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É Desporto

Allie Kiick. Uma história de superação que não pode ser partilhada com o pai

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Norte-americana resistiu a quatro operações no joelho, a uma mononucleose agressiva e a um cancro da pele que a afastaram dos courts durante dois anos. Regressou e passou imaculada na qualificação do US Open, garantindo uma presença inédita num grand slam. Hoje vai disputar a primeira ronda mas já sabe que não vai poder contar com o apoio nem o orgulho do pai, um ex-jogador da NFL que sofre de demência. 

 

Quando o mundo para de rodar

 

Estávamos em agosto de 2015. Allie Kiick tinha vinte anos e ocupava o 259.º lugar do ranking WTA. Uma de muitas lesões no joelho tinha-a impedido de competir no mês anterior mas essa estava longe de ser a pior notícia.

 

Foi a 18 de agosto que todos passaram a saber, através da conta oficial da tenista no twitter, o que se passava: «Entristece-me dizer que vou ter de ficar mais tempo afastada do ténis. Tenho trabalhado muito para curar a minha segunda lesão no joelho mas recebi um telefonema de partir o coração a dizer que tinha sido diagnosticada com um cancro da pele chamado melanoma. Infelizmente, tenho uma variante muito rara e má. Felizmente, foi detetado numa fase inicial e estamos a tomar todos os passos necessários para impedir que se alastre mais».

 

Os tweets de Kiick não ficaram por aqui: «Tem sido um ano e meio extremamente difícil para mim mas estou ansiosa para conseguir ultrapassar tudo e voltar a fazer aquilo que amo. Sei que Deus tem coisa boas para mim no futuro e vou manter a moral em alta. Agradeço-vos a todos pelo apoio.»

 

A carreira de Kiick estava longe de fazer parte da elite. Ainda não tinha jogado no quadro principal de um grand slam, excepto na variante de pares, no US Open em 2012 e 2013, e os principais resultados eram alcançados no circuito ITF.

 

A recompensa dois anos depois

 

Allie Kiick confirmou o diagnóstico há dois anos e doze dias. Hoje, nos courts do US Open, a tenista vai finalmente conseguir a estreia, confirmando o que sempre desejou: voltar por cima e provar que era capaz de ultrapassar as dificuldades.

 

A norte-americana tem 22 anos e está na 643.ª posição do ranking WTA. Conseguir um lugar no quadro principal não era fácil, especialmente tendo em conta o que tem sido o seu passado recente. Depois do diagnóstico, Allie só voltou a jogar em julho de 2017 e chegou a Flushing Meadows com apenas seis jogos nas pernas – todos em torneios ITF.

 

O mundo agora está completamente diferente. Depois de conseguir 3854 dólares em torneios esta época, já tem 50 mil assegurados só por marcar presença no encontro contra a australiana Daria Gavrilova, na primeira ronda do grand slam norte-americano.

 

Kiick está feliz e tem razões para isso, mas nem tudo é perfeito na sua vida. Este é um dos pontos altos da sua carreira mas não o pode partilhar com o pai: «Até lhe podia ligar e dizer que me tinha qualificado, mas ele não entenderia. Ele sabe que tenho estado lesionada, mas nunca percebe bem. Acha que foi o meu tornozelo quando na verdade foi o meu joelho».

 

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Jim Kiick não é apenas um pai esquecido, que ignora os feitos da filha e que confunde sempre tudo. Jim Kiick é um antigo jogador da NFL (fez parte da equipa dos Miami Dolphins que não perdeu qualquer jogo em 1972 e ganhou duas vezes a Super Bowl) e sofre de demência, que tem vindo a ser associada cada vez mais às pancadas violentas que os jogadores sofrem durante a carreira no futebol americano.

 

Em maio, Allie Kick e os irmãos juntaram-se para fazer com que Jim fosse viver para uma instituição de apoio, uma vez que a sua casa estava já impossível. «Ele age como uma criança, de todas as formas, e já não sabe tomar conta de si. Dizemos-lhe o que fazer e ele ouve, mas andava a fazer cocó nas calças, todas as coisas. Tinha-se tornado numa criança pequena outra vez», explicou há três meses à Sports Illustrated.

 

«Não há dúvida de que sofreu traumas no cérebro significativos», disse um médico, garantindo que isto é muito mais do que Alzheimer, de demência no lobo frontal ou demência associada à doença de Parkinson.

 

Encontrar uma alternativa

 

O passado de Allie Kiick é um carrossel de momentos maus. O cancro na pele, as quatro operações aos joelhos e uma mononucleose. Mas a atleta é jovem e foi à luta, garantindo que encontrava uma forma de sobreviver e ganhar a vida enquanto fantasiava com o regresso.

 

A solução encontrada foi dar lições de ténis por 25 dólares à hora e voltar a estudar. «Sinto que amadureci imenso. Ter um trabalho normal, ir à escola, ver as coisas da perspetiva de uma pessoa… normal. Recebia 25 dólares à hora mas era um trabalho árduo. Eles tinham cinco anos e era difícil. Posso dizer, sinceramente, que nunca mais quero voltar a ser treinadora. Nunca mais!»

 

A vida está a dar uma grande volta e pouco resta da Allie Kiick de há um ano, que também estava em Nova Iorque, mas de muletas e a recusar-se a ir ao US Open, tal era a desilusão. «Este torneio tem sido diabólico para mim», comentou agora, recordando que em 2012, 2013 e 2014 tinha perdido na primeira ronda da qualificação.

RPS