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É Desporto

Drogba. O apelo de joelhos para acabar com a guerra civil

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O apuramento da Costa do Marfim para o Mundial serviu de mote para uma declaração emocionada no balneário no Sudão. O acordo de paz ainda demorou a ser alcançado mas o futebolista do Chelsea desempenhou um papel essencial no retomar das negociações de paz entre os rebeldes muçulmanos do norte e o governo cristão no sul.

 

 

Um momento perfeito

 

Sudão, 8 de outubro de 2005. A Costa do Marfim faz história. Com um triunfo por 3-1, aproveita o empate dos Camarões de Artur Jorge – com um penálti falhado no sexto minuto dos descontos – e garante o apuramento inédito para o Mundial da Alemanha.

 

No balneário, os jogadores estão eufóricos. Um colega de equipa sussurra ao ouvido de Didier Drogba: «Está na hora de passarmos uma mensagem.» «E aí, improvisámos», recordou o então avançado do Chelsea.

 

«Homens e mulheres da Costa do Marfim, do norte, do sul, do centro e do oeste. Hoje provámos que todos os marfinenses podem coexistir e jogar juntos com um objetivo único: a qualificação para o Mundial. Prometemos-vos que a celebração ia unir o povo. Hoje, imploramos-vos, de joelhos: Perdoem! Perdoem! Perdoem! Um país em África com tanta riqueza não pode acabar em guerra. Por favor, guardem as armas. Organizem eleições. E tudo será melhor.»

 

A guerra civil na Costa do Marfim arrastava-se desde 19 de setembro de 2002. O país estava dividido entre o norte e o sul, entre os rebeldes muçulmanos e o governo cristão. A seleção estava farta de jogar rodeada de mecanismos de segurança e queria pôr termo ao problema. Queria ter novamente um ambiente descontraído, uma atmosfera passível de festejos. O apuramento para o Mundial foi a oportunidade perfeita.

 

«Foi algo que disse instintivamente», garantiu Drogba. A ideia-chave existia mas as palavras não tinham sido pensadas, apenas sentidas. Estava na altura. «No íntimo, queríamos que tudo parasse. Quando a Costa do Marfim joga, o país está unido. Pessoas que não falam umas com as outras, festejam juntas.»

 

A influência de Drogba

O apelo sentido fez efeito. Os dois lados ficaram sensibilizados pelo momento que a Costa do Marfim estava a passar e retomaram as negociações de paz. Mas o caminho estava longe de estar terminado.

 

A tensão diminuiu mas o acordo de paz continuou a ser um tema muito delicado. A raiz do problema estavas nas eleições. Antes das eleições de 2000, o governo tinha aprovado uma lei que obrigava os candidatos a serem filhos de pai e mãe nascidos no território da Costa do Marfim.

 

O pormenor deixava de fora Alassane Ouattara, o candidato mais carismático do norte. Num país em que 26% tinha, na altura, origem estrangeira, a manobra foi vista como uma estratégia para prolongar o poder dos cristãos do sul no governo.

 

Quando o acordo de paz foi assinado a 4 de março de 2007, a participação no Mundial já tinha passado: terceiro lugar no grupo C após derrotas com Argentina e Holanda e um triunfo sobre a Sérvia e Montenegro.

 

Mas a influência de Drogba mantinha-se. O capitão dos Elefantes tinha feito pressão para que um jogo de qualificação para a Taça Africana das Nações de 2008 fosse disputado em Bouake, cidade que tinha sido adotada pelos rebeldes como capital.

 

Poder do futebol

 

Madagáscar foi uma presa fácil. A 3 de junho de 2007, os ingredientes para a festa e para a unificação estavam todos reunidos. Dois meses antes, o presidente Gbagbo já tinha afirmado que a guerra tinha acabado.

 

«Ver os dois líderes lado a lado durante o hino nacional foi muito especial. Senti que a Costa do Marfim tinha renascido», disse Drogba, falando daquela tarde num estádio com mais de 25 mil espetadores. Aproveitando a importância da ocasião, o avançado tinha convidado um jornalista do The Telegraph para se juntar à festa.

 

Em Inglaterra – e na Europa -, poucos sabiam a verdadeira importância do futebolista. «Não sinto que tenha de dizer quem sou em África. Sei o que defendo e nada mais importa», justificou-se.

 

A festa alastrou-se dentro de campo. Como se esperava, os marfinenses não tiveram dificuldades para golear Madagáscar. As estrelas Salomon Kalou, Arouna Koné (2) e Yaya Touré marcaram os primeiros quatro golos e, num sinal que pode ser visto como muito simbólico, Didier Drogba fixou o 5-0 ao minuto 90.

 

Ali, onde a guerra tinha terminado simbolicamente, onde pela primeira vez os dois exércitos tinham coexistido sem conflito, Drogba assinava o último capítulo da batalha pela paz.

 

Os “troféus” de Drogba

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O palmarés do futebolista marfinense é rico em competições. Venceu uma Liga dos Campeões, quatro campeonatos de Inglaterra, um campeonato turco e quatro Taças de Inglaterra (só para citar alguns), mas nem todos os troféus são materiais.

 

«Nada vai superar o facto de ter ajudado a ganhar a batalha pela paz no meu país. Estou muito orgulhoso porque hoje não precisamos de um pedaço de troféu para celebrar na Costa do Marfim», afirmou, garantindo que nos festejos não há um Drogba de um lado e o povo do outro.

 

«Acima de tudo sou um deles. O dinheiro só chegou depois da minha educação, depois de me ter tornado um homem», garantiu.

 

É também por isso que Drogba recusa as acusações de se ter tentado intrometer na política, algo que seria «muito complicado» para ele. «Não é. O Drogba [fala na terceira pessoa] é apenas um rapaz da Costa do Marfim que quer ajudar o seu país. Não sou político, nunca serei. Mas se puder ajudar o meu país, ajudo. Não estou aqui para julgar o antigo presidente ou o novo. A única coisa que sei é que a população sofreu muito. Muitos foram mortos. Tornou-se obrigatório falarmos.»

 

O marfinense não aceitava as transformações no país em que tinha vivido até aos cinco anos. «Deixei a Costa do Marfim com uma certa imagem: era linda, as ruas eram adoráveis, havia verde por todo o lado e as pessoas eram felizes. E quando voltei uns anos depois, vi uma mudança real. Foi nessa altura que comecei a fazer perguntas», disse.

 

Situação demasiado volátil

 

A instabilidade na Costa do Marfim prolongou-se com os anos. O acordo de paz e a promessa de marcar eleições trouxe acrescidas dificuldades e a votação passou por seis adiamentos consecutivos até ser concretizada em outubro de 2010.

 

Uma vez mais, a revolta instalou-se. O presidente Laurent Gbagbo, no poder desde 2000, recusou-se a aceitar a derrota para Alassane Ouattara.

 

Os conflitos não se eternizaram. As forças internacionais e a ONU reconheciam Ouattara como presidente e foi uma questão de tempo até Gbagbo ser deposto e preso em abril de 2012.

 

Em 2015, em novo processo eleitoral, Alassane Ouattara foi reeleito com 83,66% dos votos.