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É Desporto

Abdón Porte. Perder a titularidade foi desgosto que acabou em suicídio

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Tinha 38 anos quando a direção do Nacional contratou um jogador para a sua posição. Capitão, idolatrado nas bancadas, não conseguiu lidar com a frustração e decidiu pôr um fim à vida. Fê-lo depois de um último jogo, no centro do terreno, com um tiro no coração. 

 

Dar a vida pelo Nacional

 

Montevideu, 5 de março de 1918. Já passava da uma da manhã quando Abdón Porte, histórico capitão do Club Nacional de Football, se despediu dos colegas na sede do clube. A equipa tinha vencido o Charley por 3-1 há poucas horas e era hábito que jogadores e dirigentes se reunissem para festejar.

 

O último comboio estava prestes a passar, fazia sentido que Porte saísse naquela altura. Mas a ideia era outra: o médio dirigiu-se ao campo, foi em direção ao centro do terreno e deu um tiro no coração. Na mão tinha uma carta dirigida ao presidente do Nacional, a equipa ao serviço da qual tinha conquistado o título uruguaio em 1912, 1915, 1916 e 1917.

 

«Peço-lhe a si e aos seus colegas da direção que façam por mim o que fiz por vocês. Tratem da minha família e da minha querida mãe. Adeus, querido amigo da vida», escrevera.

 

O nascimento de um ídolo

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Nascido em 1980, El Índio (o primeiro em baixo à esquerda), como ficou conhecido, foi viver para Montevideu em 1908. Passou três anos a jogar na capital uruguaia, entre Colón e Libertad, até se estrear pelo Nacional a 12 de março de 1911, num encontro em que atuou como lateral direito.

 

Naquela altura, o Nacional ainda não era o que é hoje. Campeão uruguaio em 1902 e 1903, estava num período mais morno, mas a renovação do estádio Parque Central, marcada para julho de 1911, era vista como uma nova lufada de ar fresco nas aspirações do clube.

 

Correu bem. O estádio estava bonito e Abdón Porte assumia-se cada vez mais como um líder da equipa. O jogador tinha raízes humildes e tinha encontrado no futebol a melhor forma de se afirmar. Era ali que era feliz, era dentro de um campo de futebol, com uma bola nos pés e no convívio entre colegas de equipa e adversários que tinha encontrado um sentido para a vida, uma razão para acordar todos os dias e desejar algo mais.

 

Apaixonado pelo que fazia, não demorou muito até ser visto como um ídolo entre os adeptos. A sua dedicação e garra em cada encontro faziam dele um ídolo. A qualidade técnica e o jogo aéreo eram cerejas no topo de um bolo que tornava o Nacional cada vez mais uma potência do futebol uruguaio.

 

Depois de quatro títulos em seis anos, a espinha dorsal da seleção estava no Nacional. Em 1917, na segunda edição da Copa América, o Uruguai defendeu o título com novo triunfo, já com Abdón Porte na comitiva. Tudo era perfeito na vida de Porte.

 

A trágica contratação

 

A época seguinte foi fatal para El Índio. A direção entendeu que o contributo do capitão já não era o mesmo e decidiu contratar um jogador para a sua posição: Alfredo Zibechi. A opção foi um golpe duro na cabeça de Porte.

 

Sentiu-se abandonado. Percebeu que o ponto alto da sua carreira tinha passado e que nada voltaria a ser o mesmo. De herói das bancadas ia passar a esquecido. E logo agora que já tinha encontrado o amor e tinha casamento marcado para abril de 1918.

 

Abdón Porte tinha 206 jogos pelo Nacional a 4 de março, dia de um encontro particular contra o Charley. Nessa noite, ia ser titular. E fê-lo como melhor sabia, rubricando uma exibição elogiada na altura. Mostrou o que o tinha levado até ali, como se estivesse a esgotar a energia para dar uma última grande recordação a todos os que alguma vez o viram jogar.

 

A decisão estava tomada. A carta estava escrita. O tiro no coração seria apenas a metáfora perfeita de um herói tão despedaçado que não conseguia sentir mais motivação para continuar a respirar todos os dias.

 

Na manhã seguinte, o guarda do campo foi apressado pelo cão para se dirigir ao centro do terreno. Ali, arrefecia já a paixão de Porte, num corpo inerte e trespassado por uma única e certeira bala.

 

«Por que é que se matou? Porque lhe doía o coração com o desejo de vestir para sempre a camisola do Nacional. Quando lhe começaram a tremer as pernas, perante a perspetiva de ser afastado da equipa, decidiu eliminar-se», contou Luis Scapinachis, colega de equipa, décadas mais tarde.

 

Comoção nacional

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Abdón Porte não era apenas uma figura do Nacional, era uma figura do Uruguai. A notícia chocou o país e o funeral reuniu colegas de equipa, adversários e fãs. Foi enterrado ao lado dos irmãos Céspedes, Bolívar e Carlitos, que tinham morrido anos antes e eram as primeiras lendas do clube.

 

O Montevideo Wanderers ofereceu-se para fazer um jogo de beneficência e as restantes equipas, com destaque para o Peñarol, fizeram uma moção para que não houvesse qualquer jogo nesse dia em memória de Porte.

 

O herói transformou-se em lenda. A bancada poente do Parque Central foi rebatizada com o seu nome e ainda hoje o seu nome é lembrado pelos adeptos. Por mais promessas que os jogadores façam atualmente de comer a relva e dar a vida por um clube, nunca ninguém foi tão sincero e levou a profecia tão à letra como Porte.

 

Doze anos depois da morte, em 1930, o Parque Central recebeu o primeiro Mundial de sempre. Ali, no centro do terreno onde Porte tinha perdido a vida, o futuro maior campeão da história, o Brasil, deu o pontapé de saída contra a Jugoslávia a 14 de julho.

 

O campeão seria o Uruguai, seleção que não chegou a jogar no Parque Central. Entre os campeões, estava um, e um único, colega de equipa de Porte: Héctor Scarone, ídolo na conquista da Copa América em 1917 e autor de um golo no Mundial. Algures, Porte sorriu e festejou. O legado do seu Nacional estava vivo.

RPS