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É Desporto

Inglaterra. O ciclo vicioso 50 anos depois do único título

Bobby Moore festeja com o troféu

Faz hoje 50 anos que a Inglaterra conquistou o Mundial. Desde então, a expetativa de conseguir uma repetição, ou fazê-lo num Europeu, é ciclicamente grande mas o fim da história termina inevitavelmente numa desilusão. A sensação de «direito divino» de vencer tem prejudicado mas há mais por onde os ingleses podem e devem pegar. Uma gestão real de expetativas é fundamental. 

 

 

O «direito divino» não tem valor humano

 

Um espetador mais velho apontou para nós e gritou, «vocês ensinaram-nos futebol em 1893», querendo referir-se aos britânicos. Isto é verdade em quase todos os países do mundo, mas os argentinos sabem-no melhor do que a maioria – Simon Kuper em Football Against the Enemy (1996).

 

Há 50 anos, a Inglaterra festejou um direito próprio: o de conquistar o título mundial. Fê-lo em casa, derrotando a RFA em Wembley por 4-2, num jogo que imortalizou a discussão sobre se o remate de Geoff Hurst tinha entrado ou não. Para muitos, o título servia finalmente de espelho à superioridade moral do país no futebol mundial.

 

O país que disseminou as ideias do futebol no século anterior mas que nunca se conseguiu afirmar verdadeiramente nas quatro linhas. Por muito que os selecionadores assim o pensassem, por muito que os dirigentes assim o acreditassem, por muito que os adeptos assim o garantissem.

 

A Inglaterra não é, nem nunca foi, uma verdadeira potência no mundo do futebol. Esteve no início, é certo, mas as estatísticas põem a nu facilmente a noção de que a Inglaterra é um crónico candidato a alguma coisa. Não é. Pode ter potencial para sê-lo mas não é.

 

O título que faz hoje 50 anos foi o único a nível sénior da Inglaterra. Desde então, houve outras onze seleções a conquistarem Mundiais ou Europeus: nove delas são europeias. Alemanha, Itália, Espanha, França, Checoslováquia, Holanda, Dinamarca, Grécia e Portugal já levantaram pelo menos um troféu desde que a geração Bobby, de Charlton e Moore, fez a festa em Wembley.

 

Também não se pode dizer que a Inglaterra falhou por pouco outros títulos. No Mundial, só em 1990 conseguiu regressar às meias-finais e em Europeus fê-lo em 1968 e 1996. Mais, em 1972, 1974, 1976, 1978, 1984, 1994 e 2008 nem sequer conseguiram o apuramento para as fases finais.

 

Então mas porquê? Por que é que os ingleses continuam a acreditar que têm o rei na barriga e, a cada dois anos, o ciclo termina sempre da mesma forma: a desilusão e a sensação de que só não aconteceu por causa de um bode expiatório qualquer pronto a assumir a culpa de uma expetativa que nunca deveria ter sido encarada de forma séria.

 

Manual de justificações

Beckham foi expulso no Mundial-1998

 

Num artigo publicado no Financial Times em 2006, Simon Kuper fez o diagnóstico perfeito do ciclo de emoções pelo qual os ingleses passam a cada grande prova.

 

O avançado Johnny Haynes, presente no Mundial-1958, foi visionário: «Toda a gente em Inglaterra pensa que temos um direito divino de vencer o Mundial». E a Inglaterra até venceu, oito anos depois, mas depois disso é o que se sabe. E antes também não foi melhor.

 

Uma boa parte da sensação de superioridade começa logo na conturbada relação com a FIFA. Ausentes da associação entre 1928 e 1946, a Inglaterra não teve a oportunidade de participar nos primeiros três Mundiais, pondo à prova a ideia de que eram a melhor seleção do mundo.

 

Para contornar a situação, arranjaram outra solução, como o encontro particular com a Itália em 1934, meses depois de os transalpinos terem conquistado o Mundial. O jogo, que ficou conhecido por «Batalha de Highbury», terminou com um triunfo dos ingleses por 3-2. Era o resultado perfeito para se manter o título oficioso de melhor seleção do mundo.

 

Em 1950, a estreia gerou grande expetativa. Uma vitória sobre o Chile aguçou o apetite e o encontro seguinte com os Estados Unidos estava marcado pelo forte favoritismo europeu. No Estádio Independência em Belo Horizonte, um nome curioso tendo em conta o passado dos dois países, os norte-americanos venceram por 1-0 e provocaram aquele que é ainda hoje visto como a derrota mais humilhante da Inglaterra.

 

Aí, explica Simon Kuper no tal artigo, começou o leque de justificações: ora porque o público brasileiro perdia demasiado tempo quando a bola saia para prejudicar os ingleses, ora porque os EUA tinham três estrangeiros na equipa e um deles, o lavador de louça Joe Gaetjens, marcara o golo acidentalmente com a cabeça.

 

O sinal de partida estava dado para aparecerem outras desculpas e bodes expiatórios. Em 1998, Beckham foi um patinho-feio após a expulsão contra a Argentina e nos jogos contra Portugal, em 2004 e 2006, houve o golo anulado no prolongamento e a expulsão a Rooney depois do piscar de olho de Ronaldo. E isto para não falar da mais repetida, por culpa do golo com a mão de Maradona em 1986. Mas há mais, há sempre uma justificação, seja ela qual for, a confortar aos ingleses depois de, novamente, o desígnio não ter sido alcançado.

 

Banhos de realidade

 

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Perder com a Argentina, com o Brasil, com a Alemanha, é trágico mas deixa os ingleses com um estranho sabor amargo, de quem também não teve sorte no emparelhamento. Mas há outras derrotas, mais inesperadas, que aumentam o nível de desilusão.

 

Estados Unidos e Islândia estão no topo e Portugal surge como um carrasco mais pobre (três eliminações entre 2000 e 2006 aumentaram o nível de alerta) mas o primeiro banho de realidade, que conseguiu provocar uma mudança de comportamento, surgiu em 1953.

 

A humilhação no Mundial-1950 ainda estava presente mas era encarada como um acaso. Um acaso tão grande que ajuda a propagar o mito de que os jornais britânicos terão pensado que o telegrama recebido com o resultado teria sido um engano e na verdade teria ficado 10-1. A história diverte mas nada historicamente o confirma. Por tudo isto, os ingleses continuavam a sentir-se como a melhor seleção quando receberam a Hungria em Wembley.

 

Um minuto bastou para os magiares inaugurarem o marcador e o 6-3 do resultado final, ao qual se juntou uma derrota por 1-7 numa desforra, fez disparar os sinais de alerta.

 

Diz Bobby Robson: «Aquele jogo mudou a nossa forma de pensar. Achávamos que íamos demolir aquela equipa. Foi precisamente o contrário».

 

O estilo mudou, a forma de pensar também, mas apenas dentro do campo. O estilo modernizou-se, e tem modernizado lentamente a cada momento-chave na história, mas a mentalidade fora de campo mantém-se.

 

Problema inclinado

 

Sam Allardyce é o novo selecionador inglês

 

A Liga Inglesa é vista como a mais espetacular do mundo, com razão. Há dinheiro, há emoção, há condições para atrair os melhores jogadores de todas as nacionalidades. Ao longo dos 24 anos da Premier League, a conquista de espaço por parte do jogador estrangeiro serviu de referência ao inglês. Por um lado, moldou-lhe o espírito, por outro roubou-lhe espaço.

 

A geração de Beckham, Lampard e Gerrard faz parte do passado mas o problema da Inglaterra atual não pode ser visto como uma consequência da qualidade dos jogadores. Tanto que a equipa que perdeu em França com a Islândia era vista, pela crítica internacional, como uma candidata de segunda linha com uma palavra a dizer.

 

Mais uma vez, o problema está na mentalidade. E no treinador. Com as exceções de Sven-Göran Eriksson e Fabio Capello, os selecionadores são sempre ingleses. Roy Hodgson nunca gozou de total reconhecimento e respeito e os resultados estão à vista. Agora, mais uma vez, a escolha de Sam Allardyce parece não ser mais do que uma atitude de conformismo em relação ao que está disponível.

 

Poderia ser diferente? É aí que parece estar a maior crise no futebol inglês: nos treinadores. A Premier League nunca teve um treinador inglês campeão, sendo preciso recuar até Howard Wilkinson (First Division, 1991/1992) para encontrar o último exemplo, na altura com o Leeds.

 

E mais, das 20 equipas que vão arrancar para a Premier League em agosto, apenas quatro têm treinadores ingleses: Mike Phelan (Hull City), Alan Pardew (Crystal Palace), Sean Dyche (Burnley) e Eddie Howe (Bournemouth).

 

É bom que os clubes ingleses consigam atrair nomes como Mourinho, Guardiola, Conte e Klopp mas depois a federação também paga a fatura, especialmente quando parece ter regressado à filosofia de ter responsáveis ingleses.

 

Roy Hodgson, Steve McClaren, Kevin Keegan, Glen Hoddle, Terry Venables e muitos mais entram por uma porta, prometem uma medida gigante a cada fase final, mas acabam por sair ainda mais envergonhados do que o anterior. É uma pequena galeria de horrores, sem resultados à vista e sem evolução.

 

Apesar de tudo, as expetativas mantêm-se idênticas. Com Sam Allardyce haverá o período de trabalho forte, mentalidade forte e identidade definida rumo ao Mundial da Rússia. Chegando lá, o mais provável continuará a ser a desilusão.

 

Porque esse é um problema com raiz no próprio país. Quem coloca sempre a fasquia no topo, não tem forma de evitar uma desilusão ainda maior. A normalização de expetativas é o passo mais fundamental que os ingleses poderão dar para terem uma palavra a dizer nas decisões.

 

Enquanto não o fizerem, o mais provável continuará a ser a repetição ad nauseam do “se não tivesse acontecido aquilo…”

 

RPS