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É Desporto

Adrián Solano. No Mundial de esqui sem nunca ter visto neve

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Venezuelano treinava com rodas e nunca tinha visto neve. Foi detido em Paris, suspeito de imigração ilegal, e deportado para Caracas. Mas não desistiu do sonho e participou mesmo no Mundial de Esqui Nórdico, na Finlândia. «Talvez caia muitas vezes mas o mais importante é que continuarei sempre a levantar-me.»

 

Sonho sem limites

 

Quinta-feira, 19 de janeiro de 2017. Adrián Solano, um venezuelano de 22 anos, saiu de Caracas com um sonho por alcançar: participar no Mundial de Esqui Nórdico em Lahti, na Finlândia, que arrancava a 22 de fevereiro.

 

Os planos estavam todos traçados. Ia fazer uma primeira escala em Paris com destino à Suécia, onde treinaria durante um mês antes da prova. Podia parecer apenas mais um hábito de atletas de alta competição mas para Solano era diferente: nunca tinha visto neve. Na Venezuela, o atleta praticava esqui com rodas e estava a contar com esse período para facilitar a adaptação.

 

Quando aterrou em Paris, a polícia não acreditou na história. Um venezuelano a caminho de participar num Mundial de Esqui? Pode parecer estranho, mas Solano tinha a verdade do seu lado. A verdade e os documentos que comprovavam o convite da organização e as despesas todas pagas. Nem assim a polícia francesa acreditou.

 

«Quando cheguei, expliquei que ia para a Suécia treinar. Não acreditaram que praticava esqui na Venezuela. Disse-lhes que o fazíamos sobre rodas. Só tinha 28 euros no bolso e os polícias acusaram-me de querer imigrar ilegalmente porque estava a passar mal no meu país», queixou-se Solano à AFP.

 

Demora burocrática

 

Adrián Solano teve de esperar até ser presente a um juiz, que determinou que teria de ser recambiado para a Venezuela. O sonho parecia cada vez mais distante, mas pôde viajar para Lahti depois de vários donativos.

 

A Venezuela não gostou da situação e reagiu. A Ministra dos Assuntos Exteriores, Delcy Rodríguez, queixou-se do tratamento recebido pelo atleta em Paris e referiu que, seguindo instruções do presidente Nicolás Maduro, seria apresentado um «forte protesto ao governo francês por esta afronta».

 

Imune ao conflito diplomático, Solano chegou mesmo a Lahti e viu neve pela primeira vez. «Foi super emocionante», confessou. Mas, ao mesmo tempo, lembrou que tinha pela frente uma tarefa muito complicada: «Agora estou em desvantagem. Falhei um mês de prática na neve. Mas continuo a tentar porque este é o meu sonho.»

 

Estrela na competição

O venezuelano começou a ser comparado a Eric Moussambani, o africano que nos Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000, fez furor numa piscina de natação. À sua medida, Solano demonstrou ser um peixe fora de água.

 

As dificuldades tornaram-se óbvias logo no momento da partida. Com dificuldades em manter o equilíbrio, também mostrou algum desacerto com os bastões. Queda após queda, viu o seu tempo aumentar na qualificação da prova dos dez quilómetros e, após ter partido um bastão, foi obrigado a desistir à passagem dos 3,5 quilómetros, numa altura em que já estava a mais de 27 minutos do primeiro. Foi a 22 de fevereiro.

 

Solano não desistiu e regressou no dia seguinte para a prova de sprint dos 1600 metros. Aqui não desistiu. Desequilibrou-se, caiu, teve de pedir ajuda a um assistente para saber como colocar as mãos nos bastões, mas fez questão de cruzar a linha de meta.

 

«Foi a primeira vez que se ajudou um atleta a ajustar os seus bastões», disse o diretor da prova, Jussi Prykari. Solano não se importou, foi humilde ao ponto de querer fazer o melhor possível: «Na vida não podes ter tudo. Os franceses não têm culpa mas aos polícias que não acreditaram em mim, digo-lhes que o Adrián Solano conseguiu chegar à Finlândia e competir.»

 

O atleta cumpriu a distância em 13 minutos e 49 segundos, a mais de cinco minutos do penúltimo classificado. «Apesar de não saber como é a neve e não ter tido a oportunidade de treinar, dei o meu melhor. Talvez caia muitas vezes mas o mais importante é que continuarei sempre a levantar-me.»