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É Desporto

Gus Kenworthy. O homem sem vergonha para beijar

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Foi segundo em Sochi mas acabou muito longe das medalhas na Coreia do Sul. Ainda assim, diz que sai de PyeongChang muito mais realizado do que há quatro anos. Porquê? Porque o beijo que deu no namorado foi transmitido em direto e pode servir de exemplo para milhares de jovens por todo o mundo. 

 

A importância do exemplo

 

Gus Kenworthy tem 26 anos e cresceu durante a década de 90. Quando via Jogos Olímpicos na televisão, não havia nada que saltasse fora do normal, apenas uma sociedade limitada por padrões bem definidas pelas regras tácitas do que deve ser o comportamento social.

 

Sim, havia homossexuais, sempre houve. Mas o peso do preconceito era demasiado grande para que pudesse haver liberdade de discurso e de comportamento. Os atletas eram obrigados a esconder os sentimentos, a disfarçar. Eram atores mal pagos e infelizes nos filmes das suas vidas.

 

Os últimos anos têm estado a marcar uma diferença. A estatística ajuda a comprová-lo: em Sochi, nos Jogos Olímpicos de Inverno há quatro anos, havia sete atletas assumidamente LGBT. Hoje, na Coreia do Sul, são 15. E se Adam Rippon começou por ser o mais mediático, um beijo entre Gus Kenworthy e o namorado no final da participação no slopestyle (esqui estilo livre) inverteu a situação.

 

«Não me apercebi que estava a ser filmado mas ainda bem que sim. Quando era criança, nunca sonhei que um dia pudesse ser possível ver um beijo gay na televisão durante o evento mas hoje, pela primeira vez, uma criança pode. O amor é amor», escreveu no Instagram.

 

Mais tarde, em declarações aos jornalistas, Gus repetiu precisamente essa ideia: «Nunca vi um atleta gay beijar o namorado. Teria sido muito mais fácil para mim». Já o namorado, o ator Matthew Wilkas, realça que «é positivo, é uma boa exposição e uma boa coisa para a comunidade LGBTQ». «Mas foi apenas um beijo, não tem nada de especial», alertou.

 

Sabor a medalha?

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Acidental ou não, foi o momento mais importante de Gus nos Jogos Olímpicos. Depois da medalha de prata em Sochi, não foi além do 12.º posto. O norte-americano foi acumulando lesões nos últimos meses e chegou a PyeongChang com um hematoma no corpo e o polegar direito partido.

 

«Mas saio mais realizado destes Jogos Olímpicos do que dos de há quatro anos», admitiu, realçando a importância do exemplo de um beijo gay para «alterar o negativismo e derrubar a homofobia e as barreiras». «Era a experiência olímpica de que estava à espera», confessou.

 

A comitiva norte-americana começou os Jogos envolta em polémica devido à presença do vice-presidente dos Estados Unidos Mike Pence, uma figura inenarrável com um historial de preconceito e declarações infelizes. Nem isso afetou a satisfação de Gus. «O polegar partido não me vai impedir de competir, obviamente, mas não me vai deixar cumprimentar Mike Pence. Parece que nem tudo é mau», disse na altura.

 

Esta não é a primeira vez que Gus Kenworthy tenta aproveitar a sua homossexualidade para ajudar a derrubar preconceitos e a ajudar os mais novos. Em 2015, disse pela primeira vez que era gay na comunicação social durante uma entrevista à ESPN: «Queria fazê-lo através das minhas palavras e de forma esclarecedora, com a esperança de ajudar jovens que estavam a passar pelo mesmo que eu tinha passado».

 

Esta também não é a primeira vez que Gus Kenworthy assume uma posição de porta-voz durante os Jogos Olímpicos. Em Sochi foi notícia, além da medalha, pela forma como garantiu que uma ninhada de cães abandonados escapassem ao abate.

 

O atleta providenciou as medidas necessárias para o seu transporte para os Estados Unidos e insistiu em ficar com um dos cães. «Tenho estado rodeado de animais a minha vida toda, é difícil de pensar [que iam ser abatidos pelo poder local]. Vou ficar com um para mim», garantiu.