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É Desporto

Eu não vi o golo do Eder

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Não foi por estar de olhos fechados, não foi por ter ido à cozinha, por estar de costas ou por ter preferido outro canal. Não vi porque preferi não ver. Não foi por nervosismo ou superstição. Foi um pouco por acaso. E voltaria a fazer tudo igual.

 

O momento do ano

 

Está na moda não gostar da seleção. Conheço até quem diz, com tom jocoso, que não se trata da seleção nacional mas sim da equipa da Federação Portuguesa de Futebol. Há inúmeras justificações para o descontentamento generalizado: há quem garanta que não consegue sofrer tanto como num jogo do seu clube, quem critique as tendências clubísticas de quem está em situação de poder e até quem ponha em causa a dedicação de quem está em campo.

 

A maior parte das pessoas que conheço nesta situação são mais novas do que eu. Não quero fazer uma generalização, mas são. E compreendo-as. Portugal nem sempre foi Portugal como é agora. Nem sempre foi um Benfica, um FC Porto ou um Sporting. Durante muito tempo, no mundo do futebol, Portugal foi um Varzim, um Tondela ou um Feirense.

 

Falhar uma qualificação não era sinónimo de fracasso, podia ser até natural tendo em conta o histórico e a qualidade dos rivais. De repente, tudo mudou. O Euro-1996 foi apenas a quarta fase final de Portugal na história. Desde então, estivemos em mais cinco Europeus e quatro Mundiais.

 

Portugal transformou-se em estrela. De Islândia ou País de Gales, passou a ser Alemanha, França ou Itália. Só ganhou agora, claro, mas há muito que faz parte da elite dos crónicos candidatos. Perdeu magia. Ganhou profissionalismo. E, pelo meio, perdeu adeptos.

 

A mim nunca perdeu. Em julho, logo após a final, escrevi sobre a importância que este título tinha no coração de muitos. De como não era uma questão de patriotismo mas sim de orgulho e identificação. Do prazer de ver a bandeira verde, amarela e vermelha com um brilhozinho nos olhos a representar uma equipa que pudesse surpreender. Surpreender, sim, porque nunca éramos favoritos a nada, tirando o hóquei em patins e, claro, os Jogos Sem Fronteiras (grande Amadora!).

 

Mundial-1991 marcou o tom

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A geração de ouro foi uma maravilhosa conjugação cósmica. Ter figuras como João Pinto, Rui Costa e Figo na mesma equipa marcou a evolução para o futuro. E Portugal sofreu, cresceu e festejou com eles. Hoje parece surreal lembrar que o Estádio da Luz recebeu mais de 100 mil pessoas para uma final de um Mundial de sub-21.

 

Ganhámos responsabilidade. Ganhámos arrogância. Em 1996, por exemplo, achei inconcebível, do alto do conhecimento sábio de um puto de 11 anos, que Portugal pudesse perder com a República Checa. Os anos passaram e o futebol tornou-se mais dramático. Sim, porque se sofre muito menos falhando o apuramento para o Mundial-1998 do que chegar a uma meia-final do Euro-2000 e ver tudo cair abruptamente.

 

Dezasseis anos depois, com escândalos, desilusões que não se vão esquecer nunca e outras que foram mais fáceis de superar, o dia chegou. E quando algo que nos parece destinado há tanto chega finalmente, o estilo com que foi alcançado perde importância. Não é isso que fica na história.

 

Mais uma vez, milhares de bandeiras apareceram e fizeram transpirar esse orgulho. Todos estávamos mais adultos, é claro, mas com o mesmo brilho presente nos olhos de uma criança. Ter a sorte de o viver será algo que não poderá ser nunca ignorado. Porque Eusébio esteve perto em 1966 e falhou. Porque Bento esteve perto em 1984 e falhou. E ambos morreram sem o ter visto. Eles e milhares de portugueses incógnitos, o meu avô, os avós de outros, os pais, os amigos que ficaram para trás sem chegar a este momento.

 

Foi o primeiro. E esse nunca se esquece.

 

Portugal estará diferente

 

Eder tornou-se um herói. Não interessa que ninguém gostasse dele, que se preferissem outros avançados, que se fizessem piadas de todo o tipo com a capacidade do avançado do Lille em fazer a diferença. Os heróis não precisam de ser famosos. Os heróis não precisam de ser os melhores nem de ser aqueles por quem toda a gente espera. Só têm de aparecer, estar lá no momento certo e virar o rumo da história.

 

Portugal reconheceu isso. Eder ganhou um título, prometeu um feriado e perdeu o acento. E, lá no fundo, num grito rouco e agradecido, recebeu um sentido obrigado de todos nós. A sua vida será diferente para sempre, aconteça o que acontecer daqui em diante. Quando morrer, seja em 2017 ou em 2077, terá sempre o rótulo associado de “o autor do golo que deu o primeiro (será o único?) título europeu a Portugal”.

 

Portugal não esquece. Como não esqueceu Ronaldo. Recuemos até 2004, ano em que o extremo de então 19 anos conquistou milhões de portugueses. Hoje, Cristiano está demasiado polarizado: há quem o ame e quem o odeie. Na altura, era mais genuíno, mais puro, representava melhor o português.

 

Os dados da Federação Portuguesa de Futebol demonstram-no bem. Ao disponibilizar as fichas de todos os elementos inscritos desde sempre (certamente ainda haverá falhas mas a partir do momento em que o meu pai aparece num clube da III Nacional na década de 80 sem nunca ter passado de massagista oficioso, percebe-se que o grau de detalhe é enorme), permitiu descobrir que há 20 “Cristiano Ronaldo” inscritos que não o Bola de Ouro.

 

Desses 20, metade nasceram no ano do Euro-2004, quando Ronaldo foi o símbolo da seleção. Há casos entre 2003 e 2008 mas o grande impulso foi no Europeu, não quando começou a dar cada vez mais nas vistas no Manchester United ou quando assumiu um papel de maior liderança em 2006.

 

O novo herói

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Eder poderá ser o novo “Cristiano Ronaldo” daqui a doze anos. O fenómeno não tem nada de único. No Brasil, começou-se a assistir à invasão de Romários nascidos após o Mundial-1994 logo em 2009, durante o torneio de formação mais importante do Rio de Janeiro. Do outro Ronaldo então, nem deverá haver dúvidas.

 

Mas Eder será o nosso. E eu nem sequer vi o golo dele. Não o vi entrar em campo. Não o vi festejar. Não vi sequer um segundo em campo, pelo menos em direto. E, se voltasse atrás, voltaria a fazer tudo igual.

 

Quando o apito inicial foi dado, estava num avião. Quando Ronaldo se lesionou, estava à espera da bagagem. Quando Eder entrou tinha acabado de ter um acidente menor num autocarro que transportava uns 50 portugueses.

 

A esmagadora maioria desesperava para poder chegar a tempo de ver o final do jogo, que na altura ainda não tinha chegado ao intervalo. Eu desejava para que só pudesse ter a oportunidade de ver alguma coisa quando já estivesse tudo definido.

 

Não foi superstição. Não foi por nervosismo. Talvez tenha sido por proteção. Sendo impossível de fazer o devido distanciamento durante o jogo – o valor do roaming à conta das mensagens que foram voando para cá e para lá a cada momento quente do jogo fala por si –, foi mais tranquilo.

 

O Portugal-Grécia deixou marca em muita gente e eu não fui exceção. Até o hino da Nelly Furtado se tornou impossível de ouvir sem associar a uma desilusão coletiva tão marcante. Em sentido contrário, Zara Larsson estará agora eternamente ligada ao título português.

 

O França-Portugal não teve hipótese de deixar marca. Quando pus o primeiro pé de fora do autocarro, o jogo estava nos descontos do prolongamento. Mesmo que quisesse, mesmo que tivesse corrido para a sala onde havia um ecrã gigante, já só teria tido a oportunidade de ver o charuto de William Carvalho (sim, o árbitro já tinha apitado mas na minha mente esse será para sempre a última ação do jogo) para o ar.

 

O golo do Eder… não vi. Não o vi em direto. Assisti à festa no relvado, à festa na bancada e ao levantar do troféu antes de passar os olhos, pela primeira de pelo menos dezenas de vezes, pelo golo de Eder.

 

E aí só me restou imaginar. Imaginar como teria sido se estivesse a sofrer há 109 minutos. A ver a defesa de Patrício, o cabeceamento falhado de Griezmann, a bola no poste em cima do prolongamento antes de o avançado do Lille ter construído história com o pé direito. Como teria sido o grito, mesmo que mudo, de revolta por sentir que finalmente a glória iria pender para o nosso lado.

 

Não o tive. Mas ver um “AET” [after extra-time] a garantir que o jogo tinha terminado no ecrã do telemóvel conseguiu ter um efeito igualmente redentor. Era disto que estávamos à espera há tanto tempo. Que tantos sonharam, mereceram e nunca conquistaram. O tempo do fracasso e da glória adiada estava ultrapassada. Foi um momento de despedida.

 

E soube bem. Mesmo sem ter visto o golo do Eder. O golo não vale pelo golo, vale pelo que significou. E aí, vendo-o ou não, gostando da seleção ou não, todos sabemos reconhecer que não foi um momento qualquer.

 

Eder pode ter perdido o acento no nome mas ganhou um lugar na história. Eu não vi o golo dele. E voltaria a fazer tudo da mesma forma.

 

RPS