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É Desporto

Figuras Olímpicas XI - Rafaela Silva

Rafaela Silva

«Disseram-me que o lugar dos macacos era na jaula e não nos Jogos Olímpicos. Que eu era uma vergonha para a minha família, que estava a gastar o dinheiro que as pessoas pagavam de imposto. Agora sou campeã olímpica. Mostrei que uma pessoa pode sair da favela e vencer.» 

 

Judo fez esquecer o futebol

 

Rafaela Silva nasceu a 24 de abril de 1992 e cresceu na Cidade de Deus, uma das favelas mais famosas do Rio de Janeiro. Era uma rapariga irrequieta e passava a vida na rua a jogar futebol com rapazes. Não fugia a um único conflito e deixava os pais preocupados.

 

Além do futebol, começou a praticar judo, com sete anos. Se o sonho maior era chegar um dia a ser uma estrela dos relvados, a insistência do treinador de judo do Instituto Reação junto dos pais fez a diferença.

 

«Uma vez, depois do treino, o treinador dela veio conversar comigo para pedir que ela se dedicasse ao judo porque tanto ela como a irmã [Raquel Silva] iam chegar à seleção. No início ela não queria abandonar o futebol», recorda o pai Luiz Carlos.

 

A ideia agradou aos progenitores. No tatame, a filha estaria mais segura do que a brincar na rua. Numa primeira fase, Rafaela resistiu mas não demorou muito até ceder ao destino. «Um dia chegou a desmaiar a jogar futebol. Não tinha comido bem e não aguentou. Aos poucos foi deixando de jogar… era um sonho de menina que tinha.»

 

O segredo que destruía

Rafaela com a irmã Raquel

Rafaela e Raquel puxaram uma pela outra. As irmãs acreditavam que tinham talento para chegar à seleção e fariam tudo o que pudessem para evitar que algo se metesse pelo caminho. Mesmo que Raquel engravidasse aos 15 anos.

 

O momento foi terrível. A irmã mais velha contou a Rafaela mas obrigou-a a guardar segredo. A convocatória para a seleção brasileira estava a chegar e ninguém podia saber.

 

O segredo destruiu Rafaela, conta o pai. «Ficou muito triste, começou a faltar à escola. Foi um momento muito complicado e um dia explodiu mesmo e contou-nos. Precisámos da ajuda de uma psicóloga. O curioso é que, apesar de tudo, ela nunca deixou o judo, gosta mesmo muito do desporto.»

 

Estreia maldita nos Jogos

 

Com Raquel para trás, Rafaela continuou sozinha a perseguir o sonho. Em 2012, com 19 anos, garantiu uma vaga no torneio olímpico em Londres. Não era a maior favorita na categoria de -57 quilos, a mesma de Telma Monteiro, mas podia ambicionar ao pódio. Afinal, no ano anterior tinha sido medalha de prata nos Mundiais de Paris.

 

Depois de vencer na primeira ronda, acabou desqualificada no combate seguinte por ter utilizado uma técnica ilegal. A desilusão foi enorme mas o pior ainda estava por chegar: a judoca tornou-se o saco de pancada dos brasileiros.

 

«Disseram-me que o lugar dos macacos era na jaula e nos Jogos Olímpicos. Que eu era uma vergonha para a minha família, que estava a gastar o dinheiro que as pessoas pagavam de importo», recorda.

 

Rafaela, igual a si mesmo, reagiu. A federação brasileira de judo não gostou e obrigou-a a tornar as suas contas privadas. Nos dois meses seguintes, nem sequer treinou. «Ficava só deitada a ver televisão», conta a irmã Raquel.

 

«A minha mãe fazia comida para ver se ela animava. Às vezes estava a ver televisão, eu olhava e percebia que estava a chorar sozinha. Só queria ficar dentro de casa, não queria fazer nada», acrescentou.

 

Rafaela reconhece que o momento foi muito mau: «Fiquei sufocada, chateada. Eu tinha 19 anos. Queria realizar o meu sonho e acabei a pensar em abandonar o judo.»

 

Voltar em grande

 

Rafaela Silva nos Jogos Olímpicos

O treinador Geraldo Bernardes impediu o abandono: «Não podíamos perder um talento destes.»

 

Com aconselhamento psicológico, Rafaela dedicou-se mais do que nunca ao desporto. «Treinei muito depois de Londres porque não queria repetir o sofrimento. Agora sou campeã olímpica. Mostrei que uma pessoa pode sair da favela e vencer, pode tornar-se campeã. A lição que fica para as crianças é que se têm um sonho têm de batalhar», afirma.

 

De patinho-feio, Rafaela passou a heroína brasileira. No dia da consagração, tinha o pavilhão inteiro a torcer por si e, nele, a sobrinha Ana Carolina. Da tal gravidez que afastara a irmã Raquel.

 

«Tenho muito orgulho nela», contou a jovem rapariga à imprensa brasileira. «Quero ser tão boa quanto ela quando crescer. Mas o meu sonho é ser bailarina.»

 

Impacto nas crianças

 

A influência dos modelos é decisiva. Foi o que aconteceu quando Rafaela era nova: «Quando o Flávio [Canto] foi medalha de bronze em Atenas em 2004, fomos até ao aeroporto e fiz tudo para aparecer na fotografia.»

 

É por isso que nos dias seguintes ao título fez questão de visitar o Instituto Reação, onde testou as primeiras pegas, para falar com as crianças.

 

«Ver a alegria nos seus rostos é muito importante. Sei a sensação, já passei por isso. O que puder fazer por elas no tatame, farei», explica, incentivando também quem queira experimentar a modalidade.

 

«A primeira coisa que se aprende no judo é a cair, a forma certa de pôr a mão, o cotovelo. Se se souber cair, ninguém se magoa. Até há jogadores de futebol que utilizam estas técnicas», diz.

 

Se a importância no desporto é referida, a educação não é esquecida. «Graças ao desporto, ganhei bolsas e pude chegar à faculdade. O ensino é muito importante porque a carreira não dura para sempre», atira.

 

Sem tabus

 

A campeã da Cidade de Deus tornou-se um fenómeno mediático durante os Jogos Olímpicos. Foi anunciado que vai dar o nome a uma escola, para crianças entre os seis meses e os seis anos, e a sua vida foi muito escrutinada. Entre outros temas, a homossexualidade veio à baila.

 

Indiferente às críticas que a afetaram no passado, a judoca não teve qualquer pudor em comentar a relação com Thamara, que dura há três anos.

 

«Eu sou das meninas. Falo sem problema, já andam a pôr fotos dela em tudo o que é lugar. Para ficar comigo, é preciso que se entenda o que é esta vida. E ela acompanha-me sempre», explica.

 

O preconceito é vencido, tal como quando decidiu ser judoca. «Tinha gente da família que perguntava à minha mãe se o judo não era coisa de homem. Ela sempre disse que preferia que eu lutasse em vez de andar perdida na Cidade de Deus.» 

 

RPS

 

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