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É Desporto

Figuras Olímpicas VIII - David Katoatau

David Katoatau

Dançar para não chorar. Halterofilista do Kiribati pode não concluir os levantamentos do peso com sucesso mas insiste em sair em grande. A razão? Alertar o mundo para o desaparecimento do seu país por culpa da subida do nível médio do mar. «Imploro aos países do mundo para verem o que está a acontecer ao Kiribati. A verdade é que não temos recursos para nos salvarmos. Vamos ser os primeiros a desaparecer.»

 

Kiribati condenado à morte

 

Foram três atletas em Atenas, dois em Pequim, três em Londres e novamente três no Rio de Janeiro. Os números não provocam grande surpresa: afinal, estamos a falar de um país perdido no meio da Oceânia com cerca de 100 mil habitantes.

 

No Brasil, ainda assim, foi mais falado do que a maioria, por culpa de um halterofilista de 32 anos chamado David Katoatau. Porta-estandarte, e o primeiro na história do país a conseguir efetivamente o apuramento para uns Jogos Olímpicos (2012), não apresentou grandes resultados, mas sim grandes danças.

 

No final de cada tentativa de levantamento do peso, brindava a assistência com passos divertidos e inesperados. David dança para não chorar. Dança para chamar a atenção do mundo, com sucesso, para o que está a acontecer no Kiribati, um país que está a desaparecer progressivamente com a subida do nível médio do mar.

 

A carta emocionada

 

A iniciativa de David não é recente. Já o faz há alguns anos. No ano passado, decidiu escrever uma carta aberta ao mundo a explicar o que se está a passar.

 

«Nunca me senti tão impotente na vida. Como desportista, dou tudo ao meu país mas não o posso salvar. Em nome de todas as pessoas que morrerão por um país que vai deixar de existir e pela cultura que será esquecida, peço-vos ajuda.

 

No ano passado construí a única casa que poderia pagar [David Katoatau aproveitou os cerca de oito mil dólares de prémio por ter vencido a medalha de ouro nos Jogos da Commonwealth], logo ao lado da casa dos meus pais. Uns meses depois foi destruída pelas ondas.

 

As milhares de crianças que conheci nas escolas têm o sonho de alcançar algo na vida. Como é que lhes posso mentir e dizer que podem concretizar os desejos, se o nosso país está a desaparecer?

 

Imploro aos países do mundo para verem o que está a acontecer ao Kiribati. A verdade é que não temos recursos para nos salvarmos. Vamos ser os primeiros a desaparecer.»

 

Problema assumido

Kiribati no mapa

A situação do Kiribati é grave e o país poderá mesmo afundar-se antes de 2050. Há dois anos, o governo gastou sete milhões de dólares em terrenos nas ilhas Fiji de forma a ter um espaço para cultivo e refúgio, caso seja precisa uma evacuação urgente.

 

Já este ano, o presidente cessante, Anote Tong, aconselhou a população a «emigrar com dignidade» para países vizinhos. Um homem tentou fazê-lo para a Nova Zelândia e iniciou uma disputa em tribunal para ser o primeiro refugiado das alterações climáticas. Perdeu.

 

Para David Katoatau, a situação deixa-o inconsolado. «A maior parte das pessoas nem sabe onde é o Kiribati. Uso a minha dança para mostrar isso ao mundo. Não sei quantos anos faltarão até a ilha desaparecer», lamenta.

 

O seu treinador, Paul Coffa, um australiano de origem italiana, compreende as limitações de David e o objetivo no Rio de Janeiro: «Não tem a ver com a medalha de ouro, estes miúdos não têm capacidade para isso. Para ele, o simples facto de transportar a bandeira para o mundo ver já é muito importante. É o estar lá.»

 

Condições de treino

 

O subtítulo existe, está a negrito a separar os parágrafos e tudo, mas o conteúdo não. Pelo menos no Kiribati. «Não havia ginásio quando comecei a praticar halterofilismo quando era mais novo e continua sem existir», conta David.

 

«Tinha de ir treinar para a praia. Como a barra ficava demasiado quente por causa do sol, tinha de ser às seis da manhã», acrescenta o halterofilista que foi treinar e viver para a Nova Caledónia com 16 anos.

 

O futuro continua incerto. Depois de perder a primeira casa para as ondas, David e os pais construíram outra. «Mas está próxima do mar e estamos sempre preocupados.»