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É Desporto

Jackie Stewart. O dia em que o perigo esteve demasiado próximo

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Era a segunda corrida da época da segunda temporada de Stewart. Chovia na Bélgica e o britânico perdeu o controlo do carro e acabou praticamente submerso em combustível. Esteve 25 minutos com a vida em risco mas sobreviveu, com uma nova determinação: aumentar a segurança na Fórmula 1. 

 

Lista com demasiados nomes

 

Jules Bianchi foi o último piloto da Fórmula 1 a morrer vítima de um acidente enquanto corria e colocou fim a um período de vinte anos em que a segurança evoluiu temporada após temporada, impulsionada pela mediática morte de Ayrton Senna em 1994.

 

Os primórdios da Fórmula 1 contam uma história muito diferente. Houve alturas em que o invulgar era a temporada acabar sem pelo menos um piloto sofrer um acidente fatal. Em 1966, no Grande Prémio da Bélgica, Jackie Stewart esteve perto de ser o primeiro do ano.

 

O piloto britânico ainda não sonhava que viria a ser campeão mundial (1969, 1971 e 1973). Tinha 27 anos, estava apenas na sua segunda época e preparava-se para fazer a 12.ª corrida da sua carreira na Fórmula 1. Ao volante de um BRM, as perspetivas eram animadoras: em ano de estreia tinha terminado no terceiro lugar e para 1966 tinha arrancado com um triunfo no Mónaco.

 

Mas aquele 12 de junho em Spa-Francorchamps foi diferente. Jackie Stewart fez o terceiro tempo mais rápido na qualificação e saiu atrás de John Surtees e Jochen Rindt. À hora da corrida, a chuva era um convidado indesejado e fazia aumentar os receios de insegurança, especialmente numa altura em que cada volta tinha mais de 14 quilómetros e os serviços de emergência médica demoravam mais tempo a chegar.

 

A chuva fez questão de afetar a corrida. Dos 15 carros que saíram para a prova, oito não chegaram a concluir a primeira volta. Um deles foi o BRM de Stewart, que foi contra um poste antes de capotar junto a uma vala. Nos minutos seguintes, a vida do piloto britânico esteve em risco.

 

O auxílio possível

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«Fomos de frente para uma parede de água como só é possível acontecer no sul da Bélgica», disse Stewart anos mais tarde. A alta velocidade, o piloto perdeu o controlo do carro, que ficou «com a forma de uma banana», e não conseguia sair.

 

«O tanque de combustível partiu-se e eu fiquei inundado em gasolina. Estava por todo o cockpit. O painel de instrumentos tinha sido esmagado e voado para ser encontrado a 200 metros do carro. Não dava para tirar o volante e por isso estava preso», recordou.

 

Jackie Stewart estava abandonado à sua sorte, vulnerável à mais pequena faísca. Graham Hill, o seu colega de equipa, foi um dos primeiros a aparecer junto do carro, até porque também se tinha despistado. Por muito que tentasse, não conseguia ajudar o amigo.

 

Foram 25 minutos de desespero. Uma corrida contra o tempo numa era em que todos os segundos pareciam preciosos. «Imaginem uma janela de 11 anos em que se perdem 57 amigos e colegas, vendo-os muitas vezes a morrer em circunstâncias excruciantes por estarem a fazer exatamente o mesmo que vocês, fim-de-semana após fim-de-semana», escreveu na autobiografia.

 

Bob Bondurant, outro piloto que se tinha despistado, juntou-se a Graham Hill, e, depois de utilizarem uma ferramenta dada por um espetador, conseguiram finalmente retirar Stewart e começar a respirar de alívio.

 

O perigo ainda resistia

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Mesmo longe do carro, Jackie Stewart ainda não estava em completa segurança. O fato estava encharcado em combustível que lhe começava a queimar a pele. Assim que se despiu e trocou de roupa, foi numa ambulância rumo a Liège com costelas partidas e lesões nos ombros.

 

Mais do que o susto, ficou a determinação em fazer da Fórmula 1 uma modalidade mais segura. Foi o clique necessário para perceber que os acidentes não acontecem só aos outros. «A súbita perceção do perigo atingiu-me. Esteve demasiado próximo de mim. A partir daí decidi fazer tudo o que estava ao meu alcance para tornar o desporto mais seguro».

 

Não foi uma batalha fácil. A adrenalina do perigo era o que movimentava muito do negócio da Fórmula 1, incluindo os pilotos que se arriscavam dia após dia. Mas, lentamente, inovações que parecem tão básicas hoje em dia, como o cinto de segurança, o capacete completo e fatos anti-inflamáveis, foram introduzidas.

 

Não mudou tudo mas começou a moldar mentalidades. Ainda assim, não foi suficiente para que cinco dos 15 pilotos que tinham começado a corrida em Spa evitassem a morte nos cinco anos seguintes. Uma das vítimas foi Jim Clark, que o tinha acompanhado na ambulância e criticado por estar a gemer de dores perante a presença da sua mulher.

RPS