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É Desporto

Conor McGregor. Um peixe fora de água

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Ricardinho é o melhor jogador do mundo do futsal e chegou a ter tudo acordado para treinar com a equipa principal de futebol do Benfica. Madjer é o melhor jogador do mundo de futebol de praia mas foi rejeitado pelo V. Guimarães em 2001. McGregor não estará apenas fora do seu ambiente no combate contra Mayweather: estará a defrontar o tubarão mais temível de um aquário muito diferente. 

 

As duas faces de um irlandês

 

Crumlin Road não faz parte dos guias turísticos de Dublin. Há até quem tenha medo de pronunciar o nome, muito menos ameaçar uma visita. Ao longo dos anos tornou-se também uma espécie de fronteira entre territórios de rivais, gangues e traficantes de droga que não se mostram especialmente abertos a visitas, mesmo que amigáveis.

 

Conor McGregor nasceu no epicentro desde conflito. Uma vez, quando era mais novo, seguia a cortejar uma rapariga quando foi atacado precisamente por cruzar a Crumlin Road. O jovem não tinha medo do confronto, do soco ou do pontapé, mas ali a vida era real. Não se tratava apenas do bullying, do qual também foi vítima, mas sim de uma vital integridade física.

 

Os assassinatos eram comuns e os membros dos gangues não precisavam de ter um motivo específico para tal. Estar no sítio errado à hora errada poderia ser o suficiente para McGregor ter uma navalha a trespassar-lhe o coração e a enviá-lo desta para melhor.

 

Um soco não tinha esse poder. Mas mesmo assim, aos 12 anos, já depois de ter jogado futebol e fantasiado com uma carreira profissional à imagem de outro irlandês, Denis Irwin, que alinhou no “seu” Manchester United, decidiu que estava na altura de calçar umas luvas.

 

Mais inconfundível do que Paneira

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Vítor Paneira, Veloso… Conor McGregor. O filho do bairro social, construído pelo governo irlandês na década de 30 para albergar os mais pobres que viviam em barracas, demonstrou desde o início um estilo para o boxe único.

 

Ser canhoto ajuda a confundir mas mesmo assim os seus gestos e movimentos não faziam parte do manual. Confundia adversários e tornava-se imprevisível. Era impossível perceber o que lhe ia na mente, tal como hoje, em que parece ter uma personalidade mediática extravagante e outra privada, mais recatada.

 

Com 18 anos, abraçou uma nova aventura nas artes marciais mistas e renegou os estudos, contra a vontade do pai e conselhos de uma professora. Mas não seguiu pela má vida, por muito que pudesse ser aliciado pelos amigos de sempre.

 

McGregor era jovem, mal pago e trabalhava como canalizador. Os amigos traficavam droga e andavam envolvidos em negócios clandestinos. «Nós éramos todos traficantes de droga e estávamos cheios de dinheiro. O Conor não tinha nenhum», relembrou Johno Frazer, falando da época em que o lutador resistiu, sentindo que havia uma finalidade.

 

Crescer sem esquecer as raízes

 

A família de McGregor acabou por se mudar para um bairro mais calmo mas o jovem nunca esqueceu o ambiente em que foi moldado: «Torna-nos mais fortes. Aquela é a minha gente».

 

A carreira nos combates demorou a arrancar e foi ainda mais lenta no que diz respeito a tornar-se lucrativa mas a estreia na UFC, em 2013, marcou o início da figura que é hoje.

 

Tornou-se um rei do octógono, capaz de ostentar os títulos mundiais de duas categorias em simultâneo. Em 2015, por exemplo, precisou de apenas 13 segundos para derrotar José Aldo. Também perdeu, é certo, contra Nate Díaz em 2016, mas a desforra, cinco meses depois, demonstrou que quando mete uma coisa na cabeça é incapaz de parar até ter sucesso.

 

Duelo com Mayweather Jr.

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O tubarão do octógono não passa de um peixe fora de água nos ringues. É certo que tem formação como pugilista, e até são essas as qualidades mais distintivas nos seus combates, mas nunca combateu como profissional num duelo de boxe.

 

Essa diferença de dimensão não o impediu de fantasiar com um duelo com Floyd Mayweather Jr., imbatível pugilista com vitórias em todos os 49 combates. Chamemos as coisas pelos nomes: vai ser um espetáculo de circo, uma experiência em que se tira uma estrela de um ambiente e se coloca a lutar pela vida noutro.

 

Como Ricardinho esteve perto de fazer quando tinha tudo acordado para treinar com o Benfica. Ou quando Madjer prestou provas, sem sucesso, no V. Guimarães. E um pouco como se chegou a pensar fazer num frente a frente entre Usain Bolt e David Rudisha numa prova dos 400 metros. Aí, no entanto, seriam dois tubarões a nadar num aquário intermédio.

 

A improbabilidade de ter uma palavra a dizer não o impediu de fazer tudo o que estava ao seu alcance. Depois de adquirir uma licença para combater profissionalmente em novembro de 2016, o acordo tornou-se oficial em junho.

 

Não se espera que McGregor vença. Não se espera que McGregor dê luta. Mas a maior incerteza, e também o maior motivo de interesse para o combate que custará um mínimo de quase 90 dólares a cada espetador nos EUA, é saber o que poderá fazer o irlandês.

 

Perder? É muito provável. Será criticado? Talvez, afinal tudo parece não passar de um circo. Mas tem garantidos 75 milhões de dólares – valor base sem bónus adicionais – e a certeza de que o futuro será ainda melhor. É o que diz sempre: os críticos vão acabar por comer as próprias palavras enquanto McGregor poderá comer lagosta todos os dias até morrer.

RPS