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É Desporto

Jim Abbott. Brilhar na MLB mesmo sem uma mão

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Só teve de nascer para se perceber que seria especial. A falta da mão direita poderia ter sido vista como um obstáculo mas nunca deixou que isso impedisse uma carreira de sucesso no basebol. Em 1993, com os Yankees, fez história ao completar um jogo sem permitir qualquer hit aos Cleveland Indians. 

 

Improbabilidades

 

Imperfeito: Uma Vida Improvável. É o nome da autobiografia de Jim Abbott, publicada em 2012, e encaixa que nem uma luva na história do homem que nasceu sem a mão direita a 19 de setembro de 1967 em Flint, no Michigan.

 

O desporto está repleto de histórias de superação e não ter parte de um membro superior há muito que deixou de ser impedimento para que um atleta consiga singrar a nível profissional. Mas há modalidades em que a ausência de uma mão pode ser vista como um impedimento capital.

 

Se no futebol ou no atletismo até pode ser considerado um adereço, modalidades como basquetebol ou basebol exigem outro tipo de capacidades dos membros superiores e ter dois braços e duas mãos é visto como um bem essencial.

 

Jim Abbott decidiu enviar o conceito de “bem essencial” às urtigas. Apaixonou-se pelo basebol, queria jogar basebol, e não descansou enquanto não teve sucesso em estádios de basebol espalhados pelos Estados Unidos.

 

Particularidades do basebol

 

O basebol não é apenas uma modalidade em que o uso das mãos é preferencial. É quase indispensável. Os jogadores de campo, por exemplo, desde muito cedo que se habituam a utilizar a luva na mão fraca, mantendo a mão forte para os lançamentos que são obrigados a fazer para eliminar adversários.

 

Por muito boa vontade que Jim Abbott tivesse, ser um jogador de campo no basebol estava fora de hipótese. Na verdade, só havia uma posição mais adequada para ele: ser lançador. É claro que a ausência de uma mão continuaria a ser uma agravante quando comparado com outros lançadores, mas Abbott especializou-se em arranjar uma estratégia própria para superar esses obstáculos.

 

Se não tinha a mesma capacidade dos outros, tinha de fazer questão de se superar nas capacidades que tinha. E foi assim, passo após passo, que trilhou o caminho que o levou até à liga norte-americana profissional de basebol (MLB).

 

Aprender a ganhar confiança

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Jim Abbott cresceu nos Estados Unidos numa era em que a integração e a igualdade estavam na ordem do dia. No seu caso, a diferença estava na ausência da mão. Podia usar as casas-de-banho, não precisava de ir lá para trás no autocarro e toda a sua família votava… mas na escola continuava a ser vítima da crueldade dos comentários das outras crianças.

 

Os problemas podiam tê-lo amedrontado mas o pai, um homem muito virado para o desporto na sua juventude, não lhe deu tréguas. Por muito que as outras crianças fossem desagradáveis, só interessava que Jim continuasse a fazer tudo aquilo que lhe apetecesse, sem se preocupar com o que os outros pudessem estar a pensar e, muitas vezes, dizer.

 

O basebol surgiu com naturalidade. Sim, agarrar uma bola que vem no ar e atirá-la rapidamente exige duas mãos mas um lançador só precisa de uma para eliminar adversários. E foi assim que Jim progrediu, desenvolvendo lançamentos que fariam vítimas por todo o país.

 

«Encontra algo que ames e vai atrás dela, com todo o teu coração», é o lema de vida que repete frequentemente, agora que é orador motivacional. Foi essa dedicação que lhe valeu uma carreira a fazer o que mais gosta.

 

A chegada ao draft da MLB

 

Depois de dar nas vistas no secundário, onde também jogava futebol americano como quarterback, Abbott chegou ao draft da liga de basebol e foi escolhido pelos Toronto Blue Jays na 36.ª ronda na edição de 1985.

 

Como continua a ser habitual, são raros os jogadores que assinam. No caso de Abbott, o futuro passou por três anos na universidade do Michigan. Aí, manteve o estatuto de amador e começou a representar a seleção dos Estados Unidos. Em 1987, foi o porta-estandarte nos Jogos Pan-Americanos e no ano seguinte venceu a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul.

 

O caminho para o estrelato estava a ser percorrido a galope e as portas da MLB estavam abertas à sua espera, acabando novamente escolhido no draft de 1988, agora pelos California Angels.

 

Da estreia à ovação no mítico Yankee Stadium

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Jim teve de esperar um ano para conseguir a estreia, a 8 de abril de 1989. Durante as quatro épocas seguintes foi dando nas vistas e construindo uma reputação na liga. Em 1991, conseguiu o melhor ano da carreira e venceu 18 jogos, registando um ERA (pontos permitidos por nove innings jogados) de 2,89.

 

A carreira de Abbott na MLB tinha uma limitação. A competição está dividida em duas ligas: a Americana e a Nacional. Se na primeira, os lançadores só têm de se preocupar em lançar, na segunda passam também pela rotação de batedores. Por isso, e apesar de haver testemunhos que garantem que se safava muito bem com um taco, fez toda a carreira na Liga Americana, à exceção da temporada em que representou os Milwaukee Brewers em 1999. Nessa temporada foi 24 vezes à base para bater e conseguiu dois hits. 

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Depois da Califórnia, Abbott seguiu para Nova Iorque. Os anos em que era gozado no parque do bairro pelas outras crianças tinham ficado para trás. Em 1993, estava no Yankee Stadium. O estádio onde Babe Ruth tinha construído um legado imortal. O estádio onde Lou Gehrig tinha proferido o discurso mais emocionante na história do desporto. O estádio onde Mickey Mantle e tantos outros tinham feito dos Yankees uma das equipas mais famosas do mundo.

 

O estádio onde, a 4 de setembro de 1993, entrou para a história com um no-hitter: um jogo em que disputou os nove innings e não permitiu qualquer hit aos Cleveland Indians.

 

Foi o melhor momento de uma carreira sem títulos. Depois de duas temporadas em Nova Iorque, jogou ainda pelos Chicago White Sox (duas passagens), novamente pelos California Angeles e terminou a carreira com os Brewers em Milwaukee.

 

Fez um total de 263 jogos (87 vitórias) com uma média de carreira de 4,25 pontos permitidos por nove innings disputados. Não foi brilhante mas ainda assim muito mais do que qualquer criança que lhe antevia uma vida de bullying e limitada.

 

Imperfeito, Jim Abbott seguiu uma vida improvável e conquistou o seu espaço no basebol. Com mérito.

RPS