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É Desporto

A substituição que surpreendeu o mundo

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Jasper Cillessen jogou 121 minutos do jogo com a Costa Rica até dar lugar a Tim Krul. Van Gaal apostou no guarda-redes do Newcastle para o desempate nos penáltis e a aposta valeu a pena. Holandês defendeu os remates de Bryan Ruiz e Michael Umana e garantiu o apuramento da Laranja para as meias-finais. 

 

A dança das substituições

 

Há poucas componentes estratégicas mais interessantes de seguir durante um jogo de futebol do que a dança das substituições. Quem mexe primeiro, de que forma decorre o braço-de-ferro entre quem mete mais um avançado e quem repensa a possibilidade de equilibrar na defesa, a conquista do meio-campo, a poupança das substituições.

 

Tudo isto é ponderado a cada segundo pelos treinadores e, num evento tão importante como o Mundial, ganha ainda mais importância. Mais não seja porque os 90 minutos podem não ser suficientes. E os trinta adicionais poderão não ser mais do que um prefácio para o desempate por penáltis.

 

A 5 de julho de 2014, na Arena Fonte Nova de Salvador da Baía, Louis Van Gaal escreveu um capítulo que entrou para a história. A Holanda e a Costa Rica não saíam do nulo na disputa por um lugar nas meias-finais da competição. Tanto o catedrático holandês como Jorge Luis Pinto foram conservadores nas suas decisões e quiseram aguardar para ver o que o jogo lhes oferecia.

 

Fugir ao habitual

 

A Costa Rica foi a primeira a mexer. A seleção estava mais cansada – já tinha sido forçada a disputar um prolongamento e penáltis com a Grécia – e Pinto fez uma substituição aos 66 minutos e outra aos 79. Pelo meio, Van Gaal mexeu aos 76.

 

O prolongamento chegou e o holandês tinha mais opções. Por esta fase, perante o pragmatismo das duas equipas, é natural cair sempre na mesma tentação: olhar para o banco e ver quem é que se assume como um bom marcador de grandes penalidades e possa fazer a diferença caso o jogo chegue a essa fase.

 

Isso é o habitual e já não surpreende ninguém. Mas Van Gaal fugiu à rotina, decidiu ser inovador e deixou o mundo boquiaberto com a decisão. À boa maneira do andebol, em que os suplentes costumam entrar para defender os livres de sete metros, a Holanda revolucionou e esgotou as substituições com a entrada de Tim Krul, guarda-redes do Newcastle, para o lugar de Jasper Cillessen.

 

Seria Krul um especialista? Seria uma situação que estava planeada desde o início? Seria a diferença entre os dois muito pouca, mas Van Gaal teria vontade de fazer entrar alguém com mais frescura mental e, ao mesmo tempo, destabilizar emocionalmente os costa-riquenhos? Na altura, pouco importou.

 

Toda a gente reparou no momento e o risco valeu a pena. A Holanda foi perfeita da marca dos onze metros e Krul defendeu as grandes penalidades de Bryan Ruiz e Michael Umana. Ali, naquele momento, a genialidade de uma decisão – que poderia ter facilmente caído para o outro lado – foi aclamada por todos. Mas qual foi exatamente o raciocínio por trás da substituição?

 

«Pensámos muito bem»

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As primeiras declarações após o jogo centraram-se, naturalmente, no que tinha acabado de acontecer. E aí, sem problema, Van Gaal desfez as dúvidas: «Pensámos muito bem. Todos os jogadores têm certas aptidões e qualidades e nem sempre coincidem. Sentimos que o Krul seria mais apropriado para defender penáltis».

 

Tim Krul fez parte da discussão, Cillessen não. «Não lhe dissemos nada porque não queríamos que soubesse antes do jogo. Mas, como expliquei, cada jogador tem as suas qualidades específicas. O Tim tem um alcance maior e um melhor registo nos penáltis do que o Jasper.»

 

O guarda-redes do Newcastle esteve sempre ao corrente do plano. «Falámos com ele. Sabia que tinha de estar preparado e resultou. Se não tivesse resultado, o erro teria sido meu», continuou Van Gaal.

 

Krul foi o herói e estava fora de si. «Não me apercebi que o jogo estava mesmo quase a acabar. Passei o jogo todo no banco, tivemos oportunidades atrás de oportunidades e não as aproveitámos. De repente, mandam-me lá para dentro e nem há tempo para pensar, defende-se dois penáltis e agora estamos nas meias-finais do Mundial.»

 

Ironia das ironias, a Holanda foi eliminada nas meias-finais pela Argentina... no desempate por penáltis. Desta vez, Van Gaal esgotou as substituições no início do prolongamento e foi mesmo Cillessen a (tentar) defender. Não conseguiu parar nenhum dos quatro remates argentinos, enquanto Vlaar e Sneijder desperdiçaram para os holandeses.