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É Desporto

Felipe Gomes. Da favela para a glória paralímpica

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Brasileiro ficou cego devido a um glaucoma congénito, seguido de cataratas e uma retina deslocada. Criado na favela Nova Holanda, no Complexo da Maré (Rio de Janeiro), tem um objetivo definido para os Paralímpicos: «Demonstrar o potencial que as pessoas que vivem na favela e as pessoas que têm deficiências podem ter.» 

 

Não aceitar um não

 

Felipe Gomes tinha quatro anos quando ouviu pela primeira vez um médico a dizer-lhe que não podia fazer algo. Os problemas na visão começavam a notar-se e avisaram-no que não poderia correr.

 

O brasileiro não quis saber, mesmo depois de ter começado a perder a visão de forma irreversível aos oito anos, devido a um glaucoma congénito, seguido de cataratas e de uma retina deslocada.

 

Com onze anos, a estudar no instituto Louis Braille, ouviu falar pela primeira vez de futebol para cegos. «Como brasileiro que sou, gosto de futebol e por isso fui experimentar. Foi aí que a minha vida no desporto começou», recorda.

 

Ao futebol de cinco e ao goalball, Felipe juntou também o judo e a capoeira. Mas foi no atletismo, a partir dos 17 anos, que descobriu verdadeiramente a paixão e o caminho que o levaria ao estrelato.

 

Experiência paralímpica

 

O velocista chegou pela primeira vez a uns Jogos Paralímpicos em 2008, em Pequim, mas não foi bafejado pela sorte: nos 100 metros terminou na oitava posição, nos 200 foi obrigado a desistir por lesão e na estafeta dos 4x100 o Brasil foi desqualificado.

 

Quatro anos depois, em Londres, tudo mudou. Mais experiente, foi campeão nos 200 metros em T11 (categoria para cegos totais) e medalha de bronze nos 100 metros.

 

No Rio de Janeiro, está mais motivado do que nunca. «O meu próximo sonho é ouvir o hino nacional no Estádio Olímpico, com uma medalha no meu pescoço. Todas elas são bem-vindas, mas conquistar uma medalha de ouro no Brasil seria um sonho tornado realidade. É por isso que treino duro todos os dias», confessa.

 

Felipe Gomes vai correr nas provas de 100, 200, 400 e 4x100 metros.

 

Desafios do treino

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Da favela Nova Holanda, no norte do Rio de Janeiro, até ao complexo onde treina, Felipe Gomes tem um caminho longo para percorrer, que o pode obrigar a apanhar até oito autocarros diferentes.

 

Logo à saída do Complexo da Maré, o brasileiro é mergulhado na realidade: «Nunca tive problemas mas não é muito simpático sair de casa e ter de passar por um carro blindado do Batalhão de Operações Policiais Especiais.»

 

Pelo caminho, confessa que ouve algumas frases de «bandidos». «Dizem que me viram na televisão e que tenho de ganhar uma medalha», conta.

 

Outro desafio é a alimentação: «Para mim, é um grande sacrifício não poder comer o que gosto. A minha dieta é muito rígida. Posso comer seis vezes por dia, mas nada de pizza, churrasco, doces ou refrigerantes. Às vezes quero comer, mas sei que assim não conseguiria ter sucesso como atleta.»

 

Passar mensagem

 

Felipe Gomes é um cego que vive na favela e está a ter sucesso no desporto. O brasileiro sente que pode ser um exemplo para os outros e vive bem com essa responsabilidade.

 

«Se aparecer na televisão, se ganhar uma medalha, se contar a minha história… se dez pessoas me ouvirem e conseguir chegar a pelo menos duas, já vale a pena», afirma.

 

O brasileiro acrescenta que «é melhor quando alguém ouve o que se tem a dizer do que passar pela vida sem ser notado». «Quero chegar às pessoas estabelecendo um bom exemplo, a representar o Brasil e a demonstrar o potencial que as pessoas que vivem na favela e as pessoas que têm deficiências podem ter.»

 

RPS