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É Desporto

Black Sox. O escândalo de corrupção que abalou os Estados Unidos

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Chicago White Sox eram os favoritos à conquista da World Series em 1919 mas oito jogadores deixaram-se seduzir por mafiosos e aceitaram manipular o desfecho da final contra os Cincinnati Reds. As confissões desapareceram durante o julgamento, dois anos depois, e os jogadores foram considerados inocentes, mas o recém-nomeado comissário da MLB quis dar o exemplo e baniu-os para sempre. 

 

Um plantel descontente e mal pago

 

Charles Comiskey é um dos nomes de proprietários mais famosos na história do basebol dos Estados Unidos, mais não seja porque deu nome ao estádio dos Chicago White Sox entre 1910 e 1990. Foi ele que comprou uma equipa de basebol em 1894, na altura os Sioux City Cornhuskers, e foi saltando de cidade em cidade até se sediar em Chicago, em 1900.

 

Como qualquer homem abastado, Comiskey era sovina. Fazia dos negócios o seu ganha-pão e cortava onde podia para garantir que o lucro crescia cada vez mais. Fez crescer os White Stockings (nome que os White Sox tiveram entre 1900 e 1903) e tornou-os uma das potências na modalidade.

 

Em 1919, a equipa tinha duas World Series conquistadas (1906 e 1917) e estava a caminho da terceira. Shoeless Joe Jackson era a maior figura da equipa mas o ambiente no plantel não era bom. Os White Sox tinham todas as condições – e eram os grandes favoritos – para derrotar os Cincinnati Reds mas o relacionamento com Comiskey estava cada vez mais comprometido.

 

Num dos arrufos, o proprietário recusou-se a pagar a lavagem dos equipamentos. Durante vários jogos, os White Sox jogaram num branco cada vez mais escuro, manchado pelo suor e pela terra, até que o proprietário cedeu… parcialmente. Ordenou que os equipamentos fossem lavados mas deduziu o valor aos salários.

 

Manipulação em jogo

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O esquema começou a 21 de setembro, no quarto de Chick Gandil (na imagem) num hotel em Nova Iorque. O jogador fez de ponte entre os White Sox e os apostadores, e os detalhes da combinação começaram a ser discutidos naquele dia.

 

A ideia já estava latente há muito – havia relatos de jogos manipulados durante a fase regular – mas viciar a World Series era uma empreitada muito maior. A lesão de Red Faber, principal lançador dos White Sox e visto como incorruptível, abriu caminho para as negociações, uma vez que a sua ausência ia abrir caminho para Claude Williams e Eddie Cicotte fazerem mais jogos como titulares.

 

A cereja no topo do bolo foi a presença de Shoeless Joe Jackson. A maior referência ofensiva da equipa não sabia ler nem escrever e era facilmente influenciável, sendo manipulado pelos colegas de equipa para dar maior força à negociação com os apostadores. Em sentido contrário, Fred McMullin não foi mais do que um oportunista: mal jogava mas ouviu os colegas a falarem do esquema a chantageou-os para entrar também.

 

A negociação era simples: os apostadores, que iam vender os resultados a mafiosos por todo o lado, comprometiam-se a pagar 100 mil dólares (20 mil por cada jogo perdido) a cada envolvido pela derrota na World Series. A bola estava do lado dos oito jogadores: Chick Gandil, Eddie Cicotte, Oscar Felsch, Shoeless Joe Jackson, Fred McMullin, Charles Risberg, George Weaver e Claude Williams.

 

Sinal de confirmação

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A World Series começou a 1 de outubro. Eddie Cicotte era o lançador inicial dos White Sox e, ao segundo lançamento, acertou com a bola no corpo de Morrie Rath. Podia ser apenas uma tentativa de intimidação ou um lançamento mal calculado, mas o significado era outro.

 

De acordo com o que estava previamente combinado, era o sinal de que os jogadores tinham aceitado ir para a frente com o esquema de viciar os resultados da final. Os Reds acabaram por vencer 9-1 no primeiro jogo e o mote estava dado.

 

A equipa de Cincinnati esteve sempre na frente da final. Venceu quatro dos primeiros cinco jogos e estava a apenas um triunfo do título quando os jogadores dos White Sox decidiram fazer pressão sobre os apostadores.

 

O combinado não estava a ser cumprido. Os valores não estavam a ser pagos na totalidade e, como tal, enviaram o recado de que iam começar a jogar para ganhar. Com vitórias por 5-4 e 4-1 nos dois encontros seguintes, a final ficou em 3-4 e os apostadores sentiram o toque.

 

Mas não da forma que os jogadores esperavam. As ameaças foram uma constante, inclusive para as famílias, e não houve alternativa que não seguir em frente com o combinado. Por isso, ao oitavo jogo, os Cincinnati Reds festejaram mesmo o título, num encontro em que Claude Williams fez história ao perder nas três vezes que foi o lançador inicial. Em sentido contrário, Dickie Kerr, que não estava envolvido, venceu nas duas vezes que foi titular.

 

Estalar do escândalo

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O desfecho da final foi sempre visto como duvidoso e houve quem tenha expressado essa desconfiança na imprensa mas o verdadeiro escândalo só deflagrou um ano depois, a 28 de setembro, quando Cicotte confessou a manipulação e deu início à investigação oficial.

 

«Não sei por que o fiz. Precisava do dinheiro. Tenho mulher e filhos», lamentou-se.

 

Charles Comiskey não perdeu tempo e, apesar de os White Sox estarem a lutar pelo título da Liga Americana, decidiu suspender os sete jogadores que ainda faziam parte da equipa - Gandil já não era profissional. Poucas semanas depois, a 22 de outubro de 1920, os oito jogadores e os cinco apostadores envolvidos foram acusados de conspiração para cometer fraude.

 

Em sentido contrário, Comiskey decidiu oferecer um bónus de 1500 dólares aos dez jogadores que não tinham estado envolvidos, compensando o dinheiro que venceriam caso tivessem conquistado o títulona World Series.

 

O julgamento começou no verão seguinte perante o olhar atento do mundo. A origem do dinheiro nunca foi descortinada e o desaparecimento das confissões e de outras provas valiosas do tribunal foi um volteface decisivo no veredito final.

 

No início de agosto, os membros do júri declararam a inocência dos oito jogadores.

 

Justiça paralela

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A decisão do tribunal não convenceu o juiz Kenesaw Landis, que entretanto tinha sido nomeado comissário da MLB para garantir que o desporto estava limpo.

 

Um dia depois do veredito, não deixou margem para dúvidas: «Independentemente da decisão, nenhum jogador que tenha perdido um jogo propositadamente, nenhum jogador que tenha prometido perder um jogo, nenhum jogador que tenha sabido que estava com um grupo de jogadores corrompidos e apostadores ou onde os detalhes da manipulação de um jogo estavam a ser discutidos, e não tenha revelado à equipa, poderá jogar profissionalmente outra vez».

 

Os oito foram banidos para sempre da MLB e a vida nunca mais foi a mesma. Nos anos seguintes, tentaram formar uma equipa que pudesse fazer jogos de exibição pelo país mas Landis fez questão de garantir que isso nunca teria pernas para andar, fosse ameaçando os jogadores que aceitassem o convite com castigos iguais ou a ameaça de retirar as licenças aos estádios que permitissem que lá se disputassem encontros.

 

Shoeless Joe Jackson e George Weaver destacaram-se pela constante luta de limpeza de imagem, clamando inocência até à morte, mas nunca o conseguiram.

 

A manipulação custou cara aos White Sox, que depois de terem oferecido a World Series em 1919 só regressaram a uma final em 1959 e só voltaram a vencer um título em 2005.