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É Desporto

Formação do FC Porto continua a passar pelos intervalos da chuva

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A do Sporting é historicamente mais forte – sobretudo pelos talentos individuais – e a do Benfica está cada vez mais mediática, impulsionada pelos negócios promovidos por Jorge Mendes, mas a última geração dos dragões mostra que o trabalho voltou a ser bem feito.

 

Quanto vale uma maioria?

 

As convocatórias dos escalões de formação não são um jogo de 70, 80 ou 90 minutos mas por vezes parecem. A cada anúncio de lista de um selecionador, surgem as primeiras contabilidades como se uma maioria de jogadores convocados representasse qualquer tipo de vitória ou superioridade de um clube em relação aos outros.

 

De pouco interessa ter dez jogadores numa lista de 23 se os elementos de maior qualidade surgem oriundos de um clube que deu apenas dois ou três jogadores. E tudo é muito subjetivo também. Os selecionadores demonstram, ano após ano, que dão muito valor a um pedigree de formação associado aos três grandes.

 

As escolhas de Rui Jorge nos sub-21 consubstanciam esta ideia, tanto no Europeu de 2015 como no que agora se disputa na Polónia. A prioridade é dada aos que estão com a equipa há mais anos, aos que conhecem os processos, aos que têm uma história de contributo tanto no escalão em causa como nos anteriores.

 

É óbvio que Sporting, Benfica e FC Porto surgem como três grandes eucaliptos na formação em Portugal, que secam quase tudo – e cada vez mais – à sua volta, deixando menos espaço aos talentos que surgem em clubes mais… periféricos.

 

Seja como for, não deixa de ser possível traçar diagnósticos perante as convocatórias para fases finais nos escalões de formação. Aí, para o Europeu sub-19 da Geórgia, que arranca no próximo fim-de-semana, o FC Porto surge com a maioria. Num total de 18 jogadores, os dragões têm seis elementos, contra os cinco do Benfica e os quatro do Sporting.

 

É praticamente o mesmo? Sem dúvida. Mas o segundo teste de algodão também dá vantagem aos dragões: Diogo Dalot, lateral direito, e Rui Pedro, avançado, são possivelmente os jogadores com mais potencial futuro e que mais interesse despertam no futebol nacional – José Gomes (Benfica) encabeça a segunda linha.

 

A renovação do FC Porto

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Na última edição do campeonato, Nuno Espírito Santo utilizou seis jogadores oriundos da formação (para efeitos de contabilidade, utilizamos todos os elementos que tenham feito pelo menos uma época no clube durante os escalões jovens): André Silva (2454 minutos), André André (1769), Ruben Neves (626), Rui Pedro (180), Fernando Fonseca (85) e Sérgio Oliveira (22).

 

Os 5136 minutos totais representaram o número mais elevado numa edição do campeonato desde a época 2004/2005, em que, com Victor Fernández e José Couceiro ao comando, o número foi de 6478. De certa forma, o FC Porto está a recuperar o peso da sua formação, algo que foi muito forte na década de 90 e no início do novo século (8949 minutos em 2002/03 e 7941 em 2003/04 nos anos de Mourinho), mas que se perdeu com o passar dos anos e mudança no paradigma do clube, sobretudo no recrutamento estrangeiro.

 

A aposta na formação não está umbilicalmente ligada aos títulos conquistados mas não deixa de ser curioso verificar o registo do último tricampeonato dos dragões. Entre 2010/11 com André Villas-Boas e 2012/13 com Vítor Pereira, o FC Porto teve apenas 329 minutos jogados por elementos que tinham jogado na formação.

 

A mística na formação

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«Ser FC Porto» tornou-se numa expressão com um grande peso no clube. De certa forma, foi a escolha de palavras utilizada para transparecer a importância da mística e da forma de viver o clube no Dragão.

 

Falámos do último tricampeonato do FC Porto, recuemos agora ao primeiro ano do pentacampeonato na década de 90 e centremo-nos na equipa que venceu o primeiro título. Entre os jogadores utilizados, quantos eram da formação? Vítor Baía (2955 minutos), João Pinto (2720), Secretário (2561), Bandeirinha (180), Rui Jorge (1163), Jorge Costa (845), Rui Filipe (90), Semedo (97), Rui Barros (1700), Jaime Magalhães (12), Jorge Couto (315), Folha (1864) e Domingos (2175).

 

Feitas as contas, são 16677 minutos num total possível de 33660, o que representa 49,5% da utilização total durante as 34 jornadas da época 1994/95. Comparando com épocas mais recentes, só o Sporting conseguiu superar essa marca com 50,06% em 2013/14 e 52,6% em 2014/15. No entanto, na classificação, não foi além de um segundo e um terceiro lugar.

 

Vítor Baía, João Pinto, Jorge Costa, Jaime Magalhães e Domingos marcaram uma era e foram passando o testemunho da mítica e do tal «Ser FC Porto» durante os anos. Apenas um ano antes, Fernando Couto tinha saído para o Parma. E, nos anos seguintes, à medida que os jogadores saíam para o estrangeiro, como Baía, ou terminavam uma longa carreira no clube, como João Pinto, outras referências foram surgindo.

 

Do atual treinador, Sérgio Conceição, à maior venda de um produto da formação até chegar André Silva, Ricardo Carvalho, o FC Porto foi tendo sempre uma boa parte de jogadores oriundos da formação, fruto da sua regularidade na aposta, capaz de polvilhar a espinha dorsal com elementos mais jovens, capazes de perpetuar a passagem da mística.

 

Intervalos da chuva

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O que faz com que o FC Porto não tenha o mesmo destaque mediático, ou mesmo reconhecimento por parte de muitos, no que diz respeito à formação e ao contributo para a seleção? Façamos um exercício muito rápido: qual foi o melhor produto de sempre da formação dos dragões? Muito possivelmente as respostas poderão alternar entre Vítor Baía (um guarda-redes), Ricardo Carvalho e Fernando Couto (dois centrais).

 

Qual é o problema disto? Tirando em Itália, dificilmente uma criança cresce com o sonho de ser um grande central. Ninguém tem o objetivo de ser o melhor guarda-redes do mundo. O FC Porto contribuiu, em posições importantes, mas não nas mais criativas.

 

O FC Porto nunca formou um Futre, um Figo ou um Ronaldo. Mas formou, e em grande quantidade, centrais que se transformaram em peças essenciais nas grandes campanhas de seleção em que Figo e Ronaldo participaram. Fernando Couto, Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Jorge Costa serão, com alguma margem para discussão, os quatro melhores centrais nascidos em Portugal das últimas décadas.

 

É como o padeiro, o carpinteiro ou o peixeiro que, desempenhando um papel fundamental na sociedade, não têm a mesma relevância ou mediatismo do que o jogador de futebol, o médico ou o grande gestor. O certo é que, tirando pequenos períodos, o FC Porto continua a formar bem e reabriu agora uma esperança redobrada para os próximos anos, que a venda milionária de André Silva veio reforçar.

RPS