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É Desporto

Albert Gudmundsson. O Arsenal, o Milan e… o ministério das Finanças

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Islandês foi o primeiro futebolista profissional a sair da ilha e a jogar nos principais campeonatos europeus, ainda na década de 40. Quando regressou, enveredou por uma carreira política, foi ministro das Finanças, da Indústria e candidatou-se à presidência. O legado é impressionante: o filho, a neta e o bisneto também chegaram à seleção. 

 

Estudar foi a porta de entrada do futebol internacional

 

Quem vive na Islândia não pode atravessar a fronteira para ir comprar caramelos. A ilha no meio do Atlântico Norte é isolada hoje em dia e na primeira metade do século passado as diferenças eram ainda mais acentuadas.

 

Albert Gudmundsson nasceu em 1923 e com 15 anos começou a jogar no Valur, uma equipa histórica de Reiquejavique. Com 21 anos, para prosseguir a vida académica, apanhou um avião e foi estudar Gestão para Glasgow. Daí a jogar no Rangers foi um pequeno passo.

 

A Grã-Bretanha era uma ilha completamente diferente da Islândia. Mais aberta ao mundo, mais cosmopolita, mais rica ao nível do futebol. Depois de dois anos em Glasgow, Albert despertou a atenção dos dirigentes do Arsenal e foi para Londres.

 

Era um amador de 22 anos, quase 23, quando jogou pela primeira vez com a camisola dos gunners, num empate a dois golos contra o Sparta Praga. Dias depois, estendeu a experiência ao campeonato inglês, defrontando Stoke City e Chelsea.

 

O Arsenal gostava de Albert Gudmundsson, um dos primeiros estrangeiros a atuar na equipa, mas não podia fazer dele profissional porque as regras para a concessão de um visto de trabalho eram muito complicadas e o islandês não cumpria os requisitos.

 

Da ilha para o Velho Continente

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Da Escócia para Inglaterra, de Inglaterra para França. O interesse gaulês nos serviços de Gudmundsson apareceu depois de um jogo particular do Arsenal frente ao Racing Club Paris. Em 1947/48, o médio criativo representou o Nancy e tornou-se o melhor marcador de uma equipa que terminou no meio da tabela de um campeonato em que Larbi Benbarek era uma das maiores estrelas.

 

O Nancy foi aventura de uma época. A Itália era o próximo destino e o Milan queria fazer dele uma referência do meio-campo. Não conseguiu. Albert teve azar e sofreu uma lesão grave no joelho num jogo contra a Lazio.

 

O jogador precisava de uma operação e os médicos do Inter ofereceram-se para ajudar mas os dirigentes do Milan recusaram: era demasiado arriscado. Gudmundsson não quis esperar e desvinculou-se, acabando por procurar sozinho uma operação. A intervenção correu bem e permitiu-lhe voltar a jogar, novamente em França, agora pelo Racing Club de Paris.

 

O regresso à Islândia e a carreira política

 

Albert Gudmundsson voltou ao seu país de origem doze anos depois visto como um ídolo. Tinha-se tornado o primeiro futebolista islandês profissional, abrindo caminho para um desporto que atingiu o seu ponto alto no Euro-2016, com o apuramento da equipa para os quartos-de-final.

 

Mas Gudmundsson não se limitou ao futebol. É certo que foi presidente da federação islandesa de futebol entre 1968 e 1973 mas foi na política que mais se notabilizou na segunda metade da sua vida.

 

Mantendo uma rotina que explorava os contactos que tinha estabelecido em França, abrindo um negócio de exportação e venda de produtos que começaram por ser exclusivamente roupa feminina, Albert filiou-se no Partido da Independência em 1970 e quatro anos depois estava a ser eleito deputado.

 

Daí, nunca mais parou. Em 1980, por exemplo, candidatou-se à presidência. Perdeu, mas recebeu 19,8% dos votos, que representaram 25599 islandeses. Anos depois, em 1983 foi nomeado ministro das Finanças e dois anos depois recebeu a pasta da Indústria.

 

Nem tudo foi fácil. Em 1987 esteve envolvido num escândalo de pagamento de impostos e foi forçado a demitir-se, aproveitando também para abandonar o partido, queixando-se de que não tinha recebido o apoio devido durante a polémica.

 

Albert Gudmundsson criou um novo partido, que alcançou logo um resultado histórico em 1988 (10,9%), e ganhou a companhia do filho, Ingi Björn Albertsson, que também tinha sido internacional pela Islândia.

 

A ligação com a França voltou a ser importante em 1989, quando foi nomeado embaixador da Islândia em Paris, num cargo que manteve até 1993, um ano antes de morrer.

 

O legado de Gudmundsson

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O futebol corria no sangue de Gudmundsson e foi passando geração após geração. O filho, Ingi Björn Albertsson (em cima à direita), também foi internacional e a neta, Kristbjörg Ingadóttir, não fugiu à regra e chegou ao ponto mais alto, representando a seleção da Islândia.

 

Mas não ficou por aqui. Três anos depois de ter morrido, Kristbjörg e o marido, o também internacional Gudmundur Benediktsson, tiveram um filho a quem chamaram Albert (o mais jovem na foto, em 2010, junto à estátua do bisavô).

 

Albert Gudmundsson, tal como o bisavô, seguiu a paixão no futebol e está a mostrar não ficar aquém da tradição familiar. Internacional em todas as camadas, estreou-se pela seleção principal este ano, disputando um minuto de um particular contra a China em janeiro. Em 2013 saiu da ilha e foi jogar para a Holanda – Heerenveen – onde se manteve durante dois anos.

 

Atualmente, faz parte dos quadros do PSV e já jogou na Eredivisie esta temporada, depois de três épocas a atuar pela equipa secundária. Tem 20 anos e ainda é cedo para perceber se terá um filho ou filha internacional. Se o fizer, serão cinco gerações e mais de 100 anos consecutivos da família no mais alto nível. Inédito?

RPS