época de 1968 com novo triunfo. E foi assim, com três triunfos consecutivos que se despediu da Fórmula 1.

 

A 7 de abril de 1968, semanas antes do Grande Prémio de Espanha, Jim Clark morreu num acidente durante um evento no circuito de Hockenheim. Foi a última despedida de um piloto que oferecera uma das recordações mais inesquecíveis na história da Fórmula 1. Mesmo sem vencer.

RPS/AG