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É Desporto

Áustria vs. RFA. A vitória do orgulho

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Os austríacos estavam eliminados, fora da final e da atribuição do terceiro lugar. Mas do outro lado havia uma Alemanha (RFA) e a memória de um orgulho recalcado pela Alemanha Nazi na década de 30. Germânicos eram campeões em título e sonhavam com a revalidação mas Córdoba (Argentina) assistiu a uma história diferente. A um momento memorável. 

 

Não há mal que nunca acabe…

 

Alemanha e Áustria partilham muito mais do que a língua e uma fronteira. A proximidade geográfica tornou os dois países inseparáveis em vários momentos durante a história e o desenrolar da II Guerra Mundial, especialmente com a anexação da Áustria em maio de 1938, criou uma nova dinâmica.

 

O poder sempre pareceu estar do lado alemão mas o futebol foi um bom escape para os austríacos. Em 1931, por exemplo, as duas seleções defrontaram-se duas vezes e os resultados foram esmagadores: 6-0 a 24 de maio de 1931 e 5-0 a 7 de junho de 1931.

 

Os dois países já se tinham defrontado oito vezes na história e os austríacos tinham cinco triunfos, um empate e duas derrotas. A partir daí, tudo mudou drasticamente. No Mundial-1934, encontraram-se no jogo de atribuição do terceiro lugar e o triunfo foi para a Alemanha Nazi.

 

Quatro anos depois, já não se puderam defrontar. A Alemanha tinha anexado a Áustria e os melhores jogadores austríacos tinham sido recrutados para defender as cores alemãs no Mundial de França. Resultado? Um enorme fracasso e expectativas goradas.

 

Do nazismo para Córdoba

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A destruição do país e a perda forçada de identidade não afetou o ressurgimento do talento austríaco. Em 1954, na primeira conquista mundial alemã, os austríacos estiveram em excelente plano e terminaram na terceira posição, naquela que continua a ser a melhor campanha da sua história.

 

O pior veio depois. A Áustria perdeu o talento, perdeu o jeito, perdeu a capacidade de reunir boas equipas que fizessem a diferença nos grandes palcos. E, como tal, as campanhas nas fases finais, quando existiam, passaram a não ser mais do que um passeio alegre com prazo de validade.

 

Quando a fase final do Argentina-1978 chegou, as memórias dos grandes momentos não eram mais do que histórias passadas de geração em geração, não apenas no plano global como também nos duelos com a Alemanha. Nos 12 jogos desde os triunfos de 1931, os austríacos tinham conseguido três empates e somado nove derrotas. Ninguém com menos de 50 anos tinha capacidade para se lembrar do último triunfo austríaco sobre a Alemanha. Córdoba veio mudar isso.

 

Batalha pelo orgulho

 

O quadro competitivo do Mundial-1978 era muito diferente daquele que hoje conhecemos. Depois de uma primeira fase de grupos com 16 equipas, havia uma segunda com oito. Aí, os vencedores disputavam a final e os segundos classificados iam para o jogo de atribuição do terceiro lugar.

 

A Áustria e a Alemanha (RFA) ficaram integradas no grupo A, com Holanda e Itália. Os austríacos, apesar de terem vencido um grupo com Brasil, Espanha e Suécia, estavam a jogar acima das suas capacidades e isso percebeu-se logo no início da segunda fase de grupos, devido à goleada sofrida contra a Holanda (1-5). Os alemães, por seu turno, começaram com dois empates consecutivos (0-0 vs. Itália e 2-2 vs. Holanda) e ficaram a precisar de um milagre para o último jogo… com a Áustria.

 

As contas eram fáceis de fazer mas o cenário roçava o impossível. A Áustria estava eliminada e jogava apenas pelo orgulho, já a RFA precisava de vencer pelo menos por cinco golos e esperar que o Holanda-Itália terminasse empatado.

 

Cedo se percebeu que a goleada estava fora das cogitações, pelo que o segundo melhor cenário seria esperar conseguir terminar no segundo lugar e avançar para o jogo do terceiro lugar. O problema é que os austríacos não quiseram ajudar.

 

A RFA foi para o intervalo a vencer com um golo de Rummenigge mas Berti Vogts fez um autogolo no primeiro quarto de hora da segunda parte e Krankl deixou os austríacos em vantagem aos 66 minutos. Quando Hölzenbein restabeleceu a igualdade aos 72 minutos, pensou-se que os alemães iriam pressionar até ao final mas o que acabou por acontecer foi o bis de Krankl, perto do fim, aos 87 minutos.

 

Para a RFA, foi o fim de uma campanha marcada pela desilusão, de uma seleção com Rummenige, Sepp Maier, Berti Vogts, Dieter Muller e companhia que queria revalidar o título de 1974. Para a Áustria, foi o momento alto das últimas décadas. O primeiro triunfo em 47 anos sobre um país que lhe tinha feito a vida negra, dentro e fora de campo.

 

Foi uma memória que ficou guardada na mente de gerações inteiras. Hoje, 40 anos depois, as assimetrias entre as duas seleções parecem cada vez maiores. A Alemanha é uma crónica favorita e vai entrar na fase final novamente como campeã em título, já a Áustria nem apurada foi. Pior, os austríacos não derrotam a Alemanha desde…1986, há 32 anos. Teremos novo grande momento agendado para breve?