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É Desporto

ASEC Mimosas. A histórica revolução adolescente

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Supertaça africana em 1999 foi ganha com uma equipa totalmente composta por adolescentes e em que só um – o guarda-redes Boubacar Barry – já tinha 19 anos. Era a geração de Kolo Touré e Didier Zokora. 

 

Revolucionar a montante

 

O presidente Roger Ouégnin desenvolveu uma estratégia para fazer do ASEC Mimosas uma das maiores potências marfinenses e africanas na década de 90. Mais do que conseguir contratar os melhores jogadores da região, numa rivalidade acesa entre os clubes de Abidjan, o truque estava em oferecer as melhores condições possíveis aos jovens para se desenvolverem enquanto homens e atletas.

 

Era uma verdadeira aposta na formação, dependente de vários ingredientes que, todos juntos, formaram uma receita infalível. O ASEC dava condições de treino aos mais jovens e depois havia espaço na equipa profissional garantido. Quando se juntou a ponte aérea para a Europa à equação, deixou de haver dúvidas sobre qual era o clube mais apetecível.

 

É moda dizer que uma equipa só pode ambicionar ganhar alguma coisa se fizer uma aposta mista entre jogadores experientes e talentos da formação. No ASEC, em 1999, não houve margem para jogar pelo seguro. Meses antes, no final de 1998, o clube tinha vencido a Liga dos Campeões Africanos e tinha encontro marcado com o Espérance de Tunis para a Supertaça africana.

 

Do plantel que tinha vencido o título, poucos sobravam. Uns saíram para a Europa, sobretudo para França, enquanto outros se mantiveram em África mas foram atrás de propostas mais vantajosas, sobretudo na região do Magrebe.

 

Desconfiança dos adeptos

 

Ouégnin não tinha margem para evitar o êxodo. Nem podia. Afinal, estaria a contrariar a verdadeira filosofia do clube e a trair a confiança que se tinha gerado entre todos os agentes que formavam a dinâmica de sucesso.

 

Os adeptos não compreenderam. Não queriam acreditar que o presidente tinha posto em risco o resultado desportivo de um clube e arriscado a humilhação completa na Supertaça. Estavam frustrados, zangados, e boicotaram o apoio ao ASEC no jogo.

 

Verdade seja dita, havia razão para estar apreensivo. Entre os 13 jogadores que alinharam frente ao Espérance de Tunis, só um já tinha feito 19 anos. E era o guarda-redes. Em sentido contrário, dois dos jogadores utilizados não tinham mais do que 15 anos.

 

«Não tivemos outra solução que não escolher um conjunto de miúdos», confessou o presidente. «Lembro-me de o guarda-redes do Espérance – Chorki El Ouaer, que era uma figura castiça na altura – olhar para os nossos jogadores e começar a rir com os colegas e a equipa técnica. Lembro-me de pensar como é que alguém tão pequeno como o Bakari Koné [17 anos, suplente não utilizado] iria olhar para eles.»

 

Uma geração de ouro

A idade não importava, apenas a confiança de presidente e do treinador argentino, Oscar Fulloné, na equipa. Tinham razões para isso. Com 19 anos havia Boubacar Barry, o guarda-redes. Com 18 anos havia Didier Zokora, Aruna Dindane e Wognonwon Pele. Com 17, Seydou Kanté, Kolo Touré, Yapi Yapo, Abdoulaye Djire e Venance Zézé. Com 16, Siaka Tiené e Mamadou Dansoko e, finalmente, com 15 havia Antonin Koutouana e Sekou Tidiane.

 

Destes 13 que foram utilizados, apenas dois não conseguiram ser internacionais pela equipa principal da Costa do Marfim. E Barry, Kolo Touré, Didier Zokora e Aruna Dindane tornaram-se figuras de referência na melhor geração de sempre dos Elefantes. O talento existia, chegaria para ganhar?

 

Um golo de Venance Zézé na primeira parte deu a vantagem ao ASEC até aos 88 minutos, altura em que Kolo Touré cometeu penálti ao desviar a bola com a mão. O guarda-redes El Ouaer, que tanto se tinha rido no início, percorreu os 100 metros do campo para assumir a responsabilidade e igualar a partida a um golo.

 

Frescura fez a diferença

 

A Supertaça ia ser decidida no prolongamento. «Olhei para os rapazes e não estavam ansiosos por chegar à linha e beber água. Pareciam frescos, nada preocupados», recordou Ouégnin, falando de uma fase em que a juventude parecia ser claramente uma vantagem a favor dos marfinenses.

 

E foi mesmo. O suplente Aruna Dindane arrasou com a defesa tunisina no prolongamento, marcou logo a abrir e ainda deixou o caminho disponível para Zezé bisar. A equipa de miúdos adolescentes, a esmagadora maioria em idade júnior, ia vencer a Supertaça Africana contra a expetativa de todos, inclusive dos adeptos.

 

«As notícias sobre aquele desempenho correram mundo», afirmou o presidente, justificando nova razia num clube que ainda iria lançar talentos como Eboué, Yaya Touré ou Romaric. «Não podemos impedir um adolescente de sair à procura de uma soma fantástica de dinheiro e construir um futuro lá fora.»

 

«Acho que este clube esteve na vanguarda da modernização do futebol marfinense, mas também temos de reconhecer que, quanto mais sucesso se tem, mais temos de conviver com o êxodo», acrescentou.