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É Desporto

City-Newcastle. Um dia em Manchester

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Bater penáltis numa baliza de Wembley (Euro-1996), com Maradona, António Simões e Cruyff por perto. Isso tudo e um hat-trick do argentino com quem me cruzei em 2012 na Praia da Poça, no Estoril. Assim foi o dia em Manchester, para ver aquele treino defesa-ataque contra o Newcastle que terminou 3-1 para o City. 

 

Da Poça para Manchester 

 

Aquele segundo cappuccino ainda no hotel levou-me a folhear as páginas dos jornais que não fazem barulho, as dos tempos modernos. O The Guardian prometia um grande onze de Guardiola para a recepção ao Newcastle de Rafa Benítez, com David Silva, Kevin de Bruyne, Sané e Agüero (com alguma tristeza Bernardo Silva ficaria de fora).

 

À miúda bonita do outro lado da mesa, contei uma breve história: «Uma vez o Agüero passou por mim na Praia da Poça, no Estoril». Os citizens tinham ido jogar a Alvalade para a Liga Europa. Eu ia ao telefone com o meu amigo Lucas e, como quem não é quem é, lá caminhava nas calmas e sem t-shirt Sergio Agüero, com outros dois jogadores que escapam à memória. Lá fiquei sozinho no hotel entre lembranças e os jornais do futuro e a magicar se eles iam jogar como é costume...

 

Estavam três, quatro graus e lá nos fizemos ao caminho pela Princess Street. Manchester é uma cidade industrial, com alguns pormenores bonitinhos quando os olhos querem ver. O tempo acinzenta a beleza, mas muitas horas depois já lhe colávamos outro encanto. O destino era o Museu do Futebol, nos Cathedral Gardens. «Drama, History, Skill, Art, Faith, Style, Passion, Football», é assim que o manual de instruções descreve esta experiência na máquina do tempo.

 

Começa com o Hall of Fame, com muitas frases, vídeos e fotografias de lendas. No primeiro andar vivem histórias do jogo, com botas, camisolas e troféus a perder de vista. Por lá até descansa a bola da final do Campeonato do Mundo de 1966, a única glória da selecção deste país. Há uma zona para ouvir relatos de golos míticos. Coloco os auscultadores e, naturalmente, escolho Diego Maradona no Argentina-Inglaterra de 1986 pela BBC. A diferença para a tal lengalenga de Víctor Hugo Morales é deliciosa de notar, embora termine com um sereno «é por isto que ele é o melhor jogador do mundo». Ámen.

 

Marcar penáltis em «Wembley»

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A seguir, já não bastava este texto ser muito gonzo, o piso 2 oferecia a oportunidade de o visitante ser protagonista. A sala dos penáltis obrigou a uma espera de 20 minutos. Afinal, era uma bela oportunidade para bater penáltis numa baliza que tinha postes de Wembley no Euro-1996, que foram testemunhas das vitórias à Escócia (2-0, Shearer, Gascoigne), Holanda (4-1, Shearer, Sheringham, Shearer, Sheringham) e à Espanha, nos quartos.

 

Estes postes viveram a emoção de perto e tanto Hierro como Nadal não foram capazes de fazer o que aqui o vosso escriba conseguiu em três ocasiões. Pois claro que batemos para o lado esquerdo do guarda-redes digital, pois é o mais fácil para os destros, o ângulo do pé é limpinho, como se fosse um stick.

 

A mente beliscou-me e disse para bater um à Zidane vs. Portugal em 2000, mas tive juízo. O Euro-1996 teve um ponto final para a Inglaterra nas meias contra a Alemanha, também nos penáltis, em Wembley. Ou seja, imitei o que Häßler, Shearer, Strunz, Platt, Reuter, Pearce, Ziege, Gazza, Kuntz, Sheringham e Möller fizeram há 22 anos. A ovelha negra foi Southgate, o atual seleccionador dos «três leões».

 

Por ali podia ainda vestir-se a pele de árbitro, guarda-redes e outras coisas, mas o tempo apertava (sim, faltavam horas para o jogo), por isso optei por aquela caixa à Dortmund, para afinar o passe. O ritmo cardíaco acelerou e acusou falta de andamento. Continuemos, senhores. O piso 3 era dedicado a Pelé, o senhor futebol. Se lá em baixo, quando entrámos, demos logo de caras com Eusébio, aqui foi com a selecção das quinas na pequena sala de cinema. Entravam em campo os «Magriços» em 1966 vs. Brasil; pouco depois tocou-nos ver o golo de cabeça do gigante António Simões.

 

 

Durante o Euro-2016, numa longa conversa ao telefone, disse-me: «A sensação de fazer um golo no Campeonato do Mundo e ao Brasil é tão forte que nos apetece correr até ao fim do mundo». Para fechar em beleza a visita, encontrámos um livro sagrado: «Johan Cruyff, My Turn», a autobiografia do génio. Que pergunta, claro que comprei. Agora sim, estamos preparados para observar a obra do seu aluno mais brilhante.

 

Tradição é tradição (com bónus) 

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Era altura de meter alguma coisa no estômago e correr para o Etihad. Uber, please. Quinze minutos, já está. Já se veem muitas pessoas, embora ainda faltem quase três horas para o jogo. Comprado o cachecol da praxe, vamos ver o que se passa. Há música ao vivo, bom aquilo é mesmo um concerto, cerveja, há barracas com comida, animadores e convidados, ecrãs gigantes e uma loja enorme do clube.

 

Já cheira a futebol. E só queremos ir lá para dentro, fugindo à agitação. Fomos dos primeiros a entrar. Tiramos a pinta ao relvado, o céu não está aborrecido, compreendemos que o melhor futebol do mundo tem sido jogado ali, naquele retângulo. E o sossego chega, estás no sitio certo. Quando falam em «é só futebol», torna-se complicado explicar o feeling. Digamos que é a capital do sossego, a morada do lugar certo. Quanto mais perto daquele jardim, mais certo estás.

 

E lá entram eles para o aquecimento. Primeiro os guarda-redes, que se preparam numa baliza fora do lugar para não estragarem o território de sempre. A seguir, talvez 15 minutos depois, chegam os outros rapazes. Os olhos amarram logo Sergio Agüero, Kevin de Bruyne e David Silva. E seriam estes meninos a oferecer um dos pontos altos daquela tarde, pois o jogo nem sempre foi emotivo. Tresandou a treino defesa-ataque, ficando no ar a questão «como é que o Newcastle esteve vivo tanto tempo?». O futebol destes tempos às vezes parece andebol.

 

Ora bem, vejam lá este chocolate durante o aquecimento: 

 

 

Vivem para isto, jogos reduzidos. É aqui que despertam o pensamento rápido, usam os dois pés, resolvem mil e uma situações, escolhem linhas mais afastadas. Tudo o que fazem no jogo, pois jogam muitas vezes no último terço. O City aterrava neste relvado depois da derrota em Liverpool, algo inédito a nível interno este ano. Se o homem, de mão dada com Bielsa, afirma que o sucesso deforma, quão melhores vão estar depois de um desaire? Saberão reagir? A bola vai queimar? Estão frescos mentalmente para reagir?

 

Bem. Sim. Não. Sim. Resumindo: Otamendi está transformado num super defesa, jogando com um meio campo inteiro atrás dele, bom de bola, começando muitos ataques. Sólido. O general, como lhe chama Pep. Kevin de Bruyne foi o mais apático, não esteve nos seus dias, embora a qualidade de passe já nem mereça uma menção. Fernandinho é um bombeiro que sabe cantar, uma analogia inspirada no sonho de um garoto de 13 anos que entrevistei há uns tempos no Brasil. Era o Leandro e vive numa favela de Niterói. Sterling é irrequieto, mas não encheu o olho. David Silva ia liderando com e sem a bola, dando instruções para onde o jogo devia ir, tocando como poucos. Agüero, o maior goleador da história do City, celebrou mais três golos. Bom, o primeiro tenho dúvidas, mas ele disse que tocou com o cabelo. O segundo foi de penálti. No terceiro... uff... 

 

 

Sané fez isto. E foi quem mais gostámos de ver. Normalmente aberto, respeitando a ideia de Pep, mas com liberdade para depois procurar o espaço interior, como aconteceu neste caso. Competitivo até à quinta casa, inconformado. Corre com a bola, toca de primeira, roda sobre si próprio, vira-se para o jogo quando e como quer. É rápido, potente, ágil. E é canhoto, a vida é sempre mais bonita com os canhotos.

 

O Newcastle fez pouco, embora se tenha mantido vivo demasiado tempo para o que produziu. Shelvey talvez tenha sido dos melhores. Outra desilusão: os adeptos da casa. O Etihad estava praticamente lotado e apenas se ouvem as pessoas atrás da baliza a cantar. De resto, cri cri. Só muito de vez em quando se ouvia um «Come on City, Come on City» ou outra cantiga mais conhecida. Julgava que seria o jogo todo, mas também admito que este novo futebol aborreça as pessoas. City pega na bola, quer começar bem, arruma a casa, os outros já estão lá atrás à espera, como no andebol. Depois, sim, quando há uma aceleração, uma tabela, um espaço para correr, os adeptos ficam empolgados, mas dura pouco tempo. É pena.

 

Levamos na bagagem outras lembranças: um hat-trick de Agüero no jogo 200 dele na Premier League, a potência de Sané com um toque de bola sublime, as saídas de bola limpinhas, a agitação de Pep no banco, a decisão de Agüero de driblar sempre para onde parece que não vai e mais não sei quantas convicções sobre futebol. E, claro, também aquele Wonderwall dos Oasis depois do apito final. Fecho este texto enquanto acabo outro cappuccino, tal como no arranque, lembrando o resumo que vi depois no hotel, onde parecem ter acelerado o jogo. Ah, o The Guardian falhou num jogador: na esquerda não esteve Danilo, mas sim Zinchenko...

HTS